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Quando a política vira culto: o “nós contra eles” no discurso do prefeito Odair Silva

 Quando a política vira culto: o “nós contra eles” no discurso do prefeito Odair Silva

Em política, o que mais importa nem sempre é o que se diz, mas como se diz. Palavras não são neutras, discursos não são acidentais e frases jogadas ao vento costumam carregar intenções bem calculadas. O pronunciamento do prefeito Odair Silva durante o 2º Meeting Empresarial, realizado na FACISB, vai muito além de um agradecimento protocolar ou de uma fala motivacional. Ele revela uma forma específica de enxergar o poder, a cidade e, sobretudo, quem está “do lado certo” e quem, supostamente, atrapalha o caminho.

O evento, diga-se, foi grande, prestigiado, bem organizado. Teve Sebrae-SP, a Prefeitura de Barretos, empresários de peso e mediação de Maria Paula Fidalgo. Tudo caminhava para um ambiente de racionalidade econômica, empreendedorismo e futuro. Mas aí entrou a política — não a política pública, e sim a política simbólica.

Odair não falou como gestor. Falou como líder messiânico.

Quando o prefeito afirma que “quando Deus coloca a mão sobre uma cidade, homem nenhum muda o destino”, ele deixa de ocupar o lugar institucional de administrador público e assume outro papel: o de intérprete exclusivo da vontade divina. Esse movimento não é inocente. Ele cria uma divisão clara entre os escolhidos e os de má vontade, entre quem está com o projeto (e com Deus) e quem atrapalha.

E aqui acende o alerta.

Esse tipo de construção discursiva é velha conhecida da ciência política. É o clássico “nós contra eles”, usado com maestria tanto por Lula quanto por Bolsonaro — cada um à sua maneira, cada um com sua estética, mas ambos com a mesma lógica: reduzir a política a uma disputa moral, não técnica.

Quem questiona vira inimigo.

Quem critica “não acredita”.

Quem discorda “atrapalha o desenvolvimento”.

Perceba como isso é poderoso — e perigoso.

Ao dizer que existem “homens de má vontade” que querem impedir o crescimento de Barretos, o discurso não dialoga, não reconhece a divergência como parte da democracia. Ele deslegitima. Ele infantiliza o debate público. Ele sugere que a cidade só prospera se houver fé no líder e silêncio dos críticos.

E quando entra a figura da esposa, Roselaine, exaltada como símbolo de luz, afeto e redenção dos pobres, o discurso ganha contornos ainda mais pessoais, quase familiares. A política deixa de ser pública e passa a ser doméstica, emocional, afetiva. Não se fala mais de políticas estruturadas; fala-se de palavras, abraços e fé.

Isso engaja? Muito.

Isso emociona? Sem dúvida.

Isso esclarece? Nem um pouco.

Para o cidadão comum, o efeito é imediato: cria-se a sensação de que existe um prefeito que “sonha dia e noite”, que se sacrifica, que vai de carro a Brasília porque falta dinheiro, que luta contra forças ocultas que querem o mal da cidade. É uma narrativa poderosa, quase cinematográfica.

Mas governar não é roteiro de filme. É planilha, escolha dura, prioridade, transparência e, sobretudo, prestação de contas.

O perigo desse tipo de discurso não está na fé — a fé é legítima. Está no uso político da fé para blindar o governo contra críticas. Quando tudo vira vontade divina, sobra pouco espaço para cobrança humana.

E aqui vai a provocação final: se o destino da cidade está garantido por Deus, por que precisamos debater orçamento, prioridades, decisões e erros? Se quem critica é “de má vontade”, quem fiscaliza vira inimigo?

A democracia morre não no grito, mas no aplauso acrítico.

Barretos merece mais do que discursos inspirados. Merece debate, discordância, transparência e maturidade política. Emoção conquista plateia. Razão constrói cidade.

Redação

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