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A pulverização dos votos e a política da ilusão

 A pulverização dos votos e a política da ilusão
  • Túlio Guitarrari é filósofo, técnico contábil, jornalista e pós-graduado em Ciência Política e Teologia.

A pulverização de candidaturas a deputado estadual e federal em Barretos escancara um problema crônico da política local. A cada ciclo eleitoral, dezenas de nomes lançam suas candidaturas ao Legislativo sem qualquer viabilidade real de eleição, fragmentando o eleitorado e reduzindo as chances de a cidade conquistar representantes na Assembleia Legislativa de São Paulo e no Congresso Nacional.

Embora a legislação assegure a qualquer cidadão o legítimo direito de se candidatar, essa enxurrada de nomes pode funcionar como um verdadeiro obstáculo à construção de uma estratégia eleitoral capaz de fortalecer a representação política do município, muitas vezes em benefício de interesses e vaidades individuais.

Em vez de construírem uma unidade estratégica que priorize as demandas coletivas da região, parte das lideranças locais prefere o isolamento partidário. Muitas dessas candidaturas atendem a interesses estritamente pessoais ou funcionam como uma espécie de balão de ensaio: são lançadas não necessariamente com o objetivo de vencer a eleição, mas de manter o nome em evidência e projetar relevância para as eleições municipais de 2028.

Essa estratégia transforma o pleito estadual e federal em uma espécie de pré-campanha para a Prefeitura ou para a Câmara Municipal, desviando o foco daquilo que deveria estar no centro da disputa: a escolha de representantes comprometidos com os interesses de Barretos e da região.

Paralelamente à falta de estratégia política, o eleitor também enfrenta o desrespeito no espaço público e, muitas vezes, até na porta de sua própria casa. Candidatos inundam caixas de correio com pilhas de santinhos, enquanto calçadas e vias públicas acabam tomadas por material de propaganda descartado de maneira irregular.

Essa poluição visual e ambiental, além de representar desperdício de recursos, acaba refletindo um problema mais amplo: a dificuldade de transformar a disputa eleitoral em um debate qualificado sobre propostas, projetos e soluções concretas para a população.

E é justamente nesse ponto que surge outra contradição. Apesar da quantidade de candidatos, não faltam discursos repletos de promessas que extrapolam as atribuições do cargo em disputa. Obras, verbas, serviços públicos e realizações administrativas são anunciados como se os candidatos estivessem concorrendo a cargos do Poder Executivo.

O problema não está em defender recursos para o município ou articular investimentos. Parlamentares podem, sim, destinar emendas, fiscalizar a aplicação dos recursos públicos, propor leis e exercer articulação política em defesa de suas regiões. O problema está em vender ao eleitor a ideia de que um deputado pode, sozinho, executar obras ou determinar diretamente a prestação de serviços públicos.

Ao ignorarem — ou distorcerem — as reais atribuições do Poder Legislativo, alguns candidatos acabam criando expectativas que não poderão cumprir. O resultado é um eleitor mal informado e um debate democrático empobrecido.

Barretos não precisa necessariamente de mais candidatos. Precisa de mais estratégia, mais responsabilidade e, sobretudo, de representantes capazes de transformar votos em força política.

A pulverização das candidaturas pode até garantir visibilidade individual, mas, quando não existe uma estratégia coletiva, o risco é conhecido: muitos candidatos, muitos votos espalhados e pouca representação efetiva.

No fim das contas, a política da ilusão pode ser conveniente para quem disputa uma eleição pensando na próxima. Mas quem paga a conta dessa fragmentação é a própria cidade.

Paz e bem!

Redação

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