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Barretos vai cuidar ou continuar negligenciando vidas LGBTQIAPN+

 Barretos vai cuidar ou continuar negligenciando vidas LGBTQIAPN+
  • Michela Rita é historiadora, gestora pública e professora, com MBA em Gestão Escolar.

A audiência pública realizada em Barretos para discutir a implantação de um ambulatório de saúde integral LGBTQIAPN+ evidencia um problema público que já não pode mais ser ignorado: a dificuldade concreta de acesso dessa população ao Sistema Único de Saúde, inclusive à própria atenção básica.

Ainda que não existam dados oficiais locais consolidados, projeções nacionais indicam uma demanda significativa. E essa demanda não é abstrata ela se materializa nos relatos ouvidos durante a própria audiência, onde pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ expuseram experiências de discriminação, evasão de atendimento e medo de procurar os serviços de saúde. Isso revela uma falha estrutural no princípio da equidade do SUS.

As necessidades são claras: acesso à hormonização segura, acompanhamento em saúde mental, acolhimento qualificado, suporte social e garantia de entrada e permanência na atenção básica. Também não se pode ignorar o impacto das violências simbólicas e institucionais na saúde emocional dessa população. Ou seja, não se trata de uma pauta identitária, mas de saúde pública.

Ao mesmo tempo, é fundamental reconhecer que essa não é uma proposta isolada. A criação de ambulatórios especializados está alinhada à Política Nacional de Saúde Integral LGBT e aos princípios constitucionais que garantem o direito universal à saúde.

Durante a audiência, a médica responsável pelo Projeto Transcender, Dra. Amblessa Mara, apresentou dados concretos que reforçam essa necessidade: cerca de 90 pessoas já foram atendidas pela iniciativa, sendo que 65 seguem em acompanhamento contínuo. Além disso, muitos desses usuários passaram a acessar a Unidade do Cecapinha para atendimentos básicos, justamente por se sentirem acolhidos o que demonstra que o cuidado humanizado não só trata, mas também reconecta essas pessoas à atenção básica do SUS.

Esse debate também nos convida a olhar para a história da cidade. Barretos sempre foi atravessada pela diversidade, como demonstra a trajetória de Benedito Carlos Piacentini, o Beni, que já vivia e resistia em décadas marcadas por ainda mais exclusão. O que faltou, ao longo do tempo, foi política pública.

Do ponto de vista da gestão pública, é preciso compreender que a implantação de um ambulatório pode ser viabilizada com planejamento sério: reorganização da rede, uso de recursos já existentes, parcerias institucionais e investimento estratégico. Mais do que custo, trata-se de eficiência  prevenir agravamentos, reduzir evasão e qualificar o atendimento gera economia e impacto social positivo.

Defender esse ambulatório é, portanto, defender qualidade de vida. E isso exige responsabilidade, escuta social e, sobretudo, compromisso político com a construção de uma cidade mais justa.

Redação

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