Meretrício e influência: disputas entre cortesãs
- Por Sueli Fernandes
Barretos sempre foi uma cidade moldada por rivalidades. Elas atravessavam a política, ecoavam nos salões do poder e, quando a noite caía, desciam ao submundo do meretrício. A instalação do frigorífico transformou a cidade em um polo econômico dinâmico e fez circular grandes volumes de dinheiro, criando as condições ideais para a formação de uma vida boêmia intensa e disputada. Negociantes, fazendeiros e extensas comitivas de gado passaram a transitar por suas ruas, trazendo não apenas negócios, mas também desejos, excessos e tensões ocultas. Onde havia boi, havia dinheiro; e onde o dinheiro se concentrava, floresciam ambições, jogos de poder e intrigas que alcançavam até os lupanares. Foi nesse cenário pulsante que, nas décadas de 1930 e 1940, duas cortesãs de luxo se impuseram como protagonistas da noite barretense, dividindo prestígio, clientelas e rivalidades: Rosinha da Porteira e Maria Alves.
Rosinha da Porteira
Nascida em Sertãozinho, Rosinha recebeu o apelido ainda menina, por volta dos 13 anos, quando trabalhava abrindo e fechando a porteira de uma fazenda do governo. Pelo serviço, os viajantes lhe davam gorjetas. Sua juventude, porém, foi marcada por um episódio perturbador: violentada por um viajante, recebeu dinheiro e acabou expulsa de casa. Perdida e sem apoio familiar, passou por Barrinha, onde conheceu um funcionário do Frigorífico Anglo. Foi por intermédio dele que chegou a Barretos, em 1937.
Ao desembarcar na Estação da Companhia Paulista de Trem, trazia consigo 17 mil réis, quantia considerável para a época. Hospedou‑se na pensão de dona “Barretinha”, que, na prática, funcionava como um prostíbulo sob nome elegante. Astuta, Rosinha executava serviços domésticos para evitar o pagamento da diária. Sua beleza, porém, rapidamente virou febre entre os jovens da cidade, que passaram a disputá‑la como se fosse prêmio de quermesse.
Nesse período, conheceu Evaristo, responsável por lhe ensinar a ler, escrever e fazer contas. A alfabetização foi decisiva: Rosinha passou a dominar o dinheiro e a própria história. Em pouco tempo, graças ao sucesso entre os cavalheiros e à capacidade de poupança, comprou o prostíbulo da própria Barretinha, que se mudou para Bebedouro.
A partir daí, Rosinha tornou‑se empresária do prazer. Transformou a Pensão Chic em referência de luxo e organização, entrando para a história como a cortesã que fez fortuna. Sua estratégia era clara: mantinha a casa impecável, com rigorosa higienização — talheres, pratos e banheiros eram desinfetados com álcool. A disciplina era severa, e suas meninas eram escolhidas criteriosamente, sempre pela beleza e elegância. Em troca, Rosinha lhes garantia roupas finas e joias, embora à custa de exploração.
Segundo o escritor Beni, em “A Casa Verde da Beira da Linha – onde a maldição da AIDS não tinha vez”, Rosinha repetia cobranças de dívidas já quitadas, aproveitando‑se das bebedeiras das pupilas, que não se recordavam dos pagamentos. Do mesmo modo, aproveitava‑se da embriaguez dos clientes para receber valores em dobro. Ainda assim, suas pupilas se destacavam pelo porte, beleza e elegância, fazendo da pensão um espaço intensamente procurado pela elite.
Sua clientela era formada por coronéis, negociantes, fazendeiros, autoridades e políticos. E não era só clientela: Rosinha tinha um coronel para chamar de seu, o que lhe garantia ainda mais prestígio e proteção. Graças aos bons relacionamentos no PSP, dispunha de apoio político que lhe permitia atravessar crises e momentos de repressão sem perder brilho. Astuta, recorria ao delegado sempre que desejava livrar‑se de gigolôs indesejados: bastava uma ligação para que a polícia realizasse batidas e conduzisse os inconvenientes ao xadrez.
Em sua pensão, era proibida a entrada de peões e trabalhadores comuns. O luxo, o requinte e as belas garotas eram exclusivos da elite. Caso alguma garota desejasse trabalhar em ambiente distinto, teria de seguir para o cabaré, mas jamais para estabelecimentos de segunda classe. Assim se estruturava o meretrício local: primeira e segunda classe, rigidamente separadas.
Maria Alves
Maria Alves, por sua vez, rivalizava com Rosinha em luxo, disciplina, organização e requinte, mas imprimia à sua casa um estilo próprio. Adepta das bebedeiras, por vezes perdia a compostura, mas jamais a clientela, que se divertia com seu temperamento expansivo. Embora não ostentasse o mesmo peso político de Rosinha, mantinha movimento constante graças ao carisma e à habilidade em criar um ambiente festivo e sedutor.
Se Rosinha era calculista e refinada em seus métodos de exploração, Maria Alves mostrava‑se ainda mais agressiva na malandragem aplicada a clientes e pupilas. Seus artifícios iam além da repetição de dívidas: tirava proveito da embriaguez dos frequentadores para aplicar golpes mais ousados. Não era raro que, em meio ao excesso de álcool, cavalheiros fossem induzidos a aceitar trocos irreais ou até a assinar cheques com valores elevados, sempre em seu benefício.
