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A educação não se escuta de longe

 A educação não se escuta de longe
  • Michela Rita é historiadora, gestora pública e professora, com MBA em Gestão Escolar.

Barretos iniciou, em 9 de outubro, uma consulta pública on-line para receber contribuições da população ao Plano Municipal de Educação 2026–2036. A iniciativa é importante: estamos falando de um documento que orientará os rumos da educação no município pelos próximos dez anos. Mas uma pergunta precisa ser feita: quem consegue participar dessa escuta?

Ao escolher exclusivamente o formulário on-line como caminho de participação, corre-se o risco de deixar de fora justamente quem mais precisa ser ouvido. Nem todas as famílias têm acesso adequado à internet, familiaridade com ferramentas digitais ou tempo disponível para preencher formulários. Participação pública não pode ser apenas uma possibilidade formal; precisa ser uma oportunidade real.

O educador Paulo Freire, em sua defesa de uma educação democrática, compreendia o diálogo e a participação coletiva como elementos fundamentais para transformar a realidade. Essa perspectiva também deve orientar a construção das políticas educacionais. Afinal, como elaborar um plano que responda às necessidades da comunidade sem criar condições para que ela participe efetivamente de sua elaboração?

Por que as escutas públicas não podem acontecer também nos pátios das escolas? Por que não organizar rodas de conversa nos bairros, encontros em diferentes regiões da cidade e momentos de diálogo com famílias, estudantes, profissionais da educação e demais moradores?

A escola é muito mais do que um lugar onde crianças aprendem conteúdos. É um espaço de encontro, convivência e construção coletiva. Quando abre suas portas para ouvir a comunidade, fortalece vínculos e torna a educação parte viva do território.

Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de reconhecer seus limites. O formulário on-line pode continuar existindo, desde que acompanhado de alternativas presenciais, acessíveis e descentralizadas.

O Plano Municipal de Educação não pode nascer distante das pessoas que serão diretamente afetadas por suas decisões. Se queremos uma educação democrática, precisamos começar pelo modo como decidimos seus caminhos.

Afinal, uma cidade que planeja a educação para os próximos dez anos precisa, antes de tudo, aprender a escutar quem vive nela.

Redação

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