Onde a verdade encontra a democracia.
DESDE 2015

A política barretense em ata e em charge

 A política barretense em ata e em charge
  • Por Sueli Fernandes

Em Barretos, a política do início do século XX não cabia apenas nas urnas. Ela transbordava para as esquinas, para os jornais, para as conversas de botequim e, claro, para as atas da Câmara Municipal. As atas, com sua linguagem sóbria e burocrática, registravam quem falou, quem votou, quem se ausentou. Eram documentos oficiais, guardiões da memória institucional, que se pretendiam imparciais e objetivos. Mas havia outro tipo de registro que não se preocupava com formalidades e que, justamente por isso, captava o espírito da época com mais vivacidade: as charges.

As charges eram o contraponto irreverente às atas. Enquanto estas se limitavam a narrar os fatos em linhas secas, aquelas se permitiam exagerar, ironizar e dramatizar. Foi numa dessas que o coronel Antônio Olympio apareceu de cartola e casaca, semblante altivo, subindo os degraus da Câmara Municipal. O artista não economizou no humor: salientou traços, destacou a pompa e, ao fundo, desenhou os personagens mais influentes da cidade, todos facilmente reconhecíveis. A legenda não deixava dúvidas: tratava-se da primeira investidura de Olympio no poder público, arrebatando a Câmara das mãos de seu rival histórico, o coronel Silvestre de Lima, em um pleito renhido que dividira Barretos como se fosse um campo de batalha.

Charge. Fonte: Álbum do Primeiro Centenário de Barretos: 1854 – 1954.

A cena é deliciosa porque revela a teatralidade da política local. Enquanto a ata diria apenas “o vereador fulano votou sim, o vereador sicrano votou não”, a charge mostrava o que todos sabiam, mas ninguém ousava escrever oficialmente: as vaidades, os olhares atravessados, os sorrisos de vitória e os muxoxos de derrota. Era como se a cidade tivesse dois espelhos: o sério, das atas, e o divertido, das charges.

Ao longo dos primeiros anos da República, Barretos assistiu a um curioso revezamento de poder entre os dois coronéis. Como em um jogo de xadrez interminável, ora Silvestre de Lima assumia a dianteira, ora Antônio Olympio retomava o comando, alternando vitórias nas urnas e influência nos bastidores. Esse movimento pendular mantinha a cidade em constante ebulição, dividindo famílias, negócios e amizades, e transformando cada eleição em espetáculo de rivalidade. A disputa não era apenas política; era quase uma guerra de estilos. Os “araras” se orgulhavam da combatividade. O resultado? Uma cidade que parecia viver em permanente estado de eleição, em que cada esquina era uma trincheira e cada jornal, uma arma carregada de palavras.

E como se não bastasse o embate nas urnas, havia o embate nos jornais. Silvestre escrevia inflamados artigos denunciando fraudes e irregularidades nos processos eleitorais, que repercutiam na capital e reforçavam sua imagem de combatente contra os vícios eleitorais. Olympio, por sua vez, aparecia contestando resultados e nas charges como o homem que subia degraus, mas que, ironicamente, acabaria escorregando na realidade das atas em outras eleições.

Porque, convenhamos, a história tem dessas ironias: embora tivesse votos suficientes para assumir uma cadeira no legislativo, Olympio acabou ficando de fora. Foi superado pelo próprio cunhado, Tarcísio Philadelpho Carneiro de Arantes, e viu a vaga ser destinada a Joaquim Buck Filho, que havia recebido menos votos. A ata da sessão de posse registrou, com frieza burocrática, o detalhe saboroso: o parentesco entre Olympio e Tarcísio o tornava inelegível. Olympio, resignado, sequer compareceu.

Contudo, quando Silvestre decidiu abandonar a vida pública e se mudar para São Paulo, Olympio passou a governar com certa tranquilidade, sem o peso das disputas acirradas que antes marcavam cada passo de sua trajetória política. Isso até chegar Riolando de Almeida Prado, assunto para outro dia.

É nesse ponto que a oposição entre ata e charge se torna irresistível. A charge mostrava Olympio triunfante, em outro momento, subindo os degraus da Câmara como quem alcança o Olimpo. A ata, por sua vez, registrava que sua cadeira havia escapado por causa de uma cláusula de inelegibilidade. O desenho mostrava o triunfo; o documento, a ausência. Entre um pleito e outro, a cidade ria, comentava e seguia em frente, porque em Barretos até as derrotas sabiam virar boas histórias.

Para o pesquisador de hoje, ambos são preciosos. A ata oferece a precisão dos fatos: datas, nomes, votos, decisões. A charge, por sua vez, revela o clima da época, a percepção popular, o modo como os protagonistas eram vistos pela comunidade. Juntas, elas mostram que a política não se escreve apenas em linguagem formal, mas também em traços humorados que circulam entre o povo.

E aqui está a grandeza da charge: ela não é apenas uma brincadeira gráfica, mas um documento cultural. É memória coletiva em forma de desenho, capaz de revelar o que os registros oficiais escondem. Se a ata é o espelho sério, cristalino, que reflete a política como dever cívico, a charge é o espelho deformado, côncavo, daqueles de feira, que exagera e distorce — mas justamente por isso revela aspectos que o documento oficial jamais ousaria registrar. A ata é o documento que sustenta a narrativa histórica; a charge é a crônica desenhada que revela a alma da cidade, ela mostra o riso, a ironia, a teatralidade, e nos lembra que a política é feita também de gestos, de vaidades e de percepções populares.

Assim, ao olhar para as primeiras eleições no período inicial do Regime Republicano em Barretos, não basta olhar apenas os documentos oficiais. É preciso também observar as charges, porque nelas está o tempero da história.

Por meio destes elementos temos que as primeiras eleições foram marcadas por disputas, discursos, fraudes, recursos judiciais e até charges que eternizaram os rivais em papel. Um retrato vívido de uma época em que Barretos foi palco de paixões políticas intensas, onde cada voto carregava o peso de uma batalha e cada decisão judicial repercutia como triunfo ou derrota de um exército inteiro. Se a ata nos dá o esqueleto dos fatos, a charge nos oferece o sangue que corre nas veias da memória.

E talvez seja essa a maior lição: a história política da cidade não se constrói apenas nos palanques ou nas manchetes, mas também nas páginas discretas de um livro de atas e nos traços irreverentes de uma charge. Afinal, em Barretos até os documentos sérios sabiam guardar boas histórias — e as charges, com sua ironia, davam o tempero que faltava, transformando a política em espetáculo e a memória em patrimônio cultural.

Relacionado

Ops, você não pode copiar isto!