Barretos sabe fazer festa. Mas precisa aprender a contar que ela existe
Barretos sabe fazer festa. Mas precisa aprender a contar que ela existe
Há uma característica curiosa na política brasileira: governantes adoram inaugurações, visitas de autoridades e fotos ao lado de figuras importantes. É compreensível. A política vive de símbolos. E poucos símbolos são mais fortes do que a presença de um governador em uma cidade do interior.
Foi exatamente isso que aconteceu nesta semana em Barretos. A visita do governador Tarcísio de Freitas mobilizou a máquina de comunicação da Prefeitura. Houve divulgação, repercussão, entrevistas, registros fotográficos e ampla circulação de informações. Durante dois dias, a cidade respirou o assunto.
Mas existe uma pergunta inevitável: por que a mesma energia não foi empregada para divulgar um dos maiores eventos esportivos que Barretos recebe nos últimos anos?
Desde quinta-feira, a cidade é sede da 41ª edição dos Jogos Abertos da Juventude do Estado de São Paulo. Não estamos falando de uma competição qualquer. São cerca de 4 mil atletas de aproximadamente 150 municípios paulistas disputando vagas para representar o Estado na etapa nacional promovida pelo Comitê Olímpico do Brasil.
É gente chegando, hotéis ocupados, restaurantes movimentados, famílias circulando, delegações inteiras conhecendo a cidade. É turismo. É economia. É esporte. É juventude. É visibilidade positiva.
E, ainda assim, a sensação predominante é de silêncio.
Pergunte para dez moradores de Barretos o que aconteceu na cidade nesta semana. Muitos saberão responder sobre a visita do governador. Poucos saberão que a cidade se transformou temporariamente na capital paulista do esporte juvenil.
Esse contraste revela algo importante sobre a comunicação pública. Nem sempre ela divulga aquilo que é mais relevante para a população. Muitas vezes ela divulga aquilo que é mais conveniente para a política.
Os Jogos da Juventude mereciam estar nas ruas, nas escolas, nas praças, nas redes sociais e nos veículos de comunicação. Mereciam contagem regressiva. Mereciam bandeiras espalhadas pela cidade. Mereciam mobilização popular. Mereciam orgulho coletivo.
Os mais antigos certamente se lembram dos Jogos Regionais realizados durante a gestão do prefeito Uebe Rezeck. Naquela época, Barretos recebeu cerca de 10 mil atletas e promoveu uma abertura grandiosa, compatível com a tradição de uma cidade que sempre soube receber visitantes. Havia clima de evento. Havia expectativa. Havia participação popular.
Agora, o campeonato começa de forma quase invisível.
E existe outro elemento que chama atenção. A cerimônia oficial de abertura será realizada justamente no Rochão, ginásio que esteve interditado por determinação do Ministério Público. Durante meses, pairaram dúvidas sobre as condições do espaço. Questionamentos foram feitos. Respostas não vieram.
Agora a Prefeitura informa que o AVCB está regularizado, que todas as exigências foram cumpridas e que o local está apto para receber atletas e público. Se é assim, ótimo. A cidade ganha um equipamento esportivo novamente disponível.
Mas a situação deixa uma reflexão. Durante muito tempo o Rochão foi apresentado como um problema. De repente, transforma-se no palco principal de um evento estadual.
Talvez falte comunicação. Talvez falte transparência. Talvez falte explicar melhor para a população o que mudou entre a interdição e a liberação.
No fim das contas, o episódio dos Jogos da Juventude ensina uma lição simples. Política é importante. Governadores são importantes. Prefeitos são importantes.
Mas atletas de 15, 16 e 17 anos que atravessam o Estado carregando sonhos também são.
Barretos tem tradição de receber multidões. Tem vocação para eventos. Tem estrutura. Tem história.
O que parece faltar, neste momento, é convencer a própria população de que algo grande está acontecendo diante dos seus olhos.
Porque um evento só existe de verdade quando a cidade participa dele.
E, por enquanto, os Jogos da Juventude parecem estar acontecendo mais dentro das quadras do que dentro do coração dos barretenses.


