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Tupy, o homem que viu a brincadeira virar história

 Tupy, o homem que viu a brincadeira virar história
  • Por Sueli Fernandes

Na década de 1950, Barretos respirava boi e esperança.

A cidade, já consolidada como polo da pecuária nacional, pulsava ao ritmo das comitivas que cruzavam seus caminhos de terra batida, conduzindo não apenas o gado, mas também sonhos, negócios e promessas de prosperidade. Desde a inauguração do Frigorífico, em 1913, Barretos aprendera a lidar com o movimento intenso do dinheiro e das pessoas. Onde havia fartura, havia também a noite: bares cheios, música alta, cassinos, dançarinas, bordéis e histórias que começavam ao cair da tarde e só terminavam quando o sol tornava a tocar os telhados da cidade.

Foi nesse caldeirão humano, em que trabalho e boemia dividiam a mesma mesa, que algo improvável começou a tomar forma. Em 15 de julho de 1955, um grupo de 20 jovens, reunidos em torno de uma mesa de bar, fez nascer uma ideia que não cabia naquele espaço pequeno nem naquele momento despretensioso: surgiam ali Os Independentes. As regras eram claras e quase solenes — maiores de 22 anos, solteiros e financeiramente independentes. Oficialmente, o objetivo era nobre: promover festas beneficentes em comemoração ao aniversário da cidade e valorizar a cultura sertaneja.

Sueli Fernandes e Seu Tupy.

Mas José Brandão Tupynamba, um desses 20 jovens, com o humor que lhe era tão característico, confidenciou-me certa vez, rindo de si mesmo:
No começo era farra mesmo. Foi uma brincadeira. Depois, os motivos nobres se sobrepuseram.”

Tupy foi o último fundador a nos deixar.

José Brandão Tupynambá, o popular Tupy, nasceu em 15 de dezembro de 1927, em São José do Rio Preto. Escolheu Barretos para viver — e Barretos o escolheu para ficar. Em 2025, recebeu o título de cidadão honorário, reconhecimento oficial de uma ligação que já era afetiva e eterna. No mesmo ano, seu nome foi cravado na história de pedra e concreto, batizando um espaço de eventos no Parque do Peão — o palco maior da obra que ajudou a erguer.

No domingo, 3 de maio de 2026, aos 98 anos, Tupy partiu. Partiu no ano simbólico em que a Festa completou 70 anos — como quem escolhe o instante exato para fechar um ciclo. A despedida, realizada no dia seguinte, foi serena. Amigos e familiares, reunidos no velório, tinham a certeza de que Tupy viveu bem, aproveitou a vida o quanto pôde. Sobre o corpo, os símbolos de suas duas grandes paixões: a bandeira de Os Independentes e uma camisa do Corinthians.

Mesmo com o passar dos anos, Tupy nunca se afastou da vida cultural da cidade que ajudou a projetar. Sua presença era quase certa em exposições, encontros de música sertaneja, sempre discreta, porém carregada de significado. Sentado nas primeiras fileiras ou misturado ao público, acompanhava tudo com olhar atento e sorriso sereno, como quem reconhece, em cada acorde de viola e em cada peça exposta, um fragmento da própria história. Não buscava holofotes — preferia o contato simples, a conversa tranquila, o cumprimento afetuoso. Estar ali era, para ele, uma forma silenciosa de reafirmar pertencimento, de demonstrar que a cultura sertaneja não se preserva apenas com discursos, mas com presença, escuta e respeito. Tupy entendia que a cultura vive enquanto há quem a acompanhe de perto.

Aquela brincadeira, nascida entre copos e gargalhadas, cresceu. Cresceu porque carregava verdade. Cresceu porque estava enraizada na cultura de uma cidade que aprendia, ao mesmo tempo, a olhar para o futuro sem soltar a mão do passado.

Dali nasceria a Festa do Peão de Boiadeiro.

