CPI da Praça Francisco Barreto avança e solicita novos esclarecimentos sobre obras
Mariano Dias: o médico que desafiou a lepra
- Por Sueli Fernandes
Em cada cidade há personagens que parecem maiores do que o próprio tempo em que viveram. Em Barretos, o nome de Raymundo Mariano Dias ecoa como o de um médico que ousou acreditar que a cura podia brotar das florestas, que a caridade não se dobrava diante da indiferença e que a fé podia caminhar lado a lado com a ciência. Sua trajetória mistura hospital improvisado, pesquisas botânicas, espiritismo, coragem e tragédia — uma história que começa com esperança e termina como legado.

Médico maranhense, chegou a Barretos no início do século XX e, em pouco tempo, tornou-se figura incontornável na vida comunitária. Em 1911, em colaboração com a Sociedade Espírita “25 de Dezembro” fundou a Casa de Caridade, primeira iniciativa hospitalar da cidade, assumindo a direção clínica. Ali, entre paredes modestas e recursos escassos, improvisava enfermarias, organizava atendimentos e garantia que centenas de pacientes recebessem cuidados. Em apenas um ano, mais de 240 pessoas haviam passado pela instituição, prova incontestável de que Barretos clamava por um hospital maior, que viria a ser a Santa Casa de Misericórdia.

