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Entre o discurso e a prática

 Entre o discurso e a prática
  • Túlio Guitarrari é filósofo, técnico contábil, jornalista e pós-graduado em Ciência Política e Teologia.

A gestão municipal de Barretos abriu, nesta semana, uma nova frente de conflito com os contribuintes. Por meio de um vídeo publicado em seu perfil oficial no Instagram, a prefeitura reiterou o que já havia anunciado anteriormente: a intensificação da fiscalização e a aplicação de multas a cidadãos que mantiverem seus lotes com mato alto ou acúmulo de lixo. A iniciativa, no entanto, tem provocado um efeito imediato e adverso: moradores utilizam os próprios comentários da publicação para denunciar que o poder público não cumpre o dever de casa.

Enquanto a peça publicitária exige que o cidadão zele por sua propriedade, a fim de evitar a proliferação de doenças e preservar a estética urbana, praças, canteiros centrais e áreas institucionais sob responsabilidade da administração exibem sinais evidentes de abandono. Forma-se, assim, uma contradição de difícil justificativa: o rigor da lei recai sobre o particular, mas não se traduz na mesma eficiência por parte do Executivo. Em outras palavras, evidencia-se o contraste entre o peso da caneta e o peso da roçadeira.

A mensagem do governo local é clara ao afirmar que a limpeza constitui uma questão de saúde pública. Todavia, esse argumento perde consistência diante da realidade observada: mato alto encobre placas de sinalização e avança sobre calçadas em bairros periféricos e também em regiões centrais. Ao reforçar o caráter punitivo da campanha, a prefeitura parece priorizar a arrecadação por meio de multas, em detrimento de um cronograma eficaz de manutenção das áreas sob sua responsabilidade.

Moradores do bairro Vida Nova relatam que o mato em áreas públicas já alcança cerca de um metro de altura. “Eles cobram da gente com vídeos bem produzidos na internet, mas, onde há academia ao ar livre e parquinho infantil, a situação é de abandono. Torna-se incoerente cobrar aquilo que não se entrega”, afirma um contribuinte que prefere não se identificar.

Outro morador publicou recentemente um vídeo mostrando a presença de cobras em áreas tomadas pelo mato alto — situação que, seja em terreno público ou privado, favorece tanto a proliferação do mosquito Aedes aegypti quanto o aparecimento de animais peçonhentos. Trata-se, portanto, de um risco real e coletivo. Ainda assim, o tratamento desigual entre o dever do Estado e a obrigação do cidadão compromete o princípio da razoabilidade administrativa.

A equipe de zeladoria, amplamente defendida pelo prefeito Odair Silva durante a campanha, ainda não demonstrou, até o momento, resultados compatíveis com as expectativas criadas, mesmo após a recente mudança no comando da pasta.

O descumprimento das normas relativas à limpeza de terrenos privados resultará em notificações que, se não atendidas, poderão ser convertidas em multas expressivas, lançadas diretamente no CPF do proprietário. Diante desse cenário, o cidadão barretense passa a viver um dilema: precisa manter seu lote limpo para evitar prejuízos financeiros, enquanto convive com o descaso do poder público logo à frente de sua residência.

Em síntese, a prefeitura busca retomar o controle da paisagem urbana por meio da imposição de sanções. Contudo, enquanto as ações práticas não acompanharem o rigor das penalidades, a percepção de injustiça continuará a alimentar o debate público — tanto nas esquinas quanto nas redes sociais da cidade.

Paz e Bem!

Redação

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