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Coriolano José Neves e a memória viva da Estrela D’Oriente

 Coriolano José Neves e a memória viva da Estrela D’Oriente

Em um momento em que Barretos assiste ao fechamento ou à perda de protagonismo de antigos clubes sociais, o Estrela D’Oriente segue como um dos últimos símbolos vivos de uma trajetória marcada por resistência, cultura e pertencimento. Em entrevista, Coriolano José Neves relembra a origem do clube, contextualiza seu surgimento em um cenário de exclusão racial e reflete sobre a importância histórica, social e cultural da entidade para a cidade e para as próximas gerações.

Segundo Coriolano, a perda progressiva de clubes tradicionais em Barretos não é apenas um problema institucional, mas um reflexo de transformações sociais mais amplas que impactaram diretamente a convivência familiar e comunitária. Para ele, há também um sentimento coletivo de responsabilidade por não ter sido transmitida às novas gerações a dimensão histórica desses espaços, especialmente do Estrela D’Oriente, considerado um dos pilares da formação cultural da cidade.

O surgimento do Estrela D’Oriente está diretamente ligado a um período de forte exclusão racial. Poucas décadas após a abolição da escravidão, pessoas negras ainda enfrentavam restrições severas de acesso a espaços públicos, religiosos e recreativos. Nesse contexto, grupos passaram a se organizar de forma autônoma, promovendo encontros culturais e festividades em locais improvisados, como fundos de casas, salões vazios e antigos barracões.

Coriolano relembra que, na época, negros não podiam frequentar clubes tradicionais da cidade nem expressar livremente manifestações culturais como o samba, a capoeira ou práticas religiosas de matriz africana. A criação do Estrela D’Oriente representou, portanto, um espaço de afirmação social e cultural, onde a comunidade negra pôde se reunir, celebrar e preservar suas tradições.

Em 1932, o Seo Lazinho, comerciante, que conseguiu articular a manutenção das atividades mesmo em períodos de forte repressão. O Estrela D’oriente também incorporou o grupo Carvão Nacional, que se tornou uma das principais expressões culturais de rua dos bairros da cidade, especialmente durante o Carnaval.

Ao longo das décadas, o clube passou por diversas sedes até a consolidação do espaço próprio, inaugurado em 1977, na Avenida 9. Esse momento, segundo Coriolano, foi decisivo para fortalecer a identidade do Estrela, especialmente durante gestões marcantes, como a de Zé Preto, liderança reconhecida por sua atuação comunitária e pelo investimento pessoal na manutenção do clube.

O Estrela D’Oriente também ficou conhecido como um importante celeiro de músicos, sambistas e lideranças culturais. De acordo com Coriolano, praticamente todas as escolas de samba da cidade tiveram origem ou formação direta no clube. A introdução de novos instrumentos, estilos e critérios de desfile contribuiu para modernizar o Carnaval local e aproximá-lo de modelos mais estruturados, inspirados em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Na década de 1970, o clube viveu um de seus períodos mais expressivos, com títulos consecutivos no Carnaval e desfiles que reuniam milhares de pessoas na Avenida 7. Para Coriolano, o Carnaval de Rua consolidou-se como uma das maiores atrações turísticas de Barretos, movimentando a economia local e reunindo famílias, moradores e visitantes em torno da cultura popular.

Apesar da relevância histórica, o Estrela D’Oriente enfrentou, nos últimos anos, riscos concretos de venda e desmobilização de seu patrimônio físico. A valorização imobiliária da área onde está localizada a sede despertou interesses externos, gerando debates internos sobre a venda do espaço. Para Coriolano, mais do que um imóvel, o clube representa um patrimônio imaterial da cidade, ligado à memória, à ancestralidade e à identidade cultural de Barretos.

Diante desse cenário, lideranças do Estrela defendem o tombamento do espaço como forma de garantir sua preservação. A proposta visa reconhecer oficialmente o valor histórico e cultural do clube e criar condições para sua sustentabilidade por meio de projetos culturais, incentivos públicos e ações voltadas à formação de crianças e jovens.

O entrevistado ressalta que o papel do Estrela D’Oriente vai além da promoção de eventos. Como sociedade beneficente, o clube tem a função de atuar na proteção social, no fortalecimento da cultura negra e na oferta de alternativas culturais para jovens em situação de vulnerabilidade. Iniciativas recentes incluem parcerias com entidades do movimento negro, órgãos públicos e projetos culturais financiados por leis de incentivo.

Para o futuro, Coriolano acredita que o Estrela do Oriente continuará relevante se conseguir reafirmar seu papel como espaço de formação, memória e cuidado coletivo. A celebração dos 90 anos, com a tradicional chegada dos Reis Magos, simboliza não apenas a longevidade do clube, mas também a permanência de uma história que segue viva na cidade.

Ao final da entrevista, Coriolano reforça o convite à população para participar das comemorações e conhecer de perto a trajetória do Estrela D’Oriente. Para ele, preservar o clube é preservar parte essencial da história de Barretos — não apenas para o presente, mas para as próximas gerações.

ASSISTA A ENTREVISTA COMPLETA AQUI

Igor Sorente

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