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Democracia não se protege em silêncio

A sociedade brasileira não pode esperar para ver o que acontece. Quando a democracia é ameaçada, o jornalismo precisa dizer isso com clareza — sem defender governos ou partidos, mas protegendo o direito de todos à informação.
Em 2018, muita gente acreditou que Jair Bolsonaro seria moderado pelas instituições. O que aconteceu foi o contrário: durante seu governo, ele atacou a confiança nas eleições, hostilizou jornalistas, usou politicamente as Forças Armadas e entrou em choque com o Judiciário. As instituições resistiram, mas isso não torna os ataques menos graves. Mostra que os mecanismos de defesa funcionaram.
Também é preciso olhar para o que Flávio Bolsonaro propõe. Falar de forma menos agressiva que o pai não torna suas ideias menos preocupantes. Ele promete libertar Jair Bolsonaro e anular sua condenação por tentativa de abolir o Estado democrático. Também já defendeu mudanças na Constituição.
Os números mostram o impacto da hostilidade contra a imprensa. A Federação Nacional dos Jornalistas registrou 1.442 casos de violência contra jornalistas e ataques à imprensa entre 2019 e 2022 — mais de três vezes a média anual do período de 2010 a 2018. Em 2022, a Abraji documentou 557 alertas de violações à liberdade de imprensa; em 41,6% deles, ao menos um integrante da família Bolsonaro estava envolvido.

Violência contra jornalistas disparou durante o governo Bolsonaro
Casos anuais de violência contra jornalistas e ataques à imprensa no Brasil registrados pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) entre 2009 e 2024
Depois de 2023, os registros da Abraji caíram: foram 330 naquele ano e 204 em 2025. No ranking da Repórteres Sem Fronteiras, o Brasil passou da 110ª posição, em 2022, para a 52ª, em 2026. Esses dados ajudam a mostrar que o ambiente para o jornalismo pode melhorar — e também pode piorar.
Defender a imprensa não é proteger uma categoria profissional. É garantir que a população tenha acesso a informações confiáveis para entender o que acontece, fiscalizar quem governa e cobrar responsabilidades. Quando jornalistas são ameaçados ou suas investigações são desacreditadas, toda a sociedade perde.
O histórico de Jair Bolsonaro ajuda a entender o risco. Em 1999, ele disse que, se fosse presidente, fecharia o Congresso e daria um golpe. Em 2016, homenageou o coronel Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador. Já presidente, participou de uma manifestação que pedia intervenção militar e o fechamento do Congresso e do Supremo. Em 2022, fez acusações sem provas contra as urnas eletrônicas diante de diplomatas estrangeiros e, por esse episódio, ficou inelegível.
Em 2025, Bolsonaro foi condenado pelo STF por tentativa de impedir a troca de governo após a derrota nas eleições. Flávio Bolsonaro também já negou o golpe militar de 1964, elogiou Ustra e, em julho de 2026, repetiu informações falsas sobre a origem das urnas eletrônicas.
Esse passado e essas declarações precisam ser considerados. O perigo não está apenas em um novo golpe. Está também em enfraquecer, aos poucos, as instituições que limitam o poder e permitem responsabilizar quem descumpre a lei.
Uma imprensa livre depende de instituições que garantam direitos, acesso a informações públicas e proteção contra intimidações. Quando a imprensa é atacada e os controles sobre o poder são enfraquecidos, a democracia fica mais vulnerável.
Este é um apelo a veículos de comunicação e jornalistas: não tratem como normal o que ameaça a liberdade de imprensa, a independência das instituições e o direito à informação. A democracia tem falhas, mas é por meio dela que a sociedade pode defender seus direitos e corrigir seus erros. O autoritarismo pode chegar pelas urnas; para recuperar as liberdades perdidas, porém, podem ser necessárias décadas.


