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O busto que ninguém teve coragem de inaugurar

 O busto que ninguém teve coragem de inaugurar

O busto que ninguém teve coragem de inaugurar Em 1972, Barretos vivia um momento de prestígio. A Festa do Peão de Boiadeiro já havia alcançado relevância nacional e recebeu a visita do então presidente da República, Emílio Garrastazu Médici, tornando-se a primeira edição do evento a contar com a presença de um presidente em exercício. A visita reforçou a projeção nacional da festa e alimentou o entusiasmo de muitos barretenses em relação ao futuro do município.

Foi nesse ambiente de euforia que surgiu a ideia de prestar uma homenagem ao chefe da Nação. O responsável pela iniciativa era Lourival Serafim da Silva, artista plástico recém-chegado a Barretos que rapidamente encontrou acolhida na cidade.

Apresentando-se como ligado à Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo do Estado, ele se dispôs a confeccionar um busto em madeira do presidente Médici para ser instalado em uma praça pública.

A proposta foi bem recebida. Em sessão da Câmara Municipal realizada naquele ano, o vereador Domingues Neto pediu apoio financeiro ao escultor, que já teria investido oito mil e quinhentos cruzeiros na obra. Destacou ainda que a Sociedade Amigos de Barretos contribuiria com o projeto e conclamou outras pessoas a visitarem o trabalho e colaborarem com sua execução.

O combinado era simples: o artista produziria a obra, a entregaria à Prefeitura e Barretos ganharia mais um monumento para lembrar uma visita considerada histórica.

Mas nem sempre a realidade acompanha os planos.

Concluída a escultura, a Prefeitura viu-se diante de um problema inesperado. Embora a intenção fosse homenagear o presidente, a obra não causou a impressão desejada. Entre comentários discretos e avaliações pouco entusiasmadas, a peça não agradou aos barretenses que foram vê-la. Aos poucos, surgiu o receio de que a homenagem pudesse produzir exatamente o efeito contrário ao pretendido: em vez de reverência, provocar constrangimento.

Da homenagem ao constrangimento: à esquerda, a monumental escultura em madeira produzida por Lourival Serafim da Silva para homenagear o presidente Emílio Garrastazu Médici após sua visita à Festa do Peão de 1972. Com porte imponente, corpo esguio, faixa presidencial entalhada e cuidadosos detalhes fisionômicos, a obra buscava eternizar a presença do chefe da Nação em Barretos.

À direita, o retrato do presidente que lhe serviu de modelo. A comparação entre as duas imagens ajuda a compreender por que a peça acabou despertando dúvidas, pareceres técnicos e intensos comentários, transformando-se em um dos episódios mais curiosos da história barretense. Fontes: O Diário, jan. 73. Acervo Museu Ruy Menezes. Foto do Médici: https://mundoeducacao.uol.com.br

O prefeito Christiano Carvalho percebeu rapidamente o tamanho da encrenca. Se aceitasse o monumento sem questionamentos, poderia ser criticado. Se o recusasse, corria o risco de criar um incidente desnecessário. A solução encontrada foi transferir a responsabilidade para quem entendia do assunto.

No dia 7 de novembro de 1972, o prefeito encaminhou um ofício ao secretário estadual da Cultura, Pedro Magalhães Padilha, solicitando o envio de uma autoridade capaz de avaliar tecnicamente a obra. No documento, explicava que desejava saber se a escultura possuía condições de ser instalada em praça pública, de modo que a Prefeitura ficasse resguardada de eventuais críticas caso ela não correspondesse às finalidades para as quais havia sido criada.

Como a resposta demorava, Christiano Carvalho resolveu buscar uma segunda opinião. Em 1º de dezembro de 1972, escreveu ao presidente da Associação Paulista de Belas Artes, Dr. Marrey Luiz Perez, relatando a situação e pedindo que ele próprio, ou algum especialista indicado pela entidade, viesse a Barretos para avaliar a obra.

A resposta da Associação foi educada, porém cautelosa. A entidade informou que não conhecia o artista Lourival Serafim da Silva e solicitou mais informações sobre sua formação, currículo e participação em salões oficiais de arte. Além disso, manifestou estranheza pelo fato de a escultura ter sido confeccionada em madeira. Segundo o ofício, esse material não era considerado adequado para obras destinadas a permanecer ao ar livre, por ser suscetível à deterioração.

Acima de sua obra, o artista Lourival Serafim da Silva exibe o busto de Emílio Garrastazu Médici que, apesar da homenagem pretendida, jamais chegou a ser inaugurado. (Fonte: O Diário, jan. 1973. Acervo: Museu Ruy Menezes.)

Enquanto isso, o busto permanecia na Praça 9 de Julho, aguardando um julgamento que nunca parecia chegar e despertando comentários desfavoráveis entre os curiosos que iam observá-lo.

A situação adquiriu contornos quase teatrais. A Prefeitura aguardava os especialistas. Os especialistas aguardavam informações. A associação aguardava credenciais. E o busto aguardava seu destino, silencioso, enquanto despertava mais dúvidas do que admiração.

Em janeiro de 1973, o jornal O Diário informou que assessores do prefeito confirmavam que a estátua não permaneceria na praça sem o parecer oficial da Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo e da Associação Paulista de Belas Artes.

A administração municipal entendia ser mais prudente retirá-la do local até que houvesse uma manifestação técnica definitiva. O próprio jornal registrou que, caso os pareceres não fossem emitidos, a obra seria transferida para o almoxarifado municipal.

E assim terminou uma das histórias mais curiosas da memória barretense.

Embora concebida como uma homenagem presidencial, a escultura acabou despertando mais preocupação do que entusiasmo. Não conquistou a simpatia da população, gerou dúvidas quanto à sua qualidade artística e levou o prefeito a procurar, quase desesperadamente, alguém que assumisse a responsabilidade de dizer publicamente se aquele era ou não um monumento digno de ocupar uma praça da cidade.

No fim, prevaleceu a cautela. Sem a aprovação dos órgãos consultados, o busto foi recolhido e encaminhado ao almoxarifado municipal. A partir desse momento, sua trajetória praticamente desaparece dos registros conhecidos. Nunca mais se teve notícia de sua exposição pública, reinstalação ou destino final.

Foi um fim discretíssimo para uma obra concebida para ser vista por todos.

Assim, o busto de Médici entrou para o folclore histórico de Barretos não pelo brilho da homenagem que pretendia representar, mas pela polêmica que gerou. A peça que deveria eternizar a visita presidencial de 1972 acabou se tornando um mistério municipal: retirada de cena, guardada em algum canto do almoxarifado e, ao que indica a memória local, nunca mais vista.

Como costuma acontecer com certas histórias barretenses, a madeira desapareceu, mas a narrativa permaneceu viva.

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