Quando a desvalorização chega à barbárie
- Michela Rita é historiadora, gestora pública e professora, com MBA em Gestão Escolar
A agressão sofrida por uma diretora de escola em Barretos nesta semana me fez pensar sobre algo que há muito tempo vem sendo normalizado: a desumanização dos profissionais da educação.
Não somos apenas professores, professoras, diretores, coordenadores ou funcionários. Somos pessoas. Temos limites, medos, dias difíceis, cansaço e também o direito de sermos tratados com respeito.
Há alguns anos, em um dia particularmente difícil, eu estava nervosa em sala de aula. Uma aluna, tentando explicar aquela situação à sua maneira, me disse: “Você escolheu ser professora e é assim mesmo”.
A frase ficou comigo.
Porque, em algum momento, parece que passamos a acreditar que escolher a educação significa aceitar a sobrecarga, os baixos salários, a falta de estrutura, as cobranças, as ameaças e até a violência. Como se o compromisso com a educação anulasse a nossa humanidade.
Não anula.
Os dados mostram que não estamos diante de casos isolados. Levantamentos recentes apontam o crescimento de diferentes formas de violência contra profissionais da educação, incluindo agressões verbais, psicológicas, morais, institucionais e físicas. Também são frequentes situações de perseguição, intimidação e censura.
Quando uma diretora é agredida, quando um professor é ameaçado ou quando uma trabalhadora da escola termina o dia emocionalmente destruída, não podemos simplesmente dizer que “faz parte da profissão”.
Não faz.
Chegamos a um ponto em que a desvalorização da educação assume contornos de barbárie. E enfrentar isso exige mais do que pedir respeito: precisamos melhorar as condições socioeconômicas de trabalho, garantir apoio psicológico aos profissionais e construir políticas públicas que aproximem escola, famílias e comunidade por meio do diálogo e do acolhimento.
Valorizar a educação começa por reconhecer a humanidade de quem a constrói todos os dias.
Porque ninguém escolhe ser professor para ser violentado. Escolhe ensinar. E isso deveria bastar.



