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O Brasil cabe no quintal de quem?
- Michela Rita é historiadora, gestora pública e professora, com MBA em Gestão Escolar.
Terminada a votação, passada a ressaca das urnas e diante do segundo turno, talvez seja hora de fazer uma pergunta que não cabe apenas na matemática eleitoral: afinal, que Brasil estamos disputando?
Lembrei de O Brasil não cabe no quintal de ninguém, de Paulo Nogueira Batista Jr. Não porque o livro seja sobre eleições, mas porque seu título parece feito sob medida para o momento que estamos vivendo. A obra provoca uma reflexão sobre soberania e sobre a tendência brasileira de olhar para fora antes de reconhecer o próprio tamanho.
E que tamanho!
Somos um país continental, diverso, dono de riquezas, cultura, ciência, criatividade e uma população que inventa saída quando parece não haver porta. Mas também somos um país que passa boa parte do tempo brigando consigo mesmo. Nossa dificuldade talvez não seja ocupar um lugar no mundo, mas decidir que lugar queremos ocupar.
A eleição de 2026 expôs novamente essa disputa. De um lado, milhões de brasileiros depositaram seus votos em Lula; de outro, milhões escolheram Flávio Bolsonaro. Nenhum dos dois alcançou maioria absoluta no primeiro turno, e a decisão foi levada ao segundo. O resultado não encerra a conversa: escancara o conflito político que atravessa o país.
E talvez esteja aí a provocação mais interessante do livro: soberania não é apenas não obedecer a outro país. É também ter capacidade de construir um projeto próprio.
Um país soberano precisa negociar, produzir, pesquisar, proteger seus recursos, cuidar de sua gente e construir seu próprio futuro com autonomia.
No fim das contas, a pergunta continua sendo maior que a eleição: queremos ser protagonistas da nossa própria história ou continuaremos disputando quem poderá administrar melhor o nosso quintal?
O Brasil é grande demais para caber no quintal de alguém.
Mas talvez ainda precise aprender a caber inteiro dentro de si mesmo.



