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Quem anda a pé e quem está na sela

 Quem anda a pé e quem está na sela

A política no interior também se revela em imagens. Não apenas nos discursos, nas atas ou nas decisões tomadas dentro dos gabinetes, mas nas cenas públicas que acabam incorporadas ao cotidiano das cidades.

Uma fotografia do desfile de aniversário de Barretos chamou atenção justamente por isso.

Não há novidade em ver um prefeito montado a cavalo durante as comemorações de 25 de agosto. Emanoel Carvalho fez isso. Guilherme Ávila fez. Paula Lemos também. A tradição dos cavalos integra, há décadas, o cenário das festividades da cidade.

O que chama atenção, desta vez, é a composição da cena.

Enquanto o prefeito Odair Silva aparece montado, dois secretários municipais seguem a pé, carregando as bandeiras de São Paulo e do Brasil. A imagem, por si só, permite diferentes leituras. E uma delas é inevitável: a diferença de posição entre quem está montado e quem segue caminhando produz uma representação visual de autoridade e hierarquia.

É importante dizer: a fotografia não permite concluir, por si só, que tenha havido intenção de demonstrar superioridade, submissão ou qualquer forma de discriminação. Tampouco seria correto atribuir à cena um significado que não possa ser sustentado pelos fatos.

Mas imagens públicas também comunicam.

Quando um chefe do Executivo aparece montado enquanto integrantes de sua equipe caminham ao seu lado durante uma solenidade oficial, a fotografia acaba criando uma simbologia que vai além do simples deslocamento de pessoas e animais. O cidadão que observa a cena pode enxergar nela uma representação de autoridade — ainda que essa não tenha sido a intenção de quem organizou ou participou do desfile.

Há ainda um aspecto que merece atenção: um dos secretários que aparece a pé carregando a bandeira do Brasil é um homem negro. Isso não autoriza concluir que tenha existido qualquer motivação racial na escolha ou na organização da cena. Seria irresponsável fazer essa afirmação sem evidências.

Mas também não é necessário ignorar o contexto histórico brasileiro em que imagens de poder, autoridade e desigualdade frequentemente ganham significados adicionais aos olhos de quem as observa.

É justamente por isso que fotografias de agentes públicos em cerimônias oficiais merecem ser vistas para além da estética da festa.

Não se trata de condenar alguém por estar a cavalo, nem de transformar uma tradição de Barretos em problema. Tampouco de afirmar que os servidores que caminhavam estavam em posição de submissão. Trata-se de reconhecer que símbolos fazem parte da comunicação política e que uma autoridade pública também é observada pela forma como se apresenta diante da população.

No fim, talvez a fotografia não tenha uma única interpretação.

Para alguns, será apenas a tradição do desfile. Para outros, será uma cena bonita das comemorações de aniversário. Para outros ainda, a imagem poderá representar uma distância simbólica entre quem governa e quem está ao seu redor.

É justamente essa última leitura que merece ser colocada sobre a mesa.

Porque, quando a fanfarra silencia, os cavalos retornam e as bandeiras são recolhidas, permanece uma pergunta legítima para qualquer cidade: como os governantes escolhem se apresentar diante daqueles que governam?

Em uma democracia, até mesmo uma fotografia pode provocar essa reflexão.

Redação

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