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Mochila pesada causa dor nas costas? Talvez o problema não seja o peso
- Yuri de Santis é fisioterapeuta (CREFITO-3 240236-F)
Durante anos, pais, professores e até profissionais de saúde repetiram quase como uma verdade absoluta: “mochila pesada estraga a coluna”. Mas será que é tão simples assim?
Uma revisão sistemática publicada no British Journal of Sports Medicine, que analisou 69 estudos, colocou essa certeza em xeque. Os pesquisadores não encontraram evidências convincentes de que o peso, o design ou a maneira de carregar a mochila, isoladamente, aumentem o risco de dor nas costas em crianças e adolescentes.
E aqui está a parte que considero mais importante: isso não significa que mochila pesada seja confortável ou que você possa colocar uma tonelada nas costas sem preocupação!
O corpo humano é muito mais inteligente e complexo do que uma simples conta de “peso da mochila = dor”. Postura, força muscular, condicionamento físico, tempo de permanência com a mochila, maneira de caminhar, crescimento, hábitos sedentários e até fatores psicossociais podem participar dessa equação.
Uma mochila muito pesada pode, sim, provocar desconforto, fadiga muscular e sobrecarga momentânea, principalmente quando utilizada por longos períodos. O problema é transformar isso automaticamente em “lesão da coluna”. A ciência, até aqui, não permite fazer essa afirmação com tanta facilidade.
Na fisioterapia, gosto de pensar no corpo como um sistema: não é apenas o que você carrega, mas como seu corpo está preparado para carregar aquilo.
Por isso, em vez de entrar em pânico ao ver uma criança com mochila nas costas, vale observar o conjunto: ela sente dor frequente? A dor persiste mesmo sem a mochila? Há limitação para brincar ou praticar esportes? A mochila está mal ajustada? O peso está concentrado de um lado?
Essas perguntas são muito mais importantes do que simplesmente olhar para a balança.
Mochila não deve ser tratada como vilã da coluna. O verdadeiro alerta é a presença de dor persistente, limitação de movimento ou outros sintomas — situações que merecem avaliação profissional.
A ciência não está dizendo “carregue o que quiser”. Ela está dizendo algo muito mais interessante: pare de procurar um único culpado para um problema que é multifatorial.
E talvez essa seja uma das maiores lições da fisioterapia: corpo forte, movimento e bons hábitos importam muito mais do que viver com medo de usar a própria coluna.



