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Quando a dor negra assusta mais do que o feminicídio

 Quando a dor negra assusta mais do que o feminicídio
  • Michela Rita é historiadora, gestora pública e professora, com MBA em Gestão Escolar.

As imagens da reconstituição do crime levantam uma pergunta incômoda: o que nos choca mais, a violência que mata mulheres ou a dor de quem fica?

Uma mulher foi assassinada.

Essa deveria ser a principal notícia.

Mas bastaram algumas imagens da reconstituição do crime para que parte do debate público mudasse de direção. De repente, já não estávamos discutindo apenas o feminicídio que tirou a vida de Dayse. Estávamos discutindo a reação de um homem que acabara de perder alguém querido.

E talvez isso diga muito sobre nós.

O que mais nos chocou? A violência que matou uma mulher ou a revolta de um familiar diante do homem acusado de tirar sua vida?

Não escrevo estas palavras para justificar agressões. A lei existe e deve valer para todos. Mas existe uma pergunta que não sai da minha cabeça desde que assisti às imagens: como esperamos que uma família reaja diante de uma dor tão brutal?

Queremos serenidade? Controle emocional? Silêncio?

A dor tem protocolo?

Talvez a questão seja ainda mais profunda.

Se aquele homem fosse branco, estivesse em um bairro nobre e usasse sobrenomes conhecidos na cidade, estaríamos fazendo exatamente o mesmo debate? As imagens seriam interpretadas da mesma forma? A resposta institucional da polícia seria a mesma?

Não tenho como responder com certeza.

Mas sei que a pergunta precisa ser feita.

Porque o Brasil foi construído sobre desigualdades raciais que não desapareceram. Elas aparecem na renda, no acesso à educação, na expectativa de vida, na violência e, muitas vezes, até na forma como enxergamos o sofrimento das pessoas.

Corpos negros são frequentemente percebidos como mais perigosos. Vozes negras são frequentemente percebidas como mais agressivas. A indignação negra costuma ser vista como ameaça antes de ser reconhecida como dor.

Por isso, defender a apuração da atuação policial durante a reconstituição não é atacar instituições. É exigir transparência. É perguntar se a força utilizada foi proporcional. É defender direitos humanos.

Mas não podemos perder o foco.

A primeira violência foi o feminicídio.

Foi o feminicídio que destruiu uma família.

Foi o feminicídio que levou um familiar ao desespero.

Foi o feminicídio que colocou uma cidade inteira diante de perguntas que talvez não queira responder.

Dayse deveria estar viva.

Mas não está.

E enquanto discutimos a reação de uma família devastada pela dor, talvez estejamos evitando a pergunta mais importante de todas: por que ainda convivemos com uma sociedade que se escandaliza mais com a revolta do luto do que com a violência que o produziu?

Redação

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