Programa do governo de SP oferece 140 vagas de estágio e monitoria para estudantes
Kapetinha na Zeladoria: quem cobrava agora vai ter que entregar
Por muito tempo, a política barretense conheceu um personagem barulhento, de tribuna afiada e discurso moralista. O nome dele: Luis Umberto de Campos Sarti, mais conhecido como Kapetinha. Quem acompanhou as sessões da Câmara Municipal de Barretos entre 2013 e 2020 certamente se lembra da cena: voz elevada, dedo em riste e o velho discurso de vigilante da moralidade pública.
Pois bem. A política tem dessas ironias deliciosas.
Agora, Kapetinha saiu da posição de quem cobra e passou para a cadeira de quem precisa entregar resultado. O ex-secretário de Ordem Pública e Defesa Civil foi exonerado do cargo e remanejado para a Secretaria Municipal de Zeladoria, uma pasta criada pelo prefeito Odair Silva para cumprir promessa de campanha.
E aqui começa o ponto central desta história.

Afinal, o que faz uma Secretaria de Zeladoria?
Para o leitor que não vive o dia a dia da burocracia municipal, vale traduzir: zeladoria é o setor que cuida da cidade no cotidiano. Não é glamour, não é discurso de palanque. É serviço básico.
Estamos falando de:
- limpeza urbana
- manutenção de praças
- poda de árvores
- tapa-buracos
- conservação de calçadas e áreas públicas
- retirada de entulho
- organização do espaço urbano
Em resumo: é a secretaria que faz a cidade funcionar no dia a dia.
É o setor que impede que o mato tome conta das praças, que o lixo vire paisagem e que a cidade dê a impressão de abandono.
Só tem um problema.
A Secretaria de Zeladoria foi criada em julho de 2025 e, até agora, pouco ou quase nada mostrou a que veio. A promessa era organizar serviços que antes estavam espalhados entre diversas pastas. Na prática, o que muitos barretenses percebem é que o modelo ainda não engrenou.
E agora quem assume o volante desse carro parado é justamente Kapetinha.

O histórico de quem cobrava
O curioso é que Kapetinha construiu sua trajetória política justamente fazendo fiscalização e cobranças ao Executivo.
A documentação da própria Câmara mostra isso. Durante seu mandato como vereador, ele apresentou centenas de requerimentos cobrando melhorias urbanas, manutenção e serviços públicos.
Entre os exemplos estão pedidos para:
- revisão da iluminação pública em ruas e avenidas
- troca de lâmpadas queimadas
- instalação de semáforos
- manutenção de estradas rurais
- instalação de lixeiras e containers
- pavimentação de ruas
- limpeza de terrenos abandonados
- instalação de internet pública em espaços abertos
- manutenção de equipamentos de saúde
- fiscalização de contratos e licitações da prefeitura
Ou seja: Kapetinha passou anos cobrando exatamente os serviços que hoje estarão sob sua responsabilidade administrativa.
Não era raro vê-lo subir à tribuna da Câmara e fazer discursos inflamados sobre eficiência da gestão pública, transparência e responsabilidade com o dinheiro do contribuinte.
Na política brasileira, esse tipo de personagem é comum: o fiscalizador feroz quando está na oposição.
O teste real começa quando ele entra no governo.

A política também cobra
Há ainda outro capítulo curioso na trajetória de Sarti.
Antes da eleição municipal passada, ele chegou a se apresentar como pré-candidato a prefeito para o mandato 2021–2024. Acabou desistindo no meio do caminho após conversas políticas — e, segundo bastidores amplamente comentados na cidade, com a expectativa de ocupar um espaço na futura gestão de Paula Lemos.
Paula ganhou.
A prometida “boquinha” nunca veio.
Agora, anos depois, Kapetinha volta ao Executivo pelas mãos do governo Odair Silva — mas não na posição de protagonista político. Chega para uma missão administrativa dura: fazer a zeladoria da cidade funcionar.
O momento da verdade
A política municipal tem uma regra simples: é fácil cobrar quando se está na tribuna. Difícil é resolver quando se está na cadeira do gestor.
Kapetinha passou anos questionando iluminação pública, buracos, mato alto, limpeza de terrenos e manutenção urbana.
Agora, a pergunta que fica é direta:
Ele cobrou.
Mas saberá ser cobrado?
Porque na política, como na vida, existe uma lei implacável: o microfone da tribuna amplifica o discurso, mas é a rua que julga o resultado.


