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DESDE 2015

A república da porteira sempre aberta

 A república da porteira sempre aberta

A porteira estava escancarada. Só esqueceram de avisar que ela abria apenas para quem chegasse carregando um balde de afagos.

No Reino da Porteira Sempre Aberta mora um personagem curioso. Quando caminhava pela estrada, reclamava da poeira, do barro, do capim alto e até da cerca torta do vizinho. Bastou ganhar a chave da fazenda para descobrir que poeira é patrimônio histórico, barro é estratégia administrativa e cerca serve para separar amigos de visitantes.

Milagre de gabinete.

Dizem que o rei é profundamente apaixonado pela liberdade. Desde que ela não fale alto. Muito menos escreva. O galo pode cantar. O problema é quando resolve anunciar que o sol nasceu antes da autorização do terreiro oficial. Aí aparece um fiscal para medir o volume do cocoricó.

Estranha fazenda.

Quando o vaqueiro estava do lado de fora, enxergava todos os cupins da porteira. Bastou mudar de lado e os cupins viraram detalhe de carpintaria. Quem antes distribuía chicotadas verbais agora pede delicadeza para qualquer pergunta. A pele do poder parece ser feita de porcelana. Aguenta desfile. Não suporta espelho.

Na feira da política existe um vendedor especializado em discursos. Leva Deus numa sacola, a pátria em outra, a família debaixo do braço e a liberdade pendurada no retrovisor da caminhonete. O freguês compra o pacote inteiro. Em casa descobre que a liberdade veio sem pilha.

A cidade conhece esse enredo. Todo interior conhece. O coronel muda de chapéu, troca o cavalo pela caminhonete, aposenta o relógio de bolso e passa a usar telefone de última geração. O manual continua igual. Amigo recebe café. Discordante ganha cerca elétrica.

Quem governa deveria gostar da crítica como o lavrador gosta da chuva. Nem toda tempestade é confortável. Quase toda colheita depende dela. Cercar a imprensa porque ela publica notícias desagradáveis é como culpar o espelho pelo cabelo despenteado. O espelho jamais inventou um fio branco.

Enquanto isso, a carroça segue rangendo. Professores reclamam. Artistas reclamam. Servidores reclamam. Moradores reclamam. Cada crise é tratada como se fosse culpa do mensageiro que chegou correndo, nunca do incêndio que iluminava a noite inteira.

Os aduladores prosperam. São como aqueles passarinhos que acompanham o boi apenas porque sabem que sempre sobra algum carrapato. Cantam bonito. Nunca avisam quando a ponte está podre.

A democracia, essa velha senhora teimosa, possui um defeito insuportável para quem acredita ser dono da praça: ela insiste em permitir que alguém faça perguntas. Perguntas atravessam muros, pulam cercas e não pedem licença ao gabinete.

A porteira continua aberta. Resta descobrir se ela conduz à praça pública ou apenas ao curral dos aplausos.

Redação

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