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Porteira nova no pasto seco da saúde

 Porteira nova no pasto seco da saúde

Concreto não cura dor de barriga. Cimento não abaixa a pressão. A cena bizarra que engoliu a nossa UPA nesta semana é o retrato exato de quem governa olhando para a foto de campanha, e não para o espelho da realidade.

O prefeito Odair Silva armou o picadeiro. Sorriso largo no rosto, câmera na mão. Discursou bonito sobre os 1.650 metros quadrados de piso fresco na UPA. Prometeu acabar com a lama na chuva. Prometeu varrer a poeira na seca. Falou até em preservar a área verde. Um paraíso.

É como o dono de sítio que gasta as economias comprando uma porteira de jatobá talhado, enquanto a vaca leiteira morre atolada no brejo nos fundos do pasto.

A obra do estacionamento da UPA é útil? Ninguém discute. Fazer asfalto é fácil, não exige empatia. Exige licitação. A gestão pública, porém, tem uma fila implacável de prioridades. Quando a maquiagem da calçada chega muito antes do médico no plantão, a vaidade engole a decência.

O sol baixou. O cenário derreteu. Horas depois, Raphael Oliveira pisou no mesmo chão que Odair havia concretado com palavras. O candidato derrotado puxou o microfone e escancarou o abismo. Ele não achou cimento. Encontrou carne humana. Gente que sofre. Gente esquecida. Uma senhora com a pulseira da triagem apertando o pulso desde as dez e meia da manhã. A pressão estourando. O corpo pedindo arrego. Do lado de fora, o desespero cru: uma mãe segurava o filho pequeno nos braços, mole, sem força nas pernas. 

Duas realidades colidindo no mesmo endereço.

A nossa UPA sangra há anos, é uma goteira crônica que todo mundo conhece e desvia o olhar. O que embrulha o estômago agora não é apenas a falta de médico. É a insensibilidade aguda de Odair. A frieza de balcão de açougue. O prefeito vai até a porta do desespero, pisa no terreno da dor alheia, mas só consegue enxergar a própria obra. Ele não entrou na sala de espera. Não teve a coragem cívica de olhar nos olhos da mãe em pânico.

Política de verdade se faz com calo na mão, escutando a feira livre, lendo o cansaço no rosto do peão. A atual administração virou uma cerca de fazenda pintada de branco. Impecável vista da rodovia. Mas lotada de cupim roendo a madeira por dentro.

O povo anota tudo no caderninho da memória. A dor de um filho largado sem atendimento marca feito ferro quente em lombo de gado. O pátio da UPA vai ficar um tapete, liso, sem uma única poça d’água para sujar o sapato lustrado de quem governa. Só nos resta uma dúvida. Na próxima vez que as urnas abrirem, esse asfalto novo vai servir para acelerar a ambulância ou para despachar de vez quem esqueceu como se faz para ser humano?

Redação

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