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Cemitério da Paz: uma história que nasceu em turbulência

 Cemitério da Paz: uma história que nasceu em turbulência
  • Por Sueli Fernandes

Se o nome sugere tranquilidade, sua origem conta outra história. No final do século XIX, enquanto Barretos tentava organizar sua vida política, tarefa que, ao que tudo indica, não era exatamente simples, surgia o futuro Cemitério da Paz. E o curioso é que sua construção parecia seguir uma lógica bastante peculiar: quanto mais se proclamava o desejo de modernização e avanço, mais surgiam dúvidas, especialmente quando o assunto eram os gastos e decisões administrativas. Talvez por isso o cemitério tenha começado sua trajetória com um pé na história e outro… no terreno das desconfianças.

Cemitério da Paz. Registro de Sueli Fernandes.

Para compreender suas origens, é preciso voltar a 1897, quando Luiz Ribeiro Borges assumiu a chefia do Executivo municipal. À época, não havia eleições diretas para prefeito como hoje se conhece. O cargo — então chamado de intendente — surgia de um arranjo indireto: os cidadãos elegiam vereadores, e dentre estes saía aquele que governaria a cidade. O próprio intendente, portanto, também ocupava uma cadeira na Câmara Municipal, num sistema em que o poder executivo e o legislativo se entrelaçavam de forma quase inseparável.

Foi sob esse modelo que Luiz Ribeiro Borges deu início à construção do novo cemitério. No entanto, seu governo não seguiu um curso pacificado. Pelo contrário, o ano de 1898 ficou marcado por uma paralisia inquietante: por meses, a Câmara Municipal não conseguiu sequer realizar sessões regulares. Faltava o essencial: o número mínimo de vereadores. Apenas três apareciam com constância: o próprio intendente Borges, o coronel Raphael da Silva Brandão e o tenente Joaquim Ângelo. Dos oito representantes esperados, os demais, inclusive presidente, vice-presidente e suplentes, ausentavam-se, como se a cidade estivesse tomada por um silencioso protesto coletivo.

Essa ausência generalizada denunciava uma insatisfação profunda com os rumos da administração local. Era um tempo em que o poder não apenas se exercia, mas também se esvaziava diante da descrença.

A mudança veio com as eleições de 30 de outubro de 1898. O major Silvestre de Lima emergiu como o vereador mais votado, seguido pelo doutor Pedro Paulo de Souza de Nogueira. A nova composição política assumiu sob expectativas renovadas. A sessão de posse foi um evento digno de registro: autoridades religiosas e membros da justiça compareceram; o promotor público, Dr. Antônio Olympio Rodrigues Vieira, não poupou palavras ao desejar tempos melhores para Barretos; e, entre discursos e aplausos, a música também teve seu espaço, uma banda regida por Olavo de Carvalho executou o Hino Nacional na abertura e encerrou os trabalhos com composições próprias, como se quisesse marcar aquele momento com um sopro de esperança.

Mas o passado recente ainda projetava sua sombra.

Logo na segunda sessão do novo governo, veio à tona a prestação de contas do início das obras do cemitério. O que deveria ser um simples ato administrativo revelou-se motivo de surpresa e inquietação. Os valores apresentados causaram espanto ao novo intendente. Havia algo descompassado entre o que fora gasto e aquilo que se via erguido.

Decidiu-se, então, criar uma Comissão Técnica para investigar o caso. Coube a dois nomes distintos tal tarefa: o doutor Robert John Reid, engenheiro escocês formado pela Universidade de Oxford, e o coronel Domiciano Alves Ferreira, agrimensor experiente e figura importante na região. O resultado de seus estudos foi contundente: as obras realizadas e os materiais empregados não justificavam sequer metade do valor gasto na gestão anterior.

Como se não bastasse, os arquivos da Câmara não guardavam registros autorizando aquelas despesas. O silêncio documental pesava tanto quanto qualquer evidência. Diante disso, os vereadores tomaram uma decisão firme: o ex-intendente deveria ressarcir aos cofres públicos a diferença apurada.

Assim, o Cemitério da Paz foi erguido não apenas sobre terra e pedra, mas também sobre desconfianças e disputas políticas — um espaço que, antes de acolher os mortos, testemunhou a inquietude dos vivos.

E há ainda um detalhe que parece escapar à lógica dos calendários oficiais: antes mesmo de sua inauguração prevista para 1º de janeiro de 1900, o cemitério já cumpria sua função silenciosa. O primeiro sepultamento ocorreu em 7 de dezembro de 1899, três semanas antes da cerimônia oficial. Coube a Antônio da Cunha Vasconcelos, ex-presidente da Câmara Municipal, inaugurar o local não com discursos ou fitas cortadas, mas com o peso definitivo de seu enterro.

Assim, o Cemitério da Paz começou sua história de modo antecipado, quase como se o tempo ali obedecesse a outra ordem, menos formal e mais inevitável.

Hoje, ao percorrer seus caminhos, talvez poucos imaginem que sob o nome sereno se abriga uma origem marcada por conflito e recomeços. O Cemitério da Paz, afinal, não nasceu em paz, mas foi, ao longo do tempo, aprendendo a acolhê-la.

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