Odair, democracia não se governa com inimigos imaginários
Existe algo de profundamente contraditório na atual postura do prefeito Odair Silva. Um homem que nasceu na comunicação — que foi radialista, vendedor, comentarista de rodeio na Rede Vida, empresário, funcionário de grupo de jornal, rádio e outdoor por quase três décadas — agora parece desconfortável com o funcionamento elementar da imprensa: a crítica.
Odair fez carreira no microfone. Construiu reputação mediando narrativas. Sabe como manchetes são feitas. Sabe que notícia não é homenagem. Ainda assim, age como se a imprensa devesse operar sob aplauso permanente.
No segundo dia de mandato, 2 de janeiro de 2025, convocou jornalistas. Falou em portas abertas. Transparência. Respeito. Combate às fake news. Prometeu água limpa, tapa-buracos, mutirão de zeladoria, avanço no turismo. A retórica foi correta. Republicana. Institucional.
Mas discurso inaugural não sustenta governo. Postura diante da crítica, sim.
Quando O Sertanejo publicou reportagens sobre a condução da crise envolvendo a Orquestra Sinfônica e seus músicos — assunto público, legítimo e de interesse coletivo — a resposta não foi argumentativa. Foi classificatória. O jornal passou a ser tratado como “inimigo”.
E aqui é preciso ser claro.
Não estamos falando de publicidade oficial. O Sertanejo nunca dependeu de patrocínio da Prefeitura. O que ocorreu foi algo mais grave: anunciantes privados que mantinham contratos regulares com o veículo passaram, subitamente, a recuar. Conversas “informais” começaram a circular. Advertências veladas. Recomendações discretas. Nenhum documento. Nenhuma assinatura.
Mas em política, recados não precisam de carimbo.
Quando um governante rotula um veículo como adversário e, logo depois, patrocinadores privados começam a se afastar, não se trata de acaso mercadológico. Trata-se de ambiente induzido. De pressão por proximidade. De sinalização política que produz efeito econômico.
Na literatura democrática, isso é chamado de estrangulamento indireto por via relacional — uma forma sofisticada de constrangimento que dispensa decreto e opera pelo clima de poder.
E não é caso isolado.
O padrão de confronto também alcança outros profissionais e veículos locais, como Arnaldo Tadeu Campos e Danilo Auada. Não pertencem a este jornal. Têm suas próprias plataformas. Ainda assim, passaram a figurar no radar de embate. Quando o conflito se multiplica, já não é ruído. É método.
A história recente oferece lição clara. O ex-presidente Jair Bolsonaro escolheu transformar a imprensa em adversária permanente. O resultado foi polarização crônica, desgaste institucional, aumento de rejeição e governabilidade tensionada. Pesquisas de opinião mostraram que o confronto constante consolidou apoio radical, mas ampliou rejeição entre eleitores moderados — exatamente os que definem eleições.
Brigar com a imprensa pode energizar uma base.
Mas corrói pontes.
E governo municipal vive de ponte, não de trincheira.
Prefeito não é celebridade.
Prefeitura não é fã-clube.
E cidade não é palco de transmissão.
A imprensa não existe para idolatrar. Existe para fiscalizar. Questionar. Contrapor versões oficiais. A crítica não é ataque pessoal. É instrumento de controle democrático.
A pergunta que fica é inevitável: o que Odair esperava? Cobertura reverente? Silêncio diante de decisões controversas? Gratidão editorial por promessas administrativas?
Governar sob escrutínio é parte do contrato republicano.
Se a água melhorar, será noticiado.
Se o asfalto avançar, será noticiado.
Se houver erro, também será.
O Sertanejo não teme rótulos. Não negocia linha editorial. Não aceita intimidação — direta ou indireta. E quanto maior a tentativa de enquadramento, maior a responsabilidade de resistência.
Porque democracia local não se sustenta em aplauso automático. Sustenta-se em crítica livre.
Odair pode optar por duas estratégias: maturidade institucional ou escalada conflitiva. Uma amplia legado. A outra encurta horizonte político.
E prefeito que conhece comunicação deveria saber: quando o poder tenta silenciar a imprensa, a notícia não desaparece. Ela ganha força.
A imprensa não é plateia.
É contrapoder.