À frente da Casa de Caridade, Mariano enfrentava um paradoxo curioso: oferecia benefícios inestimáveis à população, mas não recebia apoio proporcional à grandeza de seus serviços. O motivo? A vinculação ao espiritismo, que despertava reservas em alguns setores. Mas se pensavam que isso o abateria, enganavam-se. Mariano costumava dizer: “A obra de caridade não conhece tropeços nem obstáculos, pois o homem caridoso não se importa com eles; vê o seu destino e segue-o seja qual for o caminho; só temem os obstáculos os não caridosos.” Para ele, caridade não era moeda de troca, mas exercício de altruísmo puro.
Por volta de 1915, já à frente da única instituição hospitalar da cidade, Mariano passou a se inquietar com uma cena recorrente nas ruas: leprosos pedindo esmola, invisíveis para muitos, mas impossíveis de ignorar para ele. A exclusão social era fruto do medo de contágio, que os afastava da convivência e lhes negava qualquer oportunidade de trabalho, tornando a mendicância quase inevitável. Incapaz de permanecer apenas como espectador, Mariano decidiu agir. Movido pela comoção e amparado por suas duas formações — Farmácia e Medicina — acreditava que nas florestas brasileiras se escondia o remédio capaz de vencer a lepra. Assim teve início sua aventura científica: um misto de laboratório improvisado e fé na natureza. Tinturas, gotas, doses calculadas, o ouvido atento a cada reação dos pacientes. Nenhum incidente grave, apenas a esperança crescendo, delicada, como uma planta que rompe a terra e começa a florescer.
Foi então que descobriu uma espécie vulgar dos campos paulistas, apelidada de “gordinha”, “pau santo” ou “orelha de burro”. Dela extraiu os primeiros sinais animadores, sobretudo nos casos nervosos da doença. Depois, trouxe do Maranhão outra planta, a “aningas”, e os resultados se mostraram ainda mais promissores. Gotas, depois injeções, reações de frio, calor e suores abundantes — e, junto delas, melhoras que impressionavam até os mais céticos.
Convicto de que estava no caminho certo, escreveu ao presidente de São Paulo, Altino Arantes, pedindo apoio para continuar os estudos no Hospital de Guapira. Não foi atendido. Seguiu então para o Rio de Janeiro, buscou o Hospital dos Lázaros, mas também ali a experiência foi suspensa. Obstáculos, portas fechadas, burocracia. Nada disso o desanimou.
Persistente, procurou apoio de químicos e colegas, como o dr. Kuhlmann que o ajudou na classificação das plantas. No Dispensário Moncorvo, ainda no Rio de Janeiro, o Dr. Sylvio e Silva isolou os alcaloides das plantas e testou-os em pacientes, obtendo bons resultados. Mariano, fiel ao seu espírito generoso, não queria guardar segredo: dizia que seria desumano esconder uma descoberta dessa natureza. Por isso, divulgava em jornais paulistas e cariocas os nomes científicos — Clusia Niti Flora e Dieffenbachia Seguinhe Schot — e preparava artigos para revistas médicas.
Na época, o conhecimento científico encontrava nos jornais um espaço privilegiado de circulação, funcionando como meio de troca e acompanhamento das descobertas médicas, já que havia escassez de revistas especializadas.
É verdade: Mariano não encontrou a cura definitiva para a lepra. Mas seus esforços incansáveis trouxeram alívio e esperança a muitos doentes. As tinturas e injeções que desenvolveu não erradicaram a enfermidade, mas suavizaram dores, reduziram sintomas e devolveram ânimo a pacientes geralmente condenados ao abandono. Mais do que resultados clínicos, sua dedicação ofereceu dignidade. Ao tratar os leprosos com atenção e respeito, rompeu barreiras de exclusão e mostrou que a ciência, mesmo quando não vence por completo a doença, pode transformar vidas ao amenizar o sofrimento e reacender a esperança.
Hoje, a doença é conhecida como Hanseníase, nome adotado em homenagem ao médico norueguês Gerhard Armauer Hansen, que identificou em 1873 o Mycobacterium leprae, agente causador da enfermidade. A mudança de nomenclatura, oficializada no Brasil no século XX, buscou reduzir o estigma associado ao termo “lepra”, carregado de preconceito e exclusão. Importante destacar que a hanseníase tem cura, e o tratamento é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Não por acaso, o mês de janeiro é dedicado à conscientização e aos cuidados da hanseníase, lembrando que informação, diagnóstico precoce e adesão ao tratamento são caminhos para vencer não apenas a doença, mas também o preconceito que a acompanha.
Seu ingresso no espiritismo se deu de forma incomum. Fundador e primeiro presidente do Grêmio Literário e Recreativo de Barretos, reuniu um grupo de intelectuais que, entre debates e saraus, também se divertia com as modas espirituais da época: adivinhações, leitura de mãos e as célebres experiências com os copos. Numa dessas noites, o jogo ganhou contornos inesperados. Um dos participantes entrou em transe mediúnico, tomou papel e lápis e começou a escrever. O espírito que se manifestava clamava por justiça: dizia ter sido assassinado por um padre e descrevia detalhes que, ao serem investigados, mostravam-se assustadoramente verdadeiros. Animados, os jovens decidiram comunicar o delegado e já preparavam escavações para resgatar o corpo, quando veio a reviravolta. Na véspera da aventura, o médium voltou a escrever, revelando que tudo não passava de uma travessura de um espírito brincalhão, que percebera a ingenuidade do grupo diante dos mistérios da espiritualidade. A lição foi certeira: dali em diante, resolveram levar o assunto a sério e dedicar-se com afinco aos estudos espirituais.
Em 1º de janeiro de 1925, Mariano fundou a União Evangélica “Fé e Esperança”, instalada na rua 8 esquina com a avenida 25, tornando-se seu primeiro presidente. Mas o destino, sempre caprichoso, lhe reservava uma tragédia. Na noite de 26 de março de 1926, após uma reunião espírita, a caminho de casa, foi assassinado com dois tiros e três apunhaladas.

A sociedade espírita, porém, não deixou que sua obra se apagasse. Poucos dias depois, em 4 de abril de 1926, inauguraram um asilo para pessoas com transtornos mentais, batizado em sua homenagem: Asilo Dr. Mariano Dias. Mais tarde, o nome se transformaria em Hospital Psiquiátrico “Dr. Mariano Dias”, perpetuando o ideal de seu patrono.
Colaborador assíduo de jornais espíritas de Matão, Franca e outras cidades, Mariano tornou-se patrono de instituições diversas, sempre lembrado pela humanidade, estudos espíritas e dedicação aos doentes. Mais do que médico, era um homem de fé. Sabia que a lepra não era apenas um mal físico: era também exclusão, vergonha, abandono. E contra isso, sua luta era dupla — curar o corpo e devolver dignidade.
No fim das contas, Mariano Dias não encontrou apenas plantas. Encontrou coragem para enfrentar governos, persistência para atravessar fronteiras e generosidade para compartilhar o que descobria. Sua história é prova de que Barretos não se construiu apenas com instituições e progresso material, mas também com homens que ousaram acreditar que até nas florestas mais densas podia brotar a cura.
