Quando fiscalizar vira afronta: o caso Jonathas, Elson e o silêncio que grita em Barretos
Quando fiscalizar vira afronta: o caso Jonathas, Elson e o silêncio que grita em Barretos
Há momentos na política local em que o barulho não vem do que é dito — mas do que se tenta calar.
A sessão da Câmara Municipal de Barretos, na última segunda-feira (6), não foi apenas mais uma votação rotineira. Foi um daqueles episódios que expõem, sem filtro, a engrenagem real do poder. E, convenhamos: quando um simples requerimento de convocação vira crise, tem algo errado — ou, no mínimo, muito mal explicado.
De um lado, o vereador Jonathas Lazzarotto (PSD), pastor, eleito com discurso de fiscalização e transparência. Do outro, uma base governista que, por 13 votos, enterra um pedido de explicações sobre despesas do gabinete do prefeito. No meio disso tudo, o vereador Elson dos Santos (Republicanos), também pastor, tentando traduzir a decisão como “normal” — quase burocrática.
Mas não é.
E não deveria ser.
Vamos aos fatos — porque, no fim, é isso que importa.
O requerimento nº 824/2026 não era um ataque político vazio. Era técnico, detalhado, quase cirúrgico. Pedia documentos, planilhas, extratos, identificação de responsáveis, prestação de contas completa sobre gastos do gabinete do prefeito desde 2025. Não estamos falando de curiosidade política. Estamos falando de rastreabilidade de dinheiro público.
Mais do que isso: o próprio documento deixa claro que a resposta anterior do Executivo foi genérica, insuficiente, quase protocolar — algo que, tecnicamente, inviabiliza o controle externo do Legislativo. E aqui entra o ponto central — que precisa ser explicado sem juridiquês.
Vereador não “pede favor”. Vereador exerce poder constitucional.
A função fiscalizatória não é opcional. Ela é obrigatória. Está prevista na Lei Orgânica do Município, no Regimento Interno e, mais amplamente, no próprio desenho constitucional do sistema brasileiro.
Quando um vereador apresenta um requerimento de informação — ainda mais com esse nível de detalhamento — o Executivo tem o dever de responder de forma completa, objetiva e documentada. Não basta dizer “está no Portal da Transparência”.
Aliás, esse argumento — repetido com certa ironia pelo vereador Elson — é tecnicamente frágil.
Portal da Transparência não substitui resposta formal.
Portal da Transparência não organiza informação sob demanda fiscalizatória.
Portal da Transparência não responde quesitos específicos.
É como dizer: “procura aí”.
Isso não é transparência. Isso é terceirização da responsabilidade.
E aí chegamos ao momento mais incômodo — e, talvez, mais revelador.
Segundo relato feito em plenário por Jonathas, vereadores teriam recebido orientação para votar contra o requerimento. Se isso de fato ocorreu — e ninguém desmentiu com veemência — não estamos diante de um simples desacordo político.
Estamos diante de uma pergunta institucional grave:
Desde quando o Executivo decide o que o Legislativo pode fiscalizar?
E mais.
Se a convocação não tinha problema…
Se estava tudo no Portal da Transparência…
Se não havia nada de irregular…
Por que barrar?
Aqui, o discurso de Elson dos Santos ganha um tom curioso. Ao dizer que convocações podem ser “políticas” e de “medir força”, ele toca num ponto real — mas perigoso.
Sim, política envolve disputa.
Mas fiscalização não é disputa.
Fiscalização é dever.
Misturar as duas coisas é conveniente — especialmente quando a fiscalização incomoda.
E Jonathas, goste-se ou não do estilo, fez exatamente o que se espera de um vereador em sua função mais essencial: questionar gasto público. Ponto.
Agora, é preciso equilíbrio — porque ele também existe.
Não se pode ignorar que há, sim, um ambiente político tenso, onde requerimentos podem ganhar dimensão midiática. Isso acontece em qualquer Câmara do Brasil. E Elson não está completamente errado ao alertar para isso.
Mas aqui está o detalhe que muda tudo:
Mesmo que haja interesse político, isso não invalida o direito — nem o dever — de fiscalizar.
Aliás, em democracias maduras, o interesse político costuma ser justamente o motor da fiscalização. E isso não é defeito. É mecanismo de controle.
O problema não está em perguntar.
O problema está em impedir a pergunta.
E quando isso acontece, o debate deixa de ser sobre Jonathas.
Deixa de ser sobre Elson.
E passa a ser sobre o prefeito.
Sim, ele mesmo: Odair Silva.
Porque, no fim do dia, a pergunta que ecoa — e que nenhum discurso conseguiu abafar — é simples, direta e desconfortável:
O que há de tão sensível nesses gastos que não pode ser explicado em plenário?
Por que tanto esforço para evitar uma convocação?
Por que o desespero?
Política é, antes de tudo, percepção.
E a percepção que fica, gostem ou não, é a de que se tentou fechar uma porta que deveria estar escancarada.
E, em política, poucas coisas são mais perigosas do que isso.
Porque quando a transparência é bloqueada, o que cresce não é a confiança.
É a dúvida.
E dúvida, na cabeça do eleitor, vira narrativa.
E narrativa… vira voto.


