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Coletiva desastrosa: sindicato dos servidores reage e presidente fala em falta de conhecimento e sensibilidade
Coletiva de imprensa foi convocada após manifestação de músicos durante concerto. (Foto: Tininho Jr)
A crise da Orquestra Sinfônica Municipal de Barretos (OSMB), que já vinha se agravando com a imposição de uma nova carga horária presencial, atingiu seu ápice nesta segunda-feira (31), após uma coletiva de imprensa marcada por declarações controversas do prefeito Odair Silva (REP). Em um movimento que seria de esclarecimento, a fala do chefe do Executivo acirrou ainda mais os ânimos e gerou repercussão negativa entre músicos, representantes sindicais e parte da população barretense.
Em meio a uma série de falas desconexas e comparações infelizes, como a analogia entre músicos da orquestra e coletores de lixo — repudiada publicamente pelo Sindicato dos Servidores —, o prefeito afirmou que há “má intenção” por parte dos músicos e que a OSMB está “mal assessorada”. A fala, além de ser vista como desrespeitosa, contrastou com o tom institucional esperado para uma situação delicada como essa.
“Nós estamos buscando uma alternativa legal. O que não dá é para alguém amanhã ou depois ter que devolver dinheiro aos cofres públicos”, disse Odair, insinuando irregularidades sem apresentar provas.
Pedidos ignorados e silêncio do Executivo
Segundo documentos analisados pela reportagem, os representantes da orquestra protocolaram três pedidos formais de reunião com o prefeito — nos dias 19/02, 27/02 e 31/03 — todos sem qualquer resposta oficial até o momento. Os músicos também destacam que o estudo individual, agora excluído da jornada oficial pela Prefeitura, é parte indissociável do ofício musical, sendo previsto inclusive em legislações de diversas orquestras públicas do país.
“Não somos aventureiros. Somos concursados, com formação superior e em muitos casos pós-graduados. É inaceitável sermos tratados como se fôssemos trabalhadores informais”, diz trecho da nota oficial da Comissão de Representantes da OSMB.
Documento revela fundamentação jurídica robusta
A petição protocolada pela Comissão da OSMB, que a reportagem teve acesso na íntegra, levanta questionamentos jurídicos à mudança imposta pela administração municipal. Entre os argumentos:
- Violação ao princípio da eficiência, ao excluir o estudo da jornada de trabalho;
- Desigualdade funcional, uma vez que músicos arcam com instrumentos, figurinos e custos não reembolsados;
- Precedentes de outras orquestras brasileiras que adotam modelos legais de jornada mista (presencial e remota);
- Possível configuração de abuso de autoridade, por impor mudanças sem negociação coletiva ou respaldo normativo.
Além disso, os músicos reforçaram que a Prefeitura não dispõe de infraestrutura para estudo individual, o que inviabiliza a exigência de 20 horas presenciais.
Sindicato reage: “Falta de conhecimento e sensibilidade”
O presidente do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais, Jailton Rodrigues, que esteve presente na coletiva, emitiu nota criticando duramente a postura da Prefeitura:
“A comparação feita entre músicos e garis foi infeliz e demonstra desconhecimento da especificidade do trabalho artístico. Cada músico exige ambiente próprio de estudo, o que o município não oferece. O Sindicato não quer privilégios, mas sim condições dignas e respeito à legalidade.”
Clima de ruptura e possível judicialização
Diante do impasse, os músicos solicitaram com urgência a expedição de um decreto provisório que regulamente a jornada da categoria de forma compatível com a prática musical — nos moldes adotados por cidades como Santos, Americana e Campinas. Caso não haja resposta da Prefeitura em até 15 dias, a categoria promete levar a questão à Justiça.
O documento sugere uma jornada distribuída da seguinte forma:
- 8 horas presenciais para ensaios e apresentações;
- 12 horas de estudo individual, com relatórios mensais como comprovação.
A proposta está amparada na legislação municipal vigente e em precedentes legais. A comissão ainda reforça: “Não buscamos regalias, mas apenas que nossas funções sejam tratadas com a especificidade que a atividade artística exige.”
Risco de desmonte preocupa sociedade civil
A OSMB, que ao longo de 28 anos já foi reconhecida por nomes como João Carlos Martins e se apresentou em eventos de porte nacional como a Festa do Peão, corre o risco de esvaziamento. Ao menos um músico já pediu exoneração, e outros avaliam afastamento por razões de saúde mental e desestímulo profissional.
Repercussão negativa e pressão por recuo
Nas redes sociais, o vídeo da fala do prefeito viralizou, com centenas de comentários criticando o tom “autoritário” e a “falta de empatia” da administração. Vereadores que anteriormente haviam se manifestado pela flexibilização da jornada agora pressionam por um posicionamento urgente do Executivo.
Enquanto a Prefeitura insiste em “cumprir a lei”, especialistas em direito público alertam que não se trata de desrespeito legal, mas sim da ausência de regulamentação específica que contemple as particularidades do trabalho musical.
A pergunta que fica: o que vale mais — o rigor administrativo ou a sobrevivência de um patrimônio cultural?
Com a pauta se tornando cada vez mais politizada, a permanência da Orquestra Sinfônica Municipal de Barretos, tal como a conhecemos, parece pender mais para a sobrevivência na resistência do que para a valorização institucional.