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Herdeiras da resistência, semeadoras do futuro

 Herdeiras da resistência, semeadoras do futuro
  • Michela Rita é historiadora, gestora pública e professora, com MBA em Gestão Escolar.

O 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, é mais do que uma data comemorativa. É um chamado à memória. Um convite para reconhecer as mulheres negras que construíram este país com suas mãos, seus saberes, seus afetos e sua resistência, mesmo quando a história insistiu em apagá-las.

Criada em 1992, durante o I Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, a data simboliza a luta das mulheres negras contra o racismo, o sexismo e todas as formas de desigualdade. No Brasil, ela também homenageia Tereza de Benguela, liderança quilombola que fez do Quilombo do Quariterê um território de liberdade, organização e esperança.

A historiadora Beatriz Nascimento nos ensinou que a história da população negra não está apenas nos arquivos. Ela vive na memória, nos territórios, nas famílias e nas relações que atravessam gerações. Ao compreender os quilombos como espaços permanentes de resistência, Beatriz nos mostra que cada mulher negra que rompe barreiras também dá continuidade à luta de suas ancestrais.

É nessa perspectiva que dialoga o pensamento da filósofa Sueli Carneiro. Ao denunciar a inseparabilidade entre racismo e sexismo, Sueli nos lembra que as mulheres negras sempre precisaram lutar para serem reconhecidas como sujeitas de direitos, de conhecimento e de poder. Ainda assim, foram elas que sustentaram comunidades, preservaram culturas, educaram gerações e transformaram a sociedade, mesmo quando lhes foi negado o devido reconhecimento.

Como mulher negra, historiadora e educadora, sei que nenhuma conquista é individual. Se hoje posso ocupar espaços que por muito tempo nos foram negados, é porque outras mulheres os abriram com coragem, trabalho e resistência.

Neste 25 de julho, minha homenagem é para Rita Bagagem, Dona Bilica, Elisa Lucas, Elza Fonseca, minha avó Aparecida e minha mãe Sandra. Mulheres que me ensinaram, cada uma à sua maneira, que a resistência também se faz com afeto, cuidado, dignidade e esperança. Ao escrever seus nomes, faço um gesto de memória, porque elas também são parte da história que merece ser contada.

Espero que, ao ocupar os espaços que hoje me são possíveis, eu também esteja abrindo caminhos para as meninas e mulheres negras que virão depois de mim. Que elas encontrem menos portas fechadas e mais oportunidades. Que possam sonhar sem que a resistência seja sua única herança. Que ocupem todos os espaços que lhes pertencem por direito.

Talvez esse seja o maior sentido do 25 de julho: honrar quem veio antes de nós, fortalecer quem caminha ao nosso lado e preparar o caminho para quem ainda está por vir. Afinal, nenhuma mulher negra chega sozinha. Somos herdeiras da resistência e, com esperança, também semeadoras do futuro.

Redação

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