Quando a Guerra chegou a Barretos
- Por Sueli Fernandes
Setembro sempre convida à lembrança de um dos acontecimentos mais marcantes do século XX. Foi neste mês, em 1939, que teve início a Segunda Guerra Mundial, conflito que mudaria para sempre a história. Embora o Brasil só tenha entrado oficialmente na guerra em 1942 e enviado tropas à Europa em 1944, os reflexos daquele embate já eram sentidos por toda parte, inclusive no interior paulista. Em Barretos, a guerra alterou a rotina da população, impactou comunidades de imigrantes, provocou racionamentos e levou dezenas de jovens a participarem diretamente de uma campanha militar travada do outro lado do Atlântico.
Entre os mais de 25 mil brasileiros enviados à Europa pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) e pela Força Aérea Brasileira (FAB), estavam 23 homens ligados a Barretos. Para eles, a guerra deixou de ser apenas uma notícia nos jornais e tornou-se uma experiência vivida entre trincheiras, montanhas cobertas de neve, explosões e saudades de casa.
Mais do que uma história de batalhas, esta é uma história de pessoas. De jovens interioranos que saíram do calor do sertão paulista para enfrentar o rigor do inverno italiano. De famílias que aguardavam ansiosamente notícias vindas da Europa. E de uma cidade que, mesmo distante dos campos de combate, viu seu cotidiano ser profundamente transformado pelo maior conflito da história.
Quando a guerra bateu à porta do Brasil
Ao longo dos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, o governo brasileiro procurou manter uma posição de neutralidade. Getúlio Vargas negociava tanto com os Estados Unidos quanto com a Alemanha e buscava obter vantagens econômicas em meio à disputa internacional.

Mas a neutralidade tornou-se cada vez mais difícil. Em 1942, submarinos alemães afundaram navios brasileiros na costa do país, provocando a morte de centenas de civis. A indignação tomou conta das ruas e o governo declarou guerra às potências do Eixo em 31 de agosto daquele ano.
Ainda assim, os brasileiros demorariam algum tempo para chegar aos campos de batalha. Apenas em julho de 1944 partiu o primeiro contingente da FEB rumo à Itália. Entre aqueles homens estavam diversos jovens que tinham ligação com Barretos.
Os 23 barretenses que foram à guerra
Reportagem publicada pelo Correio de Barretos em maio de 1945 registrou os nomes dos expedicionários ligados à cidade: Adair Paulino, Alcides Chiodini, Ângelo Zardini, Antero Soares do Prado, Antonio Vicentini, Armando Pianta, Clarismundo de Matos, Cyro Prado, Eurípedes Guimarães, Francisco de Assis Bezerra de Menezes, Irmo Bruschi Bianchi, João Baptista de Oliveira, Jonas Francisco Alves, Josino Venâncio da Silva, Justo da Costa Laranjeira, Mário Lemos Ferraz, Moacir Aguirra, Oscar Coutinho, Pedro Fontoura Pires, Pedro Paulo de Souza Nogueira Neto, Ramis Cúri, Ruy Rubens de Oliveira e Pedro Fortunato de Oliveira.
É possível que o número exato tenha variado, mas o levantamento demonstra a participação significativa de barretenses na campanha italiana.

Do calor de Barretos para a neve da Itália
Uma das experiências que mais impressionaram os expedicionários brasileiros foi o clima.
Acostumados ao calor tropical, muitos enfrentaram pela primeira vez temperaturas negativas, neve e chuvas constantes. Para jovens criados entre as fazendas e as ruas ensolaradas do interior paulista, lutar nas montanhas italianas exigiu uma enorme capacidade de adaptação.
Os brasileiros participaram de algumas das mais importantes operações aliadas na Itália, incluindo as batalhas de Monte Castelo, Montese, Castelnuovo, Collechio e Fornovo. Foram combates longos e difíceis, travados em terrenos montanhosos que favoreciam a defesa alemã.
A guerra também precisava de alegria
Uma das inovações trazidas pelo moderno Exército dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial foi a criação do Serviço Especial, setor responsável por zelar pelo bem-estar físico e emocional dos soldados. A experiência demonstrava que manter o moral elevado era tão importante quanto garantir armamentos e suprimentos. Inspirada nesse modelo, a Força Expedicionária Brasileira criou seu próprio Serviço Especial, chefiado pelo Major Reinaldo Ramos Saldanha da Gama e auxiliado pelos capitães Alcides Boiteux Piaza e Álvaro de La Roque Couto. A unidade tinha a missão de proporcionar entretenimento, conforto e apoio aos pracinhas por meio da organização de espetáculos, apresentações musicais, atividades recreativas, distribuição de presentes e artigos de higiene, assistência aos soldados hospitalizados e produção de jornais informativos, como o Zé Carioca e o Cruzeiro do Sul. Mais do que simples distração, essas ações ajudavam a aliviar as tensões provocadas pela rotina dos combates e fortaleciam o espírito de corpo entre os expedicionários.
Entre os integrantes desse serviço estava o barretense Francisco de Assis Bezerra de Menezes, o Bezerrinha, que colaborou diretamente com as atividades recreativas e culturais desenvolvidas junto à tropa.
A história de amor que atravessou a guerra
Em meio às dificuldades da campanha italiana, Bezerrinha carregava consigo uma lembrança especial da namorada, Lygia. Com a ponta de uma faca, gravou o nome dela na tampa de sua marmita militar, transformando um objeto comum em símbolo de saudade, esperança e resistência emocional diante das incertezas da guerra. O gesto simples revela uma dimensão pouco conhecida do conflito: por trás dos uniformes e das batalhas, havia jovens que sonhavam apenas em voltar para casa e reencontrar suas famílias.

