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Quem aguenta a briga inútil entre mães e escola nas férias?

 Quem aguenta a briga inútil entre mães e escola nas férias?
  • Michela Rita é historiadora, gestora pública e professora, com MBA em Gestão Escolar.

Todos os anos a cena se repete. Chegam as férias escolares e as redes sociais se transformam em um tribunal. De um lado, mães e pais aflitos porque precisam trabalhar e não têm com quem deixar os filhos. Do outro, professores defendendo o direito ao descanso e às férias previstas em lei. Em poucos dias, instala-se uma falsa disputa, como se fosse preciso escolher um lado.

Mas essa é uma briga construída sobre um erro: o de acreditar que o cuidado com as crianças é responsabilidade exclusiva da família ou da escola.

A filósofa Hannah Arendt, ao refletir sobre a educação, lembra que a escola tem uma missão própria: apresentar o mundo às novas gerações e prepará-las para participar da vida em sociedade. A escola educa. Não foi criada para substituir a família, nem para resolver, sozinha, todas as demandas sociais decorrentes da ausência de políticas públicas.

Ao mesmo tempo, é impossível ignorar a realidade das famílias brasileiras. A jornada de trabalho da maioria dos trabalhadores não acompanha o calendário escolar. Entre férias, recessos e feriados, muitas mães — sobretudo aquelas que chefiam seus lares — vivem o dilema de conciliar emprego e cuidado. Como demonstra Silvia Federici, o trabalho do cuidado continua sendo tratado como uma obrigação natural das mulheres, quando, na verdade, sustenta toda a vida em sociedade e deveria ser compartilhado.

Há ainda um aspecto frequentemente esquecido: professores e professoras também são mães, pais e responsáveis. Eles vivem o mesmo desafio de organizar quem cuidará de seus filhos durante as férias. Também precisam de uma rede de apoio. Também enfrentam as dificuldades de conciliar trabalho, família e descanso. Colocá-los em lados opostos significa ignorar que compartilham muitos dos mesmos problemas.

É justamente por isso que a cientista política Joan Tronto afirma que o cuidado é uma responsabilidade democrática. Nenhuma sociedade pode esperar que famílias ou escolas resolvam sozinhas uma necessidade que pertence a todos. Cuidar das crianças é uma tarefa que envolve Estado, comunidade, equipamentos públicos, organizações sociais e redes familiares.

Bell Hooks também nos ensina que a educação só floresce em comunidades comprometidas com o cuidado, o respeito e a responsabilidade compartilhada. Quando transformamos professores em inimigos das famílias — ou famílias em adversárias da escola — enfraquecemos justamente aquilo que deveria nos unir: a construção de uma comunidade capaz de acolher suas crianças.

Talvez, então, a pergunta esteja errada. A questão não é quem tem razão. Mães trabalhadoras têm razão. Professores também têm. A verdadeira pergunta é: onde estão nossos vereadores e deputados estaduais quando esse problema reaparece todos os anos? Por que ainda não construímos políticas públicas de férias, centros de convivência, atividades culturais, esportivas e comunitárias que fortaleçam a rede de apoio às famílias?

Enquanto continuarmos alimentando essa disputa entre mães e escola, deixaremos de cobrar daqueles que têm o dever de construir soluções. E as crianças continuarão sendo as maiores prejudicadas por uma omissão que, essa sim, não entra em férias.

Redação

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