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A sela antes do cavalo: o chicote da revanche política
Tem gente que compra a sela antes mesmo de laçar o cavalo. Flávio Bolsonaro e parte de seus apoiadores já demonstram confiança numa vitória que ainda depende do eleitor. A turma trata a disputa como se a fatura estivesse liquidada. Uma deputada aparece em manifestação com um relho, gesto que provoca uma reflexão incômoda: no Brasil, o chicote não é um símbolo qualquer. Carrega a memória da escravidão e da violência contra quem sempre trabalhou de sol a sol. O recado que esse tipo de imagem transmite merece ser discutido. Afinal, o País precisa de propostas para tapar buracos nas estradas, baratear o adubo e colocar comida no prato, não de gestos que alimentem a impressão de revanche.
Eleição também se decide no bolso e no bucho. Décadas acompanhando pesquisas de opinião me ensinaram uma verdade elementar: a cabeça do eleitor real nem sempre opera na frequência dos discursos de Brasília. O sujeito comum quer emprego, feijão com arroz na panela e médico no postinho. Enquanto isso, declarações e movimentos de setores políticos ligados ao bolsonarismo levantam uma questão importante: haverá espaço para um projeto de governo ou a disputa continuará marcada pelo acerto de contas com os adversários? A preocupação aumenta quando se considera o embate em torno dos acontecimentos de 2022 e das instituições que atuaram na defesa da ordem constitucional.
O brigadeiro Baptista Junior, ex-comandante da Aeronáutica que relatou sua posição contrária a uma ruptura institucional, tornou-se uma das figuras associadas aos debates sobre a reação militar aos acontecimentos daquele período. O episódio serve de alerta sobre a importância de preservar a autonomia das Forças Armadas diante de pressões políticas. Do outro lado desse debate estão figuras como Augusto Heleno e Braga Netto, cujas atuações e situações judiciais devem ser examinadas à luz dos fatos documentados e das decisões da Justiça. Qualquer discussão sobre anistia, revisão de penas ou benefícios penais precisa respeitar a Constituição e os procedimentos legais. O que não se pode admitir é que a lei seja tratada como instrumento de conveniência partidária.
Na diplomacia, as manifestações de Eduardo Bolsonaro sobre a política externa e a representação brasileira no exterior também merecem atenção. A eventual substituição de diplomatas de carreira por indicações políticas levanta dúvidas sobre os critérios de escolha e os efeitos para os interesses nacionais. Embaixadas não devem ser tratadas como prêmio de lealdade. Representar o Brasil exige preparo, capacidade de negociação e conhecimento das relações internacionais. A pergunta é simples: o que prevalecerá, a competência para defender o País ou a proximidade com quem ocupa o poder?
As universidades e os centros de pesquisa, responsáveis por parte importante da produção científica brasileira, também precisam de liberdade para trabalhar sem interferências políticas indevidas. O mesmo vale para a cultura e para a imprensa. Críticas a governos, instituições e veículos de comunicação fazem parte da democracia; censura e retaliação contra quem pensa diferente, não. Diante do histórico recente de tensões entre setores políticos e instituições públicas, é legítimo cobrar compromissos claros com a liberdade de expressão e com o respeito ao contraditório.
Um novo mandato, seja de quem for, não pode se transformar em instrumento de revanche. A tentação de usar o poder para retaliar adversários é um risco que precisa ser observado em qualquer campo político. Mas, quando declarações e gestos alimentam essa percepção, cabe ao eleitor cobrar explicações e compromissos concretos. A democracia não combina com a ideia de que vencer uma eleição significa receber autorização para atropelar instituições ou perseguir opositores.
Chibata no lombo nunca engordou bezerro de corte. Ódio não gera safra. O sertanejo aprendeu a ter paciência com o sol quente da seca, mas não nasceu para marchar calado atrás de liderança alguma. Quem sua a camisa de sol a sol vai mesmo entregar a chave do terreiro a quem não consegue apresentar propostas sem transformar adversários em inimigos? A resposta cabe ao eleitor. E deve ser dada nas urnas, com consciência, liberdade e sem medo.