A história teve um desfecho feliz. Bezerrinha retornou a Barretos após o fim da guerra e casou-se com Lygia Guerra Bezerra de Menezes, permanecendo ao seu lado por toda a vida. Atualmente, a marmita com o nome gravado integra o acervo do Museu Histórico, Artístico e Folclórico “Ruy Menezes” e constitui um dos mais emocionantes testemunhos da participação barretense na Segunda Guerra Mundial, preservando a memória de um soldado que ajudou a levar conforto e esperança aos companheiros em tempos de guerra.
Você sabia?
A famosa expressão “A cobra vai fumar” nasceu justamente durante a participação brasileira na guerra.

Havia quem dissesse que seria mais fácil uma cobra fumar cachimbo do que o Brasil enviar soldados para combater na Europa. Quando os expedicionários finalmente embarcaram para a Itália, a frase foi transformada em símbolo de orgulho pelos próprios militares brasileiros.
A cobra fumando cachimbo tornou-se o emblema oficial da FEB e acabou entrando definitivamente no vocabulário popular brasileiro.
Bezerrinha e a música da guerra
Além de soldado, Bezerrinha também era músico e compositor.
Durante a campanha na Itália, escreveu a canção divertida “Cobra Não Fuma”, criada para animar os companheiros nos momentos de descanso. A composição fazia referência direta aos feitos da FEB e à tomada de Monte Castelo, uma das maiores vitórias brasileiras no conflito.

A música representa um aspecto pouco conhecido da guerra: mesmo cercados pela violência, os soldados buscavam formas de preservar a alegria, fortalecer amizades e manter viva a esperança do retorno para casa.
Mário Lemos e a batalha de Montese
Outro nome marcante da participação barretense foi Mário Lemos Ferraz.Ele esteve na duríssima batalha de Montese, considerada uma das mais sangrentas enfrentadas pelos brasileiros na Itália. Durante os combates, foi gravemente ferido por estilhaços de granada no braço e levado para um hospital militar em Livorno.
Um médico norte-americano conseguiu evitar a amputação do membro.

Mário também protagonizou um episódio de bravura ao ajudar um companheiro ferido após a explosão de uma mina terrestre. Em meio ao perigo, carregou o colega para fora da área de risco e contribuiu para salvar sua vida.
A guerra também transformou Barretos
Enquanto os expedicionários combatiam na Itália, a população de Barretos enfrentava outros desafios.

O racionamento tornou-se parte da rotina. A gasolina ficou escassa e muitos veículos passaram a utilizar gasogênio. Produtos básicos sofreram restrições, incluindo pão, querosene, gás e energia elétrica.
Fotografias preservadas pelo Museu Histórico, Artístico e Folclórico “Ruy Menezes” mostram filas de moradores aguardando a compra de alimentos durante os anos do conflito.

