Orgulho também tem memória em Barretos
Celebrar o Dia do Orgulho LGBTQIAPN+, em 28 de junho, é reafirmar que existir com dignidade nunca deveria ser um ato de coragem mas ainda é. A data marca a Revolta de Stonewall, em 1969, quando pessoas LGBTQIAPN+ enfrentaram a violência policial e transformaram a vergonha imposta em orgulho político. Desde então, essa luta ecoa pelo mundo. E em Barretos, ela também tem história.
O escritor João Silvério Trevisan, em Devassos no Paraíso, mostra como a trajetória LGBTQIAPN+ no Brasil foi construída entre silenciamentos, perseguições e resistências. A história oficial quase sempre tentou apagar esses corpos, como se nunca tivessem existido. Mas existiram. E resistiram.
Em Barretos, um desses nomes foi Beni. Benedito Carlos Piacentini foi cronista, carnavalesco, memorialista e um dos primeiros homens a viver abertamente sua homossexualidade na cidade entre as décadas de 1940 e 1970. Quando, em 1947, surgiu no Carnaval usando fantasias femininas, causou espanto numa sociedade profundamente conservadora. Mas aquele gesto era mais do que irreverência: era uma afirmação pública de existência.
Beni não apenas viveu sua dissidência ele a registrou. Em livros como Beni, o Mito Sexual de Uma Época e A Casa Verde da Beira da Linha :Onde a AIDS Não Tinha Vez, preservou personagens, afetos e cenas da vida noturna barretense, revelando uma cidade paralela à narrativa oficial. Como sugere Trevisan, há sempre uma memória subterrânea correndo por baixo da superfície da história. Beni foi um desses rios.
Falar de orgulho em Barretos é reconhecer que essa luta não é importada, nem recente. Ela nasceu aqui também, nos carnavais, nos becos, nos bares e nos corpos que ousaram existir apesar de tudo.
Vivemos ainda um Brasil contraditório: avanços em direitos convivem com violência, preconceito e exclusão. No interior, muitas vezes, a intolerância veste a máscara da tradição. Por isso, o orgulho continua sendo necessário.
Orgulho não é apenas festa. É memória, política e sobrevivência. É o direito de amar, de existir e de ocupar a cidade sem medo. E se hoje Barretos pode falar sobre diversidade, é porque pessoas como Beni, como tantas outras esquecidas, abriram caminho.
Como nos ensina Trevisan, a liberdade nunca foi dada; ela sempre foi conquistada. E lembrar disso é também uma forma de continuar lutando.



