Barretos melhorou. Mas ainda está longe de ser a cidade que prometeu ser
Barretos melhorou. Mas ainda está longe de ser a cidade que prometeu ser
Barretos vive um daqueles momentos raros em que os números contam uma história maior do que a disputa política rasteira das redes sociais. E ela merece ser dita sem medo: a cidade melhorou. Melhorou de verdade. Ainda longe do ideal, ainda cheia de feridas sociais abertas, mas melhorou. E os dados do IPS Brasil mostram isso de maneira cristalina.
Entre 2024 e 2026, Barretos saiu de um índice de 66,16 para 67,13 pontos no Indicador de Progresso Social. Pode parecer pouco para quem olha rápido. Não é. Em política pública, avanço consistente vale ouro. Especialmente num país onde a maioria das cidades patina, empaca ou simplesmente anda para trás.
O dado mais curioso — e politicamente explosivo — é que essa evolução atravessa duas gestões completamente diferentes. Em 2024, Barretos estava sob a administração da prefeita Paula Lemos. Em 2025 e 2026, a cidade passou para as mãos de Odair Silva. E aí surge uma verdade que muita gente não gosta de admitir: cidade não melhora da noite para o dia. Política pública séria é construção. É continuidade. É legado acumulado.
Há, sim, digitais das duas administrações nesse resultado.
A gestão Paula Lemos deixou indicadores fortes em áreas estruturais, principalmente saneamento, moradia e acesso básico. Isso não desaparece automaticamente quando troca o prefeito. Mas o governo Odair parece ter conseguido acelerar alguns motores importantes, especialmente na área de informação, conectividade e educação básica. O salto no acesso à comunicação é gigantesco. Barretos praticamente deu um salto tecnológico em dois anos. E isso muda a vida real das pessoas. Não é abstração acadêmica.
Internet boa hoje significa aluno estudando melhor, trabalhador encontrando emprego, pequeno empreendedor vendendo mais, mãe marcando consulta online, jovem acessando oportunidade. Conectividade virou infraestrutura social tão importante quanto asfalto.
Mas aqui entra o ponto mais duro — e talvez o mais desconfortável.
Uma cidade pode crescer economicamente e ainda continuar socialmente partida ao meio.
E é exatamente isso que Barretos mostra.
Os indicadores de inclusão social continuam ruins. Muito ruins. A cidade melhora no agregado, mas ainda falha em proteger parte da população. Violência contra mulheres, desigualdade, população em situação de rua, representação política e vulnerabilidade social seguem como pedras no sapato barretense.
Traduzindo para quem está lendo em casa: Barretos está ficando mais eficiente, mas ainda não necessariamente mais justa.
Esse é o grande dilema brasileiro.
O país criou uma geração de cidades organizadas financeiramente, mas emocionalmente esgarçadas. Lugares que funcionam no Excel da prefeitura, mas ainda falham na vida concreta da população vulnerável.
E há outro detalhe importante: segurança.
O recuo nos índices de segurança pessoal em 2026 acende um sinal amarelo enorme. Segurança é sensação coletiva. Basta a população começar a sentir medo para toda percepção positiva da gestão evaporar rapidamente. Nenhum prefeito consegue sustentar popularidade alta se o cidadão acha que perdeu o controle da própria rotina.
Politicamente, Odair Silva recebe agora uma oportunidade rara: transformar melhora técnica em narrativa pública forte. Porque os números permitem isso. Mas também recebe um aviso severo: se a inclusão social continuar estagnada, a cidade pode entrar naquele fenômeno típico do interior paulista — crescimento econômico convivendo com aumento da sensação de abandono social.
E isso cobra preço político cedo ou tarde.
Barretos hoje parece viver uma encruzilhada muito brasileira. A cidade mostra capacidade administrativa, melhora indicadores e avança em educação e conectividade. Mas ainda carrega desigualdades profundas que impedem o progresso de chegar inteiro para todos.
A pergunta que fica para 2027 é simples — e poderosa: Barretos quer apenas crescer ou quer evoluir como sociedade?
Porque crescer é relativamente fácil.
Difícil mesmo é fazer o desenvolvimento chegar até a última rua da cidade.


