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Beni: o cronista libertino e devoto do submundo barretense

 Beni: o cronista libertino e devoto do submundo barretense
  • Por Sueli Fernandes

Benedito Carlos Piacentini, o Beni, foi uma figura singular e ousada que marcou a história de Barretos entre as décadas de 1950 e 1970, vivendo abertamente como homem homossexual em um período de forte repressão moral e social. Dono de uma personalidade carismática e ao mesmo tempo temida por sua franqueza, circulava com desenvoltura entre o submundo e a elite local. Cronista libertino de sua própria experiência, Beni transformou a vivência marginalizada em literatura direta e desconcertante, sem renunciar à fé católica que também o definia, compondo uma figura paradoxal e profundamente humana: ao mesmo tempo devoto e transgressor, confidente dos poderosos e símbolo de resistência, cuja memória permanece como espelho incômodo das contradições culturais de sua época. Mito incômodo, jovem de beleza sedutora, corpo leve e olhos verdes de brilho quase insolente, atravessava a cidade como quem carrega a verdade à flor da pele, escolheu não desaparecer na sombra. Existiu inteiro, mesmo sabendo que sua presença ameaçava a ordem moral que Barretos insistia em sustentar.

Beni. Fonte: Beni: o mito sexual de uma época.

No coração dessa cidade paralela pulsava a Pensão Chic de Rosinha da Porteira, prostíbulo reservado exclusivamente à elite, onde os portões se trancavam para o povo e se abriam apenas aos homens de poder. Fazendeiros, coronéis, políticos e autoridades que, aos domingos, ajoelhavam-se na Matriz para receber a hóstia consagrada, desciam depois para se entregar aos excessos que condenavam em público. Beni tornou-se gerente desse espaço secreto, mas era também personagem central, observador atento da engrenagem que unia dinheiro, jogos, desejo e silêncio. Com Rosinha, mulher de inteligência prática e lucidez dura, aprendeu o jogo dos negócios e da sobrevivência, acompanhando-a em viagens a Montevidéu e Buenos Aires, onde ampliou o olhar e fortaleceu a aura cosmopolita que contrastava com o moralismo provinciano da cidade.

Rosinha lhe ensinou verdades que poucos ousavam dizer em voz alta: a juventude é breve, a beleza não garante abrigo, e o afeto social raramente resiste à pobreza. Beni guardou essas lições e fez delas matéria literária. Sua escrita nasce desse entrelaçamento de prazer e lucidez, de sedução e consciência do abandono. Nos livros que deixou, raros e hoje difíceis de encontrar, ele não apenas narra aventuras do corpo, mas revela bastidores. Expõe chantagens que lhe renderam recursos significativos e até a reforma de sua casa no bairro Exposição, a célebre “casa verde da beira da linha”. É precisamente aí que o temor se instala. Suas obras circularam pouco, muitas vezes ocultadas, guardadas a sete chaves ou simplesmente descartadas, porque a sociedade barretense temia o que nelas pulsava: os nomes sussurrados, as práticas desveladas, os espelhos erguidos sem piedade. A raridade desses exemplares não é acaso editorial, mas vestígio de uma censura informal, de um apagamento silencioso promovido por aqueles que reconheceram, nas páginas de Beni, o risco iminente da exposição.

Sua prosa libertina, direta e naturalista recusava qualquer verniz moral. Ao narrar o prostíbulo como espaço onde se construíam negócios, alianças e reputações, Beni expunha a costura íntima entre poder e luxúria. Escrevia como quem abre cortinas em um quarto fechado há décadas, revelando que a respeitabilidade pública se sustentava sobre noites de excesso cuidadosamente escondidas. Seus livros foram temidos porque diziam demais, porque não protegiam os clientes, porque não pediam licença à moral dominante.

E, no entanto, Beni também caminhava pelos corredores da fé. Era católico praticante, frequentava a igreja, deu aulas de catecismo e rezava com a mesma naturalidade com que escrevia sobre bacanais e noites excessivas. Não enxergava contradição onde a cidade encenava pureza. Em si, conviviam fé e desejo, devoção e carne, como convivem em silêncio em tantos outros que nunca ousaram nomear essa tensão. Beni ousou. Em maio de 1954, durante uma visita à sua terra natal, Viradouro, por ocasião das festividades da padroeira Nossa Senhora Aparecida, ele narra prostrar-se de joelhos diante da imagem sagrada, entregando o corpo à humildade do gesto e à intensidade da oração. Reza longamente, pede perdão pelos atos que considera pecaminosos vividos em Barretos, como quem reconhece, com lucidez, a fragilidade humana e a complexidade da alma.

É dessa matéria contraditória que nascem as páginas de Beni. Elas são valiosas porque guardam não apenas a memória de um tempo de abundância, luxúria e hipocrisia, mas o retrato profundo de um homem que transformou a própria vida em escrita. Belo, provocador e paradoxal, Beni permanece como presença viva na memória cultural da cidade, não apenas como personagem do submundo, mas como cronista indomável de tudo aquilo que Barretos tentou esconder e que, justamente por isso, jamais conseguiu silenciar completamente.

Paralelamente a esse processo de apagamento, há uma dimensão pouco lembrada e profundamente reveladora: a das cortesãs proprietárias de lupanares luxuosos, como Rosinha da Porteira. Embora condenadas pelo discurso oficial, essas mulheres movimentavam fortunas no comércio local e, longe da retórica moralista, exerciam uma caridade silenciosa e constante. Ajudavam asilos, creches e entidades sociais, devolvendo à cidade parte da riqueza que dela extraíam.  Essa contradição — moral rígida em público, dependência econômica e social em silêncio — é uma das chaves mais potentes para compreender o período.

É nesse contexto que os livros de Beni se tornam ainda mais valiosos e temidos. Beni: o mito sexual de uma época e A Casa Verde da Beira da Linha, onde a maldição da AIDS não tinha vez — obras raras, hoje difíceis de encontrar, que me foram emprestadas pelo jornalista José Tomaz de Aquino — sobreviveram apesar do medo que provocavam. Não circularam livremente porque diziam demais, porque expunham hábitos, pactos e hipocrisias. Sua raridade não é acaso editorial, mas vestígio de uma censura difusa, operada pelo receio coletivo da revelação. Ao transformarem memória em denúncia, essas páginas obrigam Barretos a se encarar sem disfarces. Beni escreveu para não ser apagado e, enquanto seus livros existirem, a cidade continuará confrontada com aquilo que tentou esconder, deslocar e silenciar, mas jamais conseguiu eliminar.

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