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Paula Lemos: a dama de ferro do interior paulista
- Editorial é a opinião institucional do veículo de comunicação.
Se a política fosse uma novela, Barretos estaria na reta final de mais uma temporada agitada — e com um novo enredo prestes a começar. No centro da narrativa está ela, Paula Oliveira Lemos, a ex-prefeita que governou entre 2021 e 2024, e que agora se projeta como candidata a deputada estadual. Quem está em volta dela garante que não é qualquer candidatura. É a candidatura de quem sobreviveu, enfrentou, resistiu.
Paula encerrou sua gestão com um discurso recheado de dificuldades enfrentadas. Citou a pandemia, a crise financeira, o clima. Mas faltou o “pulo do gato”: dados, números, transparência. Quanto restou de dívida pública? Que projetos ficam em andamento? O que foi planejado para o futuro da cidade? Essas respostas não apareceram. E aí está um ponto crucial: a ausência de um balanço concreto deixa espaço para especulações — e, na política, o vácuo da informação é sempre ocupado por versões.
Mas aqui vai o contraponto necessário. Paula Lemos foi vereadora por dois mandatos e conhece o sistema por dentro. Sabia onde estavam os obstáculos, onde pisar, com quem negociar. E ela soube – pelo menos é o que aparenta. Ela entendeu que o poder não é apenas ocupar a cadeira do Executivo, mas manter redes de sustentação vivas e ativas.
Enquanto Guilherme Ávila enfrentava uma oposição barulhenta (com a própria vereadora Paula puxando a fila), ela navegou com uma oposição… quase inexistente. As redes sociais que destruíram Guilherme, a imprensa que o fustigava, estavam agora — em boa parte — alinhadas com Paula. Coincidência? Mérito político? Estratégia? Chame como quiser, mas isso se chama capital político, e ela soube usar.
Sim, Paula arrumou inimigos. Não era fácil no trato, dizem alguns. Mas fez valer seu estilo. Resultado? Deixa a Prefeitura com uma rede de aliados estrategicamente colocados em administrações-chave da região. Jéssica Maria dos Santos em Olímpia, Fernando Oliveira Soares em Ribeirão Preto. Isso é pouca coisa? Não. Isso é jogo grande. E, convenhamos, quantos ex-prefeitos conseguem esse nível de capilaridade?
Paula perdeu espaço no Democratas (hoje União Brasil)? Sim. Mas ganhou o abraço de Gilberto Kassab e do PSD. E Kassab não dá abraço à toa. Isso significa que, além da popularidade local, ela se encaixa no xadrez estadual. Para Kassab, é excelente: mulher, competitiva, do interior — cumpre cota e traz voto. Para Paula, é o palanque perfeito.
E aí entra o próximo capítulo. A ex-prefeita será candidata a deputada estadual. Kassab quer. O PSD quer. Paula quer. E Barretos, quer? Tudo indica que sim — ou pelo menos, uma parte significativa da cidade.
O curioso é o comportamento do prefeito atual, Odair Silva (REP), eleito com apoio público e efusivo de Paula. Quem não se lembra dos gritos eufóricos nas rádios? Da festa, das palmas, das lágrimas de vitória? Pois bem. Agora, seis meses depois, vemos rumores de que Odair pode apoiar Danilo Campetti (REP), o atual deputado estadual, e não Paula, para a mesma vaga na Assembleia Legislativa. Seria isso traição?
A pergunta fica no ar. Mas a verdade é que, se Paula for eleita deputada e Kassab se lançar ao governo de São Paulo com o apoio de Tarcísio de Freitas numa eventual candidatura presidencial, o cenário vira do avesso. Odair, que hoje governa confortável, pode acabar sufocado. Porque Paula vai ter base, microfone e — o mais importante — orçamento.
Afinal, como dizem os políticos experientes: “prefeito que briga com deputado da sua cidade, cavou a própria cova”.
No fim das contas, Paula Lemos é um fenômeno de sobrevivência política. Com erros? Muitos. Com acertos? Também. Mas com presença, força, e inteligência estratégica. Sai da Prefeitura sem amarras partidárias, mas com amigos certos. E isso, no xadrez da política paulista, vale muito mais que um relatório de fim de gestão.
Barretos não viu apenas uma prefeita. Viu a construção de uma liderança. Goste-se ou não dela, Paula está no jogo. E, pelo visto, para jogar grande.


