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Barretos, família, poder e o limite do aceitável
Vou dizer sem rodeios: quando a política começa a se organizar como árvore genealógica, o problema deixa de ser técnico e passa a ser simbólico — e símbolos decidem eleições.
Vamos exagerar um pouco, iluminar bem e falar a língua de quem está na padaria, no ponto de ônibus ou no grupo da família no WhatsApp.
O prefeito Odair Silva anunciou Tatiane Passarelli como nova secretária municipal de Administração. Currículo existe. Experiência também. Liderança, empreendedorismo, projetos sociais — tudo isso está na mesa e não se ignora. O problema não é Tatiane. O problema é o entorno político em que essa nomeação acontece.
Tatiane é esposa de Danilo Moura Costa, primo do prefeito. Danilo, registre-se, foi figura ativa no processo eleitoral de 2024, inclusive ingressando com ação impugnatória contra a candidatura do ex-prefeito Emanoel Carvalho, enquanto era presidente do diretório municipal do partido Avante. Política se faz com atos — e esses atos criam contexto.
Mas a história não para aí.
Barretos hoje tem o filho do prefeito, Jhonatha Guimarães Moura e Silva, nomeado chefe de gabinete. Tem também Audaisa Patrícia Pereira da Silva Monteiro, prima de Odair, ocupando cargo de assessora de gabinete. Some-se a isso outras relações familiares indiretas espalhadas pelo organograma do poder local. Nada disso é necessariamente ilegal. A lei pode até permitir. Mas política não vive só de legalidade. Vive de legitimidade.
E é aqui que o sinal de alerta acende.
A Secretaria de Administração não é um cargo qualquer. É o coração burocrático do governo. É onde passa folha de pagamento, contrato, servidor, prédio público, processo digital, cemitério — sim, até o cemitério. É ali que o governo mostra se é organizado ou improvisado.
A saída de Natália Rick ocorre logo após questionamentos públicos sobre pagamento de professores no fim do ano. A pergunta não é maldosa; é óbvia: coincidência ou consequência? Governos que não sabem lidar com erro trocam pessoas. Governos seguros assumem o problema e explicam.
Quando, em apenas 365 dias, vemos troca no comando da Saúde, exoneração de chefe de gabinete, saída do controlador-geral e agora mudança na Administração, o eleitor comum não lê como “ajuste fino”. Lê como instabilidade.
E aí entra o fator família.
Quanto mais o governo se fecha em vínculos pessoais, mais ele se distancia da percepção de governo para todos. A cidade começa a enxergar não uma gestão técnica, mas um núcleo de confiança restrito — onde o critério parece ser proximidade, não pluralidade.
O discurso oficial fala em avanços: digitalização, reformas, melhorias. Tudo isso importa. Mas, para o cidadão médio, a régua é outra: ele quer saber se o governo é previsível, se aprende com erros e se não confunde prefeitura com extensão da casa.
Tatiane assume prometendo escuta, continuidade e gestão humana. Vai precisar mais do que isso. Vai precisar de autonomia real, transparência absoluta e capacidade de provar — todos os dias — que não está ali por sobrenome, casamento ou vínculo político, mas por resultado.
Porque, quando parentesco começa a se acumular no topo do poder, a pergunta deixa de ser “é legal?” e passa a ser “é saudável?”.
A política municipal de Barretos chegou a esse teste. E testes desse tipo não são resolvidos com discurso bonito, currículo bem escrito ou cerimônia de posse emocionada. Resolvem-se com atitudes claras, explicações francas e, sobretudo, com a coragem de separar governo de família.
O eleitor está atento. E quando a percepção de excesso se instala, não há retórica que dê conta. Política é confiança. E confiança, uma vez abalada, não se recompõe com nomeação — se recompõe com postura.