Nos primeiros anos, a Festa era quase íntima, profundamente local. Realizada no Recinto Paulo de Lima Corrêa, reunia moradores, boiadeiros e curiosos, todos movidos pelo mesmo sentimento ancestral: celebrar o homem do campo, a lida dura, o trabalho que moldou Barretos. As arquibancadas eram menores, os encontros mais próximos, os rostos conhecidos. A Festa era extensão da cidade — e a cidade se reconhecia nela.

Mas algumas histórias nascem grandes demais para permanecerem pequenas. A cada edição, o público aumentava. Primeiro vieram os visitantes das cidades vizinhas; depois, de outros estados. Barretos começou a se preparar como quem pressente o inevitável: hotéis lotados, ruas cheias, comércio aquecido, a cidade inteira girando em torno daquela celebração que já não cabia em si mesma.

Veio, então, o Parque do Peão — símbolo concreto da transformação. Um espaço pensado para acolher multidões, erguer uma arena à altura da grandiosidade alcançada pela Festa e afirmar, sem timidez, que Barretos ocupava, definitivamente, lugar de destaque no cenário nacional e internacional. O rodeio se profissionalizou, competidores de outros países passaram a disputar títulos ali, e o nome da cidade cruzou fronteiras, línguas e culturas.

Ainda assim, em meio à modernização, algo essencial permaneceu intacto.

O coração da Festa continuou a bater no mesmo compasso. O rodeio seguiu soberano. A Queima do Alho manteve o fogo aceso, preservando sabores, gestos e narrativas que não se aprendem nos livros. A moda de viola, a catira e o som prolongado do berrante resistiram ao tempo e ao barulho, lembrando a todos que aquela Festa nasceu do chão, da poeira e do suor.

Esse delicado equilíbrio entre tradição e futuro não aconteceu por acaso. Foi construído por homens que compreenderam que crescer não significava romper com as raízes. Entre eles, Tupy. Fundador, dirigente e testemunha viva da transformação, acompanhou cada etapa com olhar atento e respeito absoluto às origens. Presidiu Os Independentes nos anos de 1963 e 1964, quando a Festa já apontava para um destino grandioso, mas ainda precisava de mãos firmes para não perder sua essência.

Foi durante sua gestão, em 1964, que a Festa de Barretos alcançou também o reconhecimento oficial do Estado, sendo declarada, por decreto estadual, de utilidade pública — gesto formal que traduzia, no papel, o impacto real que a Festa já exercia na vida econômica e social do município. O documento apenas confirmou aquilo que a cidade já sentia na prática: a Festa era mais que uma celebração.

Graças a Tupy e a seus companheiros, Barretos tornou-se mais que uma cidade: tornou-se referência. Hoje, basta alguém dizer “sou de Barretos” para despertar, em quem ouve, curiosidade, admiração e respeito. É o prestígio silencioso de quem pertence a um lugar que aprendeu a transformar cultura em identidade.

E enquanto houver Festa do Peão, Tupy permanecerá, não apenas como fundador, mas como símbolo vivo de um tempo em que sonhar grande ainda parecia brincadeira. Permanecerá no eco daquela mesa de bar, na risada despretensiosa que não levava a própria ousadia tão a sério, na leveza de quem jamais imaginou que, naquela tarde comum, ajudava a escrever um dos capítulos mais importantes da história de Barretos.

A brincadeira virou Festa. A Festa virou patrimônio. E o patrimônio virou identidade. Guardar essa memória é mais do que recordar um homem — é compreender como Barretos aprendeu a ser grande sem perder a simplicidade.

Ele se foi. Em sua despedida, o amigo e companheiro de Os Independentes, Mussa Calil Neto, o homem que conduziu a Festa do Peão ao Parque do Peão e ajudou a projetá-la para o mundo, pronunciou palavras de agradecimento e amizade. E, ao toque do berrante executado por Paulinho 1001, a cidade disse adeus ao último fundador de Os Independentes, como quem reconhece que alguns homens partem, mas deixam caminhos abertos por onde a história segue passando.

Assim, toda vez que o berrante soar, que a poeira subir na arena, que a viola chorar uma moda antiga, haverá ali um pouco de Tupy — lembrando a todos que a história de Barretos não vive apenas nos livros, mas também nos gestos que atravessam o tempo e se recusam a desaparecer.

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