Até mesmo instituições tradicionais foram atingidas. A Casa D’Itália, importante espaço de convivência da comunidade italiana local, acabou sendo dissolvida durante aquele período de tensão política e nacionalismo.
Quando até a língua foi proibida
Durante a Segunda Guerra Mundial, a vida de milhares de imigrantes e descendentes de italianos, alemães e japoneses no Brasil sofreu profundas restrições. Considerados pelo governo como indivíduos potencialmente ligados aos países do Eixo, muitos passaram a ser vigiados pelas autoridades e tiveram sua liberdade de circulação limitada. Para viajar ou mesmo deslocar-se para determinadas regiões do país, era necessário portar um salvo-conduto, documento especial emitido pelo poder público que autorizava seu trânsito. Além disso, como parte da política de nacionalização promovida pelo Estado Novo, o uso público de idiomas estrangeiros foi proibido. Italiano, alemão e japonês não podiam ser falados em escolas, associações, igrejas, estabelecimentos comerciais e, em muitos casos, nem mesmo nas ruas. Famílias que preservavam suas línguas e tradições culturais passaram a esconder seus costumes por medo de represálias, transformando o cotidiano de comunidades inteiras. Em Barretos, onde havia significativa presença de imigrantes, a guerra não se fez sentir apenas pelas notícias vindas da Europa, mas também pelas mudanças impostas à vida daqueles que, apesar de viverem e trabalharem no Brasil havia décadas, passaram a ser vistos com desconfiança em razão de suas origens.

Acervo do Museu Histórico, Artístico e Folclórico “Ruy Menezes”.
As marcas invisíveis do conflito
Diversos expedicionários voltaram para casa carregando traumas que os acompanhariam pelo resto da vida, pouco se compreendia sobre os efeitos psicológicos da guerra.
Os horrores vividos nos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial deixaram marcas profundas em muitos combatentes brasileiros. Na época, os sintomas que hoje seriam associados ao transtorno de estresse pós-traumático eram frequentemente chamados de “neurose de guerra”, condição que afetava soldados expostos continuamente ao medo, à violência e às perdas do conflito. Entre os pracinhas que partiram de Barretos para integrar o 6º Regimento de Infantaria, três casos ilustram os efeitos duradouros dessas experiências traumáticas. Antônio Vicentini, que retornou da Itália carregando cicatrizes invisíveis da guerra, desapareceu em 1952, sem que seu destino fosse esclarecido.

Justo da Costa Laranjeira, ainda em território italiano, submetido à pressão constante dos combates, à incerteza da sobrevivência e ao desgaste emocional acumulado durante a campanha, tentou tirar a própria vida. O episódio revela que os efeitos da guerra nem sempre se manifestavam apenas por ferimentos físicos visíveis, mas também por sofrimento psíquico profundo, muitas vezes silencioso e incompreendido.

Já Moacir Aguirra, conhecido em Barretos por seu talento como carpinteiro, enfrentou graves problemas de saúde mental após o conflito, chegando a ser internado, em 1950, no Hospital Psiquiátrico do Juquery, em Franco da Rocha. Posteriormente, residindo em São Paulo, envolveu-se em uma briga e sofreu agressões policiais das quais não se recuperou, vindo a falecer em consequência dos ferimentos. As trajetórias desses dois ex-combatentes barretenses evidenciam que, para muitos veteranos, a guerra não terminou com o fim dos combates, permanecendo viva por décadas na forma de traumas psicológicos e dificuldades de reintegração à vida civil.

Fonte: Descobrindo Barretos: 1854 – 2012
Muito Além dos Campos de Batalha
As histórias de Antônio Vicentini e Moacir Aguirra demonstram que os impactos da Segunda Guerra Mundial ultrapassaram os limites dos campos de batalha e continuaram a ecoar por muitos anos após o fim do conflito. Embora a guerra tenha terminado em 1945, muitos pracinhas retornaram ao Brasil carregando não apenas medalhas e lembranças de combate, mas também profundas marcas físicas e emocionais. Alguns conseguiram reconstruir suas vidas e retomar suas atividades cotidianas; outros, porém, conviveram por décadas com os traumas de uma experiência extrema que transformou para sempre seus destinos.
Ao analisarmos a trajetória dos expedicionários ligados a Barretos, percebemos que a Segunda Guerra Mundial não foi apenas um acontecimento distante retratado nos livros de História. Seus efeitos alcançaram diretamente a cidade, influenciando vidas, famílias e comunidades. Os 23 pracinhas barretenses representam uma geração que se viu envolvida em um dos maiores conflitos da humanidade e que, ao retornar, trouxe consigo histórias de coragem, sacrifício, perdas e superação. Por meio de suas experiências, compreendemos que Barretos, assim como tantas outras cidades do interior brasileiro, também escreveu seu próprio capítulo na história da guerra, deixando um legado que ainda merece ser estudado, lembrado e preservado.


