O novo sabor da Páscoa: chocolates artesanais conquistam o público
Entre abelhas e sabores: a história de quem transforma mel em sustento, educação e consciência ambiental
Um ofício que começou cedo
A relação de José Cestari Junior com as abelhas começou ainda na infância. “Eu trabalho desde os 12 anos de idade com abelha. Eu comecei com a mais perigosa, que é a Apis mellifera”, contou. O interesse surgiu ao acompanhar o trabalho do tio, que já atuava no manejo das colmeias. “Eu via ele trabalhando e, de pequeno, já peguei o gosto. A gente vestia o macacão, porque tem que usar o EPI, e comecei assim.”
Já a meliponicultura, voltada às abelhas sem ferrão, veio como continuidade de uma tradição familiar. “Antigamente não tinha essas caixinhas de hoje. Eram cabaças. Eu via meu avô, meu pai e meu tio criando, e fui pegando gosto”, relatou. Com o tempo, o manejo evoluiu. “Hoje não se corta mais árvore. A gente prepara isca, atrativo, captura e transfere para as caixinhas.”

Diferenças entre apiário e meliponário
Segundo Junior, o manejo muda completamente conforme a espécie. “No apiário você precisa de EPI completo: macacão, luvas, fumegador. Se uma pessoa for alérgica, uma ou duas ferroadas podem matar.” Ele explica que as abelhas com ferrão defendem a colmeia de forma agressiva. “Se você abrir uma tampa, aquelas abelhas vão atacar para defender. Uma ferroada mata a abelha, mas ela não pensa duas vezes.”
Já no meliponário, a dinâmica é outra. “As abelhas nativas não têm ferrão. Você pode abrir a caixa, fazer o manejo tranquilo, sem perigo.” Por isso, no sítio, os espaços são separados: “As abelhas sem ferrão ficam perto da casa, onde recebo crianças. As com ferrão ficam longe, na mata, para não prejudicar ninguém.”
Consumo de mel e conscientização
Apesar dos benefícios, Junior avalia que o consumo no Brasil ainda é baixo. “O brasileiro consome pouco mel. O americano consome muito mais.” Mesmo assim, ele percebe uma mudança gradual. “O pessoal está conhecendo nosso trabalho, vendo que mel é um produto saudável.”
Ele cita usos simples no dia a dia. “Você pode colocar mel no café, na vitamina, no suco. É melhor que açúcar.” Para o produtor, a conscientização também envolve o meio ambiente. “Cuidar das árvores, das flores e ter consciência no uso de agrotóxicos é fundamental. Falta diálogo entre produtor e apicultor.”
Segundo ele, a conversa resolve conflitos. “Se o produtor perguntar qual horário usar o defensivo, dá para alinhar sem prejudicar as abelhas nem a lavoura.”
O que é produzido no sítio
Na mesa da loja, Junior apresentou os produtos. “Aqui é o mel da Apis, da florada da soja, da laranjeira. Tem o pólen desidratado, que é proteína.” Ele destaca o uso esportivo. “Pode colocar na vitamina para quem faz academia ou corre.”
Entre as abelhas sem ferrão, aparecem o mel e o extrato de própolis de jataí. “Cada época tem uma florada: cipó-uva, laranjeira, silvestre. O mel do cipó-uva é tão claro que o pessoal acha que é falso.” Além da produção, há polinização em lavouras. “Converso com produtores para colocar as abelhas na soja, por exemplo.”
Clima extremo e impactos na produção
As mudanças climáticas têm pesado no trabalho. “Durante o dia, no sítio, chegou a 50 graus. As abelhas sem ferrão trabalham bem entre 25 e 28 graus.” Para amenizar, o produtor precisa intervir. “A gente joga água nas caixinhas para dar umidade e refrescar.”
Nas colmeias de Apis mellifera, a produção cai. “Em vez de buscar néctar, elas ficam batendo as asas para ventilar a colmeia.” As flores também sofrem. “Com ondas de calor, não fornecem néctar nem pólen.”
Por isso, ele explica que é preciso deixar reserva. “Se eu não deixo mel para elas, morrem de fome e eu perco o enxame.”
Desafios ambientais, econômicos e apoio público
Para Junior, os desafios se somam. “Mudança climática, agrotóxico, desmatamento e incêndio afetam a produção e a economia.” Ele alerta para o efeito no preço dos alimentos. “Menos abelhas, menos polinização, menos alimento.”
Sobre políticas públicas, ele cita experiências locais. “Quando o Nestor Leonel estava na Câmara, ajudou muito. Trouxemos workshops sobre abelhas sem ferrão.” A expectativa é manter iniciativas. “Eventos ajudam as pessoas a conhecerem a importância das abelhas.”
Visitação e educação ambiental
O sítio Recanto dos Cowboys recebe escolas e visitantes. “É só entrar em contato aqui na loja e agendar.” No local, o público circula pelo meliponário. “A pessoa anda no meio das abelhas sem ferrão, sem perigo. Pode tocar, sentir o perfume de cada espécie.”
Olhar para o futuro
Entre os planos, está a organização coletiva. “Queremos montar uma associação e fortalecer a meliponicultura.” Para ele, a atividade vai além do negócio. “Sem abelha, sem alimento. Cerca de 80% do que a gente come depende delas.”
Por isso, Junior aposta na educação. “O futuro são as crianças. Quando elas conhecem as abelhas, entendem a importância para a vida.”
Onde encontrar os produtos e como agendar visitas
Os produtos produzidos no sítio — mel, favo de mel, pólen desidratado, bolos, queijos, requeijão e broa de fubá — estão disponíveis para o público na loja física, localizada na Avenida Ranulfo Prata, nº 798, bairro Jardim Universitário, em Barretos (SP).
As visitas ao sítio, incluindo agendamentos de turmas escolares, devem ser feitas exclusivamente por telefone, pelo número (17) 98835-8521.


