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Quando a notícia incomoda, o problema não é a imprensa — é o espelho

 Quando a notícia incomoda, o problema não é a imprensa — é o espelho

Vamos combinar uma coisa logo de cara: quando um requerimento vira notícia e a reação é raiva contra o jornal, há algo profundamente errado na leitura do jogo democrático.

Na semana passada, O Sertanejo publicou uma matéria absolutamente protocolar: a Câmara Municipal aprovou um requerimento do vereador Tiagão Alves pedindo prestação de contas sobre repasses públicos feitos à Associação dos Amigos do Barretos Esporte Clube (AMBEC). Documento público, rito público, dinheiro público. Fim.

Mas não acabou. A notícia doeu. E doeu tanto que o presidente do Barretos Esporte Clube (BEC) se sentiu pessoalmente atingido. Procurou o jornal, reclamou do enquadramento, disse que a associação “não é ligada” ao clube, avisou que não daria entrevista, não enviaria nota — e anunciou, como efeito colateral emocional, que pretende encerrar categorias de base no ano que vem.

Aqui, o jornalista em mim se levanta da cadeira.

Primeiro: O Sertanejo não opinou na matéria. Relatou, com clareza e independência, o conteúdo de um requerimento aprovado pelos vereadores — prática que este jornal realiza de forma sistemática, contínua e republicana. Quem acompanha a Câmara sabe: cobrimos vereadores, requerimentos, projetos e votações sem escolher lado. É o básico do jornalismo local sério.

Segundo: o alvo da irritação está errado. Se há inconformismo com o questionamento, ele deve ser endereçado a quem perguntou — o vereador. Não a quem noticiou. Confundir fiscalização com ataque é sintoma clássico de ambientes pouco acostumados à transparência.

Terceiro — e aqui mora o ponto sensível —: juridicamente, sim, BEC e AMBEC são pessoas jurídicas distintas. Mas política e realidade não se limitam ao CNPJ. Conversando com associados da AMBEC e torcedores do BEC, o que se ouviu foi outra coisa: o requerimento nasceu do cansaço. Cansaço de ver dinheiro público entrando e o retorno esportivo não aparecendo, especialmente na formação e revelação de atletas.

E os números existem. Estão nos documentos oficiais da Prefeitura e não foram inventados pelo jornal. Somando os quatro instrumentos celebrados entre Prefeitura e AMBEC, os valores ultrapassam R$ 2,1 milhões em parcerias:

  • Termo de Colaboração nº 0144/2022: R$ 216.960,00
  • Termo de Fomento nº 0104/2023: R$ 577.647,00
  • Termo de Fomento nº 0108/2024: R$ 698.067,00
  • Termo de Fomento nº 0135/2025: R$ 698.067,00

Dinheiro público exige prestação de contas. Sempre. Sem drama. Sem melindre. Sem ameaça simbólica de fechar base.

Quarto ponto — e este é politicamente inevitável: embora não exista vínculo jurídico formal, o estatuto da AMBEC registra dirigentes que também atuam ou atuaram no BEC. Ex-dirigentes de um lado, atuais do outro. Isso não é crime, não é escândalo, mas cria, sim, uma ligação política, simbólica e histórica. Negar isso soa menos como argumento técnico e mais como desconforto.

E, por fim, um choque de realidade sobre mídia e futebol.

No interior, a imprensa trabalha de graça para clubes. Divulga, cobre, fotografa, escreve, transmite. Faz por paixão, por identidade local, por compromisso comunitário. Em grandes centros, isso se chama relação profissional: mídia cobra, clube paga, contrato assinado. Aqui, não. Aqui, o jornal apoia — e muito.

O Sertanejo, desde sua fundação, sempre esteve ao lado do Barretos Esporte Clube. Nunca cobrou um centavo. Como toda a imprensa local. E, paradoxalmente, é justamente essa imprensa — gratuita, voluntária e independente — que vira vilã quando cumpre seu papel básico: informar.

Democracia funciona assim: quem recebe dinheiro público presta contas; vereador pergunta; jornal noticia; gestor explica. Quando alguém quebra essa cadeia e transforma fiscalização em ofensa pessoal, o problema não está na notícia. Está no espelho.

Se a reportagem incomodou, ótimo. Jornalismo bom incomoda mesmo. E vamos continuar incomodando. O que não incomoda é silêncio. E silêncio, na vida pública, é sempre o pior placar.

Redação

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