Secretário de Obras detalha prioridades, obras em andamento e planejamento urbano de Barretos
Ato falho?
Vamos retomar o assunto da semana passada. Lembra-se? Trata-se da entrevista concedida pelo prefeito Odair Silva (REP) a uma emissora de rádio da cidade, na qual ele fez afirmações, no mínimo, questionáveis sobre sua relação com os vereadores — especialmente com aqueles de quem não reclama. Curiosamente, os parlamentares que exercem seu papel legítimo de fiscalizar o Poder Executivo são justamente os que recebem críticas públicas do prefeito. Como já pontuamos no artigo anterior, ele chegou a utilizar expressões que não condizem com a liturgia do cargo que ocupa.
Segundo o próprio prefeito, nas primeiras tratativas políticas, ele acreditava que estava tudo alinhado para que todos buscassem recursos para Barretos. Disse ter imaginado que havia consenso porque as propostas apresentadas pelos vereadores à população constavam de seu plano de governo. Ainda na entrevista, Odair afirma que, ao “retornar para casa” — expressão que sugere o início efetivo de sua administração, em 2025 —, passou a perceber uma “movimentação estranha”. Diante disso, chamou os vereadores, um a um, para dialogar e, segundo suas palavras, precisou fazer “um trabalho político interno de trazer cada vereador”.
É nesse ponto que a situação se torna particularmente grave. Questionado pelo jornalista Rogério Magrão se teria sido necessário conceder cargos, o prefeito respondeu sem hesitação: “Lógico que teve, Rogério! Eu vou mentir, falar que não? É lógico que teve!”. Em seguida, afirmou que todos os secretários do primeiro escalão foram escolhidos por ele, o que considerou “um grande avanço”, já que, em administrações passadas, havia secretários indicados por vereadores. Ainda assim, reconheceu que “existe, sim, uma indicação ali, outra aqui” e completou: “A gente chegou a ter votação com 15, com 14, com 13 votos (de vereadores) em projetos”.
Essas declarações vão muito além de uma resposta despretensiosa em entrevista: configuram, na prática, uma autodenúncia. Há pessoas ocupando cargos na Prefeitura, recebendo recursos públicos, exclusivamente em razão de uma troca de favores entre os Poderes Executivo e Legislativo. Apadrinhados políticos de vereadores estariam alocados em setores da administração municipal — e isso não é uma interpretação deste articulista, mas uma afirmação feita pelo próprio prefeito. Vale reiterar suas palavras, ao responder à pergunta “Teve que dar cargo?”: “Lógico que teve, Rogério! Eu vou mentir, falar que não? É lógico que teve!”.
É verdade que o prefeito tem o direito legal de nomear pessoas para cargos de confiança. No entanto, ao admitir que concede cargos a indicados de vereadores em troca de apoio político, deixa explícito o famigerado “toma lá, dá cá” entre os Poderes Executivo e Legislativo, sem que haja, necessariamente, preocupação com o real benefício à população. Afinal, se um projeto considerado bom para a cidade só é aprovado mediante a concessão de cargos a apadrinhados políticos, o próprio prefeito admite que alguns vereadores não legislam em favor do interesse público, mas em benefício próprio, utilizando a máquina pública como moeda de troca.
Minha crítica, registre-se, não se dirige à pessoa do prefeito em si. Ele apenas verbalizou aquilo que muitos de seus antecessores jamais admitiriam publicamente. Talvez tenha se empolgado com o ambiente do rádio, com o microfone à sua frente, e resgatado a retórica afiada com que criticava administrações passadas. Talvez tenha sido um desabafo político. A crítica central, aqui, recai sobre a postura de determinados vereadores.
E é nesse ponto que surgem questionamentos inevitáveis: quem são os vereadores cujos apadrinhados precisaram ser contemplados com cargos para que projetos fossem aprovados? Esses benefícios se limitaram às nomeações? Quem são esses apadrinhados? Em quais cargos estão lotados? Desempenham, de fato, suas funções ou apenas recebem salários? Qual o valor dessas remunerações? Permanecerão por toda a administração ou são nomeações temporárias? Quanto custarão aos cofres públicos, considerando salários mensais, 13º e férias?
Se fosse fazer uma crítica direta ao prefeito, ela se limitaria a um ponto: ele sabe exatamente quem são esses vereadores, pois negociou diretamente com eles; conhece os indicados, sabe onde estão lotados e quanto custam aos cofres públicos de Barretos. Sabe, inclusive, se exercem bem ou não suas funções. Diante disso, já que a situação foi “jogada ao ar”, que se diga tudo. Que se nomeiem os envolvidos. Que se fale claramente à população: “Povo de Barretos, meu projeto ‘tal’ era importante para a cidade por ‘tais razões’, mas o vereador ‘tal’ só concordou em aprová-lo mediante a nomeação de seu apadrinhado político”. Eis o verdadeiro mea culpa em favor do interesse público. O apadrinhado é “fulano”, exerce “tal função” e custará “x reais” aos cofres municipais.
Como diz o ditado popular, não existe almoço grátis. Aquela cesta básica, aquele saco de cimento, aquela dentadura, aqueles R$ 50 deixados na porta do boteco em troca de um voto custam caro à cidade. Não vêm de graça. Muitos corruptos pagam, porque sabem que, uma vez eleitos, recuperarão — e com folga. É preciso consciência, minha gente, na hora de escolher nossos representantes. Embora, convenhamos, o corrupto não representa ninguém além de si mesmo. E, nesse jogo, o povo acaba pagando a conta.
Paz e bem a todos.