A maioria da clientela era composta por homens casados, o que garantia a Maria Alves uma espécie de blindagem natural — dificilmente alguém se aventuraria a reclamar publicamente. Outro traço marcante de sua estratégia era o controle absoluto sobre as bebidas servidas: todas eram batizadas, à exceção da cerveja. A manipulação do teor alcoólico acelerava a perda de lucidez dos clientes, ampliando suas vantagens. Essa prática, somada ao clima festivo permanente, fazia de sua casa um espaço de excessos, no qual diversão e exploração se misturavam, e cada noite podia render lucros vultosos.
Maria Alves gostava de instigar a rival e fazia do telefone sua principal arma. Conhecida por viver pendurada na linha, divertia‑se ao telefonar para Rosinha, recorrendo a provocações de teor tão ofensivo que não ouso reproduzi‑las. Essa predileção por trotes e ofensas, que para Maria pareciam meras brincadeiras, acabou por inflamar os ânimos e levar a rivalidade à delegacia, com direito a acareação e depoimentos de testemunhas. Diante da gravidade do episódio, Maria procurou Rosinha, adotou um discurso conciliador e conseguiu convencê‑la a não levar o caso adiante, evitando um escândalo maior que por pouco não terminou nos autos da Justiça.
O cenário dos lupanares
Entre as décadas de 1930 e 1940, Barretos chegou a concentrar mais de quarenta lupanares em sua área central, além de diversos estabelecimentos de segunda classe instalados no Bairro Fortaleza, então conhecido como o “Outro Mundo”. Antes do deslocamento, muitos funcionavam a poucas quadras da Catedral, alguns a apenas três quarteirões, e chegavam a dividir paredes com prédios públicos, como a própria Câmara Municipal. Essa proximidade com a Igreja passou a incomodar setores conservadores da cidade e motivou, em meados dos anos 1940, um processo de “higienização moral” do centro urbano. O objetivo era aumentar a distância entre o meretrício e a esfera religiosa, levando os prostíbulos para áreas mais afastadas, especialmente as ruas 26, 28 e 30, entre as avenidas 13, 15 e 17. Ainda assim, antes da mudança, a presença dessas cortesãs, sempre elegantes, impecavelmente vestidas e ostentando joias pelas ruas da cidade, já provocava reações ambíguas, despertando reprovação moral e, ao mesmo tempo, um fascínio silencioso e difícil de admitir.
Nesse processo, Rosinha demonstrou sua força e influência: foi a última a deixar a Rua 20, resistindo até o limite e evidenciando sua posição diferenciada. Quando finalmente se transferiu, instalou‑se numa casa imponente, construída sob encomenda, na Rua 26, esquina com a avenida 17. A edificação ampla destacava‑se pela riqueza de detalhes arquitetônicos e pela beleza típica da época. O imóvel não apenas abrigava seu negócio, mas funcionava como vitrine de sua ascensão social, consolidando‑a como a cortesã mais poderosa da cidade.
Maria Alves, seduzida pelos símbolos de modernidade da época — uma geladeira e dois fogões a gás —, instalou‑se numa casa próxima ao cemitério. Não foi a única: outras cortesãs também migraram para a região. Maria ainda tentou convencer mais mulheres a se estabelecerem ali, na expectativa de receber mais presentes. No início, o negócio prosperou, com clientes chegando de carro. Com o tempo, porém, o movimento caiu. Os cavalheiros costumavam visitar os prostíbulos após a missa dominical, e a distância, aliada à concorrência mais próxima, enfraqueceu seu empreendimento.
Para piorar, numa tarde de 1954, durante o enterro de uma destacada personalidade da cidade, ocorreu arruaça, tumulto e zombaria praticados por peões e prostitutas dos bordéis vizinhos. O prostíbulo de Maria Alves não participou dos atos, mas acabou envolvido no constrangimento coletivo. O episódio gerou rejeição imediata e novos pedidos de transferência, demonstrando que nem a proximidade com os mortos garantia sossego aos vivos. Maria acabou retornando à antiga casa.
Assim, a casa da Rua 26 não era apenas um novo endereço: era a prova material da influência de Rosinha, um marco que consolidava sua imagem como a verdadeira “rainha” do meretrício barretense.
Por fim, registro meus sinceros agradecimentos ao jornalista José Thomaz de Aquino, pelo generoso empréstimo de livros de autoria de Beni, obras fundamentais para a construção deste trabalho. Nelas encontram‑se registros valiosos e, muitas vezes, raros sobre o submundo da prostituição em Barretos, fontes que possibilitaram compreender com maior profundidade as relações de poder, sociabilidade e sobrevivência que marcaram o meretrício local. Este texto não encerra o tema: trata‑se apenas de uma primeira incursão, pois pretendo escrever mais sobre esse universo pouco explorado da história barretense, ampliando o registro e contribuindo para a preservação da memória da cidade.


