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Ao vivo é assim mesmo?

 Ao vivo é assim mesmo?
  • Túlio Guitarrari é filósofo, técnico contábil, jornalista e pós-graduado em Ciência Política e Teologia.

Em programas de televisão e rádio transmitidos ao vivo, os riscos de falhas na produção, atitudes impensadas, acidentes, incidentes e outras eventualidades são sempre presentes. Quem não se lembra do apresentador Faustão repetindo, diante de algum imprevisto: “Ao vivo é assim mesmo!” quando algo saía do curso esperado do programa?

Pois bem, gravar vídeos para o Instagram não é assim. Nesse caso, é possível gravar, editar, regravar se necessário, refazer a edição e, somente quando tudo está do jeito desejado — lindo e perfeito, segundo os próprios interesses —, publicar. No ao vivo, contudo, algo quase sempre escapa.

Hoje, convido o leitor a refletir comigo sobre uma situação que, por sermos brasileiros e estarmos imersos nas festividades de fim de ano, acabou passando sem a devida atenção. Guardei o episódio para um momento mais oportuno. Confesso que já deveria ter escrito antes, mas surgiram, no início do ano, as questões relacionadas ao pagamento dos servidores públicos e toda a celeuma que se formou em torno do tema.

Refiro-me a uma entrevista concedida pelo prefeito Odair Silva (Republicanos) a uma emissora de rádio da cidade. Na ocasião, o chefe do Executivo fez afirmações utilizando palavras e expressões que não condizem com a liturgia do cargo que ocupa, além de declarações, no mínimo, questionáveis no que diz respeito à sua relação com vereadores da oposição.

Ao ser questionado sobre a atuação oposicionista do vereador Jonathas Lazzarotto (PSD), o prefeito afirmou que o parlamentar seria “obcecado” por ele, chegando a declarar: “Se pudesse, ele dormia comigo na cama”. Não satisfeito, avançou ainda mais, classificando o vereador como atrevido por acessar sua página no Instagram, printar publicações e, segundo suas palavras, “se esconder atrás da Bíblia e falar um monte de m… o dia inteiro”.

Cabe aqui lembrar, de forma objetiva, quais são os deveres constitucionais do Poder Legislativo — exercido por vereadores, deputados estaduais e federais. Em linhas gerais, são três: representar o povo, ouvindo e encaminhando os clamores da população; legislar, criando e aprovando leis em benefício do bem comum; e fiscalizar o Poder Executivo, verificando a legalidade e a moralidade dos atos do prefeito, do governador e do presidente da República. Portanto, enquanto vereador, Jonathas Lazzarotto tem o dever legal e moral de fiscalizar se o prefeito tem, ou não, prevaricado no exercício de sua função.

Qualquer cidadão tem o direito de questionar um prefeito — assim como vereadores —, mas o parlamentar tem, além do direito, a obrigação de fazê-lo, por ser agente público investido dessa responsabilidade. Quando o prefeito publica algo em sua rede social pessoal, essa informação se torna, automaticamente, pública. Ele é obrigado a agir assim? Não. Caso queira divulgar ações oficiais do Poder Executivo, pode fazê-lo, dentro da legalidade, pelos canais institucionais da Prefeitura.

No entanto, se opta por utilizar sua rede pessoal para promoção de sua imagem política — algo a que tem pleno direito —, também pode, legitimamente, selecionar quem terá acesso a esse conteúdo. Se, porventura, sente-se incomodado ou prejudicado, há um recurso simples e eficaz: o bloqueio do usuário. Afinal, não é razoável supor que um vereador dependa exclusivamente da rede social pessoal do prefeito para exercer sua função fiscalizatória.

Considero, no mínimo, lamentáveis as palavras chulas utilizadas pelo chefe do Executivo. O mesmo prefeito que, no passado recente, criticava com retórica dura e palavras diretas a atuação da ex-prefeita Paula Lemos (PSD) na mesma emissora de rádio, agora demonstra não aceitar críticas. Mais grave ainda: recorre a um palavreado de quinta categoria para expressar seu inconformismo diante da cobrança legítima de um vereador por melhores resultados administrativos. Fiscalizar e cobrar é, justamente, parte do mandato parlamentar — além, é claro, da função legislativa.

Se uma autoridade política se expressa dessa forma quando questionada por outro agente público, como se dirigirá aos munícipes quando for confrontada fora dos roteiros bem ensaiados, longe dos vídeos “instagramáveis”, no calor do ao vivo, com todos os riscos de equívocos que isso envolve?

Como este artigo já se estendeu além do ideal, por ora ficamos restritos a essa atitude lamentável do chefe do Executivo. Na próxima semana, caberá refletir sobre sua relação com os demais vereadores — curiosamente, aqueles de quem ele não reclama.

Redação

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