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Barretos não é um coro

 Barretos não é um coro
  • Michela Rita é historiadora, gestora pública e professora, com MBA em Gestão Escolar.

Barretos voltou a ser notícia nacional. Desta vez, não pelo Hospital de Amor, pela ciência ou pela excelência de seus profissionais. Foi por um coro de parte da plateia da Festa do Peão, durante o show de Gusttavo Lima, com ataques ao presidente Lula, transmitidos ao vivo para todo o país.

E eu fiquei pensando: é essa a Barretos que o Brasil conhece?

Não. Essa é uma Barretos. Mas não é a Barretos.

Em maio, Lula esteve aqui para falar de saúde pública. Trouxe investimentos, anunciou R$ 2,2 bilhões para o enfrentamento do câncer e R$ 129 milhões para o Hospital de Amor. Naquele momento, Barretos era apresentada como referência em saúde, ciência e solidariedade.

Em agosto, uma parte da arena apresentou outra fotografia: a da Barretos conservadora, alinhada à direita e orgulhosa de sua identidade política.

As duas existem.

O problema é quando uma delas tenta falar em nome de todas.

Porque eu quero lembrar ao Brasil de uma coisa que parece ser convenientemente esquecida: 37,20% dos barretenses votaram em Lula no segundo turno de 2022. Foram 23.921 pessoas.

Quase 24 mil.

Não são uma nota de rodapé. Não desapareceram depois da eleição. São trabalhadores, professores, profissionais da saúde, mulheres, jovens, população negra, moradores das periferias, servidores, comerciantes, produtores e tantas outras pessoas que vivem, trabalham e constroem esta cidade.

Essa Barretos também existe.

E existe mesmo quando não está na arena.

Não tenho problema algum em reconhecer que Barretos possui uma forte cultura conservadora. Democracia é isso: pessoas diferentes dividindo a mesma cidade. O que me incomoda é a ideia de que o chapéu de uma parcela da população possa ser colocado sobre a cabeça de todos nós.

A Festa do Peão é de Barretos. O Hospital de Amor é de Barretos. A cidade é de todos nós.

Inclusive dos que votaram em Lula.

Inclusive dos que votaram em Bolsonaro.

Inclusive de quem não votou em nenhum dos dois.

Barretos não é um coro.

E nenhum grito, por mais alto que seja, transforma uma parte da cidade na voz de todos.

Talvez esteja na hora de o Brasil conhecer a Barretos inteira  não apenas aquela que aparece quando as luzes da arena se acendem, mas também aquela que acorda cedo, trabalha, cuida, estuda, pesquisa, luta e, silenciosamente, constrói todos os dias a cidade que somos.

Essa também é Barretos. E nós existimos.

Redação

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