Peroba Rosa: O Tronco que Sustentou Barretos
- Por Sueli Fernandes
Convido o leitor a viajar comigo para um tempo anterior à chegada das famílias Barreto e Marques, quando Barretos ainda era um território quase intocado. Poucos casebres de pau a pique se espalhavam pela vastidão, e a paisagem nativa era o verdadeiro tesouro da região. Entre tantas riquezas naturais, uma se destacava com imponência: a peroba rosa.
Imagine uma floresta densa, onde troncos colossais se erguiam em direção ao céu, tingidos por um tom rosado que parecia carregar consigo a essência da terra. A peroba rosa não era apenas uma árvore; era símbolo de força e beleza. Sua madeira, resistente e elegante, atravessou fronteiras: ergueu casas na capital paulista, sustentou estradas de ferro e até chegou à Europa. Tornou-se alicerce da metrópole em expansão e produto de exportação.
Já em 1911, jornais cariocas e paulistas alertavam para os prejuízos da exploração predatória. Em 1913, o Pharol, de Minas Gerais, denunciava a “devastação impiedosa e cega” que ameaçava apagar da paisagem barretense uma riqueza única. Esses registros são testemunhos de um tempo em que os primeiros alertas ambientais começavam a ecoar, ainda tímidos, mas já conscientes da necessidade de preservar.
Abaixo, vemos o registro do transporte de madeira por tração animal. Sobre o veículo repousa um tronco monumental, possivelmente de peroba rosa, exibido pelos trabalhadores que posam orgulhosos sobre ele. A peroba, árvore de tronco cilíndrico, reto ou levemente tortuoso, podia atingir dimensões impressionantes. Na superfície da tora, aparecem inscrições feitas a giz ou tinta, prática comum para informações e as medidas da madeira. Naquele tempo, a derrubada das árvores seculares era um negócio lucrativo, símbolo de um tempo em que a exploração parecia inesgotável.

Hoje, a peroba rosa é protegida por lei. Ainda apreciada para móveis e estruturas, exige manejo sustentável, pois já não é abundante como outrora. Permanece, porém, como ícone da Mata Atlântica e da história brasileira, lembrando-nos que a natureza é patrimônio e que sua preservação é também um ato de respeito à memória. Mais do que madeira, a peroba rosa é parte da memória afetiva das árvores brasileiras: habita lembranças de casas antigas, móveis herdados e histórias de fortunas construídas graças à sua extração, como a do português Adelino de Carvalho, que prosperou em Barretos com uma serraria.
Com a instalação do frigorífico em 1913, o desmatamento se aprofundou para dar lugar às pastagens. O cerrado, com seus angicos e jatobás, foi incendiado. Nesse cenário, em 1921, o escritor Coelho Neto visitou Barretos. Encantou-se com a cachoeira do Maribondo, mas registrou sua tristeza diante da devastação: “observando eu, com tristeza, o horizonte enfumaçado, os caminhos cobertos de cinza e sobre elas grandes troncos carbonizados”. Suas palavras revelam o contraste entre o fascínio pela natureza e a dor diante da destruição, mostrando que aliado ao crescimento pecuário estava o desmatamento acelerado, que empobrecia a biodiversidade e os aspectos paisagísticos da região.
Ao refletirmos sobre as impressões de Coelho Neto, percebemos que sua sensibilidade literária captou não apenas a beleza da Cachoeira do Maribondo, mas também o lamento silencioso da natureza diante da fumaça e das cinzas. Suas palavras são como um retrato poético de uma transição dolorosa: o esplendor da floresta cedendo espaço ao avanço das pastagens. É como se tivesse registrado, em linhas breves, o epitáfio da nossa floresta e de suas espécies desaparecidas sob o peso do progresso.
Esse contraste entre desenvolvimento econômico e perda ambiental nos convida a pensar sobre o preço da modernidade. Barretos cresceu, tornou-se referência na pecuária e ganhou projeção nacional, mas o custo foi alto: a biodiversidade se empobreceu, o horizonte perdeu cores e sons, e a peroba rosa se tornou lembrança.
A paisagem revela a sequência das transformações que moldaram o território: primeiro vieram as florestas majestosas, depois as pastagens abertas para sustentar a pecuária, e hoje o cenário é dominado por extensas plantações de cana-de-açúcar. Cada etapa representa um capítulo da história econômica da cidade, mas também uma perda gradual da diversidade natural.
Se antes o horizonte era marcado por imensas árvores que tocavam o céu, hoje a paisagem de Barretos é monótona. O verde uniforme das lavouras substituiu a diversidade da floresta, impondo uma nova estética ao território. Embora a cana represente força econômica e abasteça indústrias, ela também nos lembra que a riqueza natural foi trocada por monocultura. O desafio contemporâneo é equilibrar produção e preservação, para que não se perca de vez a poesia que a natureza um dia escreveu em nossas terras.


