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O Natal acendeu as luzes — mas iluminou também os nossos problemas

 O Natal acendeu as luzes — mas iluminou também os nossos problemas

Barretos inaugurou sua decoração de Natal na quinta-feira (4). Foi bonita? Foi. A praça estava iluminada? Estava. Teve Papai Noel, discurso de prefeito, elogios protocolares, fotos sorridentes e aquele clima de “agora vai”. Tudo dentro do script. Mas, como todo fim de ano, o Natal também acende aquilo que a administração prefere deixar no escuro: a capacidade real de uma cidade entregar qualidade de vida para sua população.

Se a gente lê o texto distribuído pela assessoria de imprensa da Prefeitura — e eu li — percebe logo uma tentativa de transformar o óbvio em grande feito. “Barretos não ficou sem água”, “a avenida foi revitalizada”, “a praça está bonita”, “plantamos a grama na época certa”. Tudo isso é importante, claro. Mas, sejamos sinceros: isso não é prêmio. É obrigação. É o mínimo que se espera de um governo municipal com orçamento bilionário.

E por falar em obrigação, o Natal da Família 2025 virou palco de discursos, agradecimentos e promessas emocionadas sobre amor, sensibilidade e espírito de união. Tudo válido. Mas tudo também muito previsível — e, sobretudo, insuficiente diante da realidade que pulsa do lado de fora das luzes da Praça Francisco Barreto.

Porque enquanto o prefeito celebra o gramado bem plantado, a cidade inteira ficou sabendo, nesta segunda (8), que os trabalhadores da empresa Global S/A — responsáveis pelo transporte urbano — decretaram greve por tempo indeterminado a partir do dia 11. Greve de ônibus em pleno dezembro, mês de comércio funcionando até 22h, mês de movimento, de gente que precisa trabalhar mais, vender mais, circular mais, viver mais.

E greve por quê?

Por salários e vale-alimentação congelados desde junho. Junho!

De que adianta luzes piscando na praça se o trabalhador não consegue chegar ao trabalho?

Para piorar a comparação, São José do Rio Preto — cidade com gestão de outro espectro político, vale sublinhar — anunciou ônibus gratuitos das 18h à meia-noite, de 5 a 24 de dezembro. Gratuitos. Enquanto por aqui o vereador Tiagão Alves pediu humildemente apenas ajuste temporário de horário. Nem ônibus grátis. Nem ampliação de frota. Só horário estendido para evitar que funcionários voltem para casa no sufoco. E a Prefeitura? Até aqui, silêncio.

É nas pequenas coisas que uma administração revela seu tamanho — e o tamanho que reserva ao seu povo.

Enquanto isso, a fala oficial insiste em transformar o básico em épico. “Barretos está mais bonita.” Está? Talvez. Mas a beleza que importa não é a da grama nova: é a da cidade funcionando. Cidade que respeita seus trabalhadores, que organiza seu transporte, que pensa logística, segurança, mobilidade.

De que adianta árvore de Natal fotogênica se a população enfrenta ponto de ônibus lotado, transporte precário e ausência de respostas do poder público?

A verdade é dura, mas precisa ser dita: o Natal serviu mais para iluminar os problemas de Barretos do que para escondê-los.

E aí chegamos à grande contradição do momento: a cidade vibra com apresentações na praça — e elas são, sim, importantes — mas fica para trás quando comparada ao que outras cidades da região estão fazendo. Rio Preto oferece ônibus noturno gratuito. Ribeirão Preto entrega Natal de proporções metropolitanas. Olímpia faz do Natal um produto turístico. Sertãozinho mescla festa com desenvolvimento econômico.

E Barretos?

Barretos se contenta com a praça iluminada — e ignora que o resto da cidade continua no escuro.

As apresentações culturais são válidas, as formaturas são lindas, o Cemart e a Orquestra fazem um trabalho admirável. Mas Barretos precisa parar de tratar a Praça Francisco Barreto como se fosse a cidade inteira. Praça bonita não compensa ônibus em greve. Luzes não apagam problemas estruturais. Discursos emocionados não resolvem mobilidade urbana.

E, sobretudo, não resolvem a falta de ambição administrativa.

Não se faz cidade grande pensando pequeno.

Não se faz Natal grandioso ignorando que centenas de trabalhadores chegarão atrasados, cansados e inseguros porque o transporte não funciona.

Não se faz política social olhando apenas para o coreto.

Barretos merece um Natal bonito.

Mas merece, antes de tudo, uma cidade funcional.

Merece governo que antecipa problemas, não que reage depois da crise.

Merece mais que frases emotivas: merece ação.

A Praça pode estar linda — e está — mas o povo continua precisando de algo muito mais valioso que luzes: respeito, planejamento, transporte decente e prioridade real nas políticas públicas.

Porque no final das contas, como diria qualquer bom analista: Natal não é só para emocionar.

Natal é para iluminar — inclusive aquilo que muita gente preferia deixar no escuro.

E Barretos, minha gente, está precisando urgentemente acender outras luzes.

Redação

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