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Da TV Soares à Vale TV: a trajetória da primeira emissora de Barretos

 Da TV Soares à Vale TV: a trajetória da primeira emissora de Barretos
  • Por Sueli Fernandes

Muito antes das redes sociais, dos serviços de streaming e da comunicação instantânea, a televisão ocupava um papel central na vida das pessoas. Em Barretos, esse papel ganhou um significado especial com o surgimento de uma emissora genuinamente local, criada para dar voz à população e registrar o cotidiano de uma cidade em constante transformação. A trajetória da primeira televisão barretense é, portanto, também a trajetória de uma comunidade que aprendeu a se reconhecer na própria tela.

Ao longo das últimas décadas, a televisão em Barretos foi construída com persistência, criatividade e um profundo compromisso com a comunidade. Essa jornada começou a ser desenhada em 1989, quando a então TV Soares Educativa deu seus primeiros passos burocráticos, movida por grandes sonhos de comunicação regional. O projeto, idealizado pelo empresário João Carlos Soares de Oliveira Júnior, carinhosamente conhecido como Juninho Soares, (foto ao lado) nasceu com uma proposta inovadora para a época: utilizar a televisão como ferramenta de educação e desenvolvimento social.

Foi em 26 de maio de 1990 que esse sonho se tornou realidade, com a fundação oficial da TV Soares Educativa, a primeira emissora de televisão de Barretos.

Poucos meses depois, em agosto de 1990, veio seu primeiro grande marco: a exibição de um documentário sobre a Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos. Mais do que uma estreia, foi uma declaração de propósito. Desde o início, a TV Soares revelou sua vocação: contar as histórias da própria cidade. A recepção calorosa do público abriu caminho para uma programação cada vez mais voltada à cultura local, à informação e ao fortalecimento da identidade barretense.

Cinco anos depois, a TV Soares já dava mostras de sua força e diversidade. Como registrou a Folha Nordeste em 1995, na reportagem “Barretos tem cardápio variado”, a emissora consolidava sua presença no cenário regional operando pelo canal 31 UHF, com alcance também em Colina, além de atuar como retransmissora da TVE do Rio de Janeiro. Por trás desse crescimento estava uma construção coletiva, marcada pela paixão, pelo empenho e pela crença no poder transformador da comunicação.

Entre seus projetos mais relevantes destacava-se o programa “Soares Supletivo Aberto”, criado para democratizar o acesso à educação em uma época em que essa ainda era uma realidade distante para muitos brasileiros. A relevância dessa iniciativa torna-se ainda mais evidente quando se observa o contexto da época. Segundo dados do IBGE, o Brasil contabilizava, no início da década de 1990, mais de 19 milhões de pessoas acima de 14 anos que não sabiam ler nem escrever. Nesse cenário, o programa cumpria um importante papel social ao oferecer conteúdo educacional por meio da televisão.

Seu alcance ultrapassou as fronteiras regionais ao ser exibido em rede nacional pela TV Manchete, projetando o nome de Barretos para todo o país e demonstrando que uma emissora do interior poderia contribuir significativamente para a educação em escala nacional.

Enquanto o “Soares Supletivo Aberto” ampliava o acesso ao ensino, o “Jornal Soares” consolidava-se como uma das principais referências informativas da cidade. Outras iniciativas reforçavam o papel da emissora como ponte entre cidadania e cultura. Destacavam-se, por exemplo, as transmissões das sessões da Câmara Municipal, que aproximavam a população da atuação de seus representantes, e a cobertura dos jogos do Barretos Esporte Clube e do futebol de várzea, fortalecendo o vínculo entre comunidade e esporte.

A programação refletia a vida pulsante da cidade: debates no “Tirando Limpo”, entrevistas no “Close Ligado”, colunismo social no “Famma”, além da valorização da música regional nas manhãs de domingo com Cacildo Júnior e Paulo Belmiro. Era, como bem definiu a reportagem da época, um verdadeiro “cardápio variado” — uma televisão que dialogava diretamente com sua gente.

Com o falecimento de seu fundador, em 1998, e o passar dos anos, a emissora foi se transformando para acompanhar as mudanças do tempo. Em 2008, numa tentativa de reforçar ainda mais sua identidade local, passou a se chamar TV Barretos (TVB). Mais tarde, adotaria o nome Vale TV, ampliando seu olhar para além dos limites municipais e fortalecendo sua atuação regional.

Durante esse período, a TVB manteve uma grade diversificada, com produções independentes, programas locais e iniciativas de teledramaturgia, como A Turma do Peãozinho, demonstrando a disposição da emissora em experimentar novos formatos e ampliar seu vínculo com diferentes públicos.

O pioneirismo de Juninho Soares foi reconhecido em 2012, quando a recém-inaugurada TV Câmara de Barretos recebeu seu nome, em homenagem ao legado de quem ousou dar voz à cidade e abrir caminho para a comunicação televisiva local.

Ainda assim, a trajetória da emissora não foi isenta de desafios. Já como Vale TV, em 2025, enfrentou um de seus momentos mais delicados, chegando a suspender suas atividades por quase um ano. A interrupção representou um período difícil para a comunicação local, silenciando temporariamente uma das vozes mais tradicionais da cidade.

Recentemente, a emissora retomou suas atividades, reafirmando sua essência: ser um espaço de informação, entretenimento, memória e identidade local. Nesse novo capítulo, antigas vocações encontram novas formas de comunicação. Entre elas, destaca-se o formato contemporâneo do podcast, que resgata o espírito das conversas, dos debates e da proximidade com o público que sempre marcaram sua trajetória.

A retomada da emissora abriu espaço para novos projetos e para o reencontro com antigos propósitos de comunicação comunitária. É nesse contexto que surge minha participação no podcast De Tarde Pod, apresentado pelo jornalista Milton Figueiredo em parceria com o simpático burrinho Adevilso, personagem interpretado pelo artista multifacetado Wagner Cotrin.

Trata-se da retomada de um projeto interrompido em 2025, agora renovado como um espaço dedicado a compartilhar histórias, memórias e curiosidades sobre Barretos e sua gente. E, por ser transmitido ao vivo, oferece algo ainda mais especial: a oportunidade de dialogar diretamente com o público, trocar ideias, ouvir relatos e construir novas narrativas de forma coletiva.

Registro de uma tarde especial no De Tarde Pod. Na imagem, André Camilo, interventor da Vale TV que assumiu o desafio de reerguer a emissora, eu, Milton Figueiredo e Adevilso. Um encontro que celebrou a força da comunicação, das boas conversas e da memória local.

Assim, da TV Soares à Vale TV, o que permanece não é apenas um nome, mas um patrimônio da comunicação barretense e uma missão contínua: contar, preservar e compartilhar as histórias de uma cidade que nunca deixou de se reconhecer na tela.

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