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Da vitória à derrota: a queda de Antônio Olympio

 Da vitória à derrota: a queda de Antônio Olympio
  • Por Sueli Fernandes

A década de 1910 foi marcada por intensas disputas políticas em Barretos. De um lado estavam os chamados “araras”, liderados pelo coronel Silvestre de Lima; do outro, os “pica-paus”, comandados pelo coronel Antônio Olympio. Ambos os grupos se alternavam no comando do Executivo municipal, seja por intermédio de seus próprios líderes, seja por meio de aliados políticos que ocupavam os cargos estratégicos da administração.

Entre os últimos e mais significativos enfrentamentos travados por esses grupos destacou-se a questão da divisão territorial de Barretos, que resultou na criação do município de Olímpia, em 1917. O novo município nasceu incorporando aproximadamente três quartos do território barretense, configurando uma expressiva derrota política para Silvestre de Lima.

Naquele momento, Silvestre exercia a presidência da Câmara Municipal. Embora tivesse sido eleito prefeito, necessidades familiares o obrigavam a constantes viagens a São Paulo para tratamento de saúde. Em razão disso, realizou um arranjo político então perfeitamente legal e aceito pelo sistema vigente, em acordo com os seus pares: transferiu a função de prefeito ao amigo João Machado de Barros, permanecendo na presidência do Legislativo. Por mais estranho que tal situação possa parecer aos olhos atuais, o sistema eleitoral da época permitia organizações dessa natureza.

A discussão em torno da criação do município de Olímpia mobilizou intensamente Silvestre de Lima. Embora não se opusesse à emancipação da nova cidade, discordava profundamente da extensão territorial reivindicada pelos seus defensores. Em sua avaliação, a única explicação plausível para tal pretensão estava ligada às disputas partidárias. Determinado a impedir a aprovação do projeto nos moldes apresentados, reuniu-se com o governador do estado e posteriormente tornou pública, no jornal O Estado de São Paulo, sua versão dos acontecimentos:

“Expus a S. Exa. os termos da nossa questão; mostrei-lhe os documentos com que havíamos impugnado as divisas que no projeto de lei em discussão se traçavam para o novo município a menos de um terço da área total do seu território; fiz-lhe ver que podiam perfeitamente harmonizar os interesses em jogo, sem o sacrifício de nenhum deles; e conclui dizendo-lhe que só uma coisa parecia explicar a teimosia com que tais divisas eram pleiteadas: a paixão partidária. Mas acrescentei, para que nem esse mesmo pretexto pudesse prevalecer, que eu estava autorizado a declarar, por mim e por meus correligionários políticos, que nos prontificávamos desde logo a renunciar a todos os cargos públicos que ocupávamos em Barretos, por tal preço podíamos evitar a hedionda mutilação de que o município se achava ameaçado.” (O Estado de São Paulo, 15/Dez/1917, pág. 10)

A preocupação de Silvestre era justificada. Olímpia surgiria beneficiada por uma infraestrutura construída ao longo de décadas por Barretos, incorporando extensas áreas produtivas e diversas benfeitorias. Em contrapartida, o município remanescente ficaria responsável pelos custos acumulados de investimentos realizados na região. Em audiência com o governador e posteriormente em carta publicada no mesmo jornal, Silvestre voltou a denunciar a desproporção da medida e reafirmou sua disposição de renunciar a todos os cargos públicos caso isso fosse necessário para impedir aquilo que definia como uma “hedionda mutilação” territorial.

Seus apelos, contudo, não foram atendidos. A aprovação da nova divisão territorial representou a maior derrota política de sua trajetória. Barretos, que até então se orgulhava da vastidão de seu território, viu-se reduzida em quase dois terços de sua extensão. Olímpia nascia forte, herdeira de terras e investimentos acumulados ao longo dos anos, enquanto Barretos permanecia menor e marcada pelo ressentimento decorrente da perda.

Ao final do mandato, profundamente desapontado, Silvestre de Lima transferiu-se para São Paulo. Aparentemente, a vitória havia ficado com Antônio Olympio. Em 1919, ele foi novamente eleito prefeito, assumindo o mandato correspondente ao período de 1920 a 1926. No entanto, aquilo que parecia representar o auge de sua trajetória política seria, na verdade, o início de sua lenta e gradual queda.

As transformações que culminariam na queda de Antônio Olympio começaram a ganhar forma em 1924. Quando surgiu como força de oposição ao Partido Republicano, legenda à qual Antônio Olympio era filiado, o Partido Popular. A nova agremiação reuniu lideranças como Riolando de Almeida Prado, que chegara a Barretos no início da década de 1920, além de Atair Rios e Manoel Barcellos.

A oposição iniciou sua atuação por meio da imprensa. Os jornais passaram a publicar críticas à administração municipal, denunciando a concentração de investimentos em determinadas áreas da cidade enquanto bairros periféricos permaneciam abandonados pelo poder público. Ao vocalizarem reivindicações populares que até então encontravam pouca repercussão, os oposicionistas passaram a desgastar a imagem do coronel Antônio Olympio. A breve tranquilidade política que o acompanhara com a partida de Silvestre de Lima começava a ser interrompida.

Simultaneamente, o Brasil vivia profundas transformações. A década de 1920 assistiu ao surgimento do tenentismo, movimento político-militar liderado por jovens oficiais do Exército, especialmente tenentes e capitães. Entre suas principais bandeiras estavam o combate ao domínio político das oligarquias agrícolas de São Paulo e Minas Gerais, o enfrentamento das fraudes eleitorais e o fim do chamado voto de cabresto, substituído por um sistema de votação livre e secreta.

O movimento encontrou receptividade em diferentes setores da população. O descontentamento era alimentado pela política que favorecia os cafeicultores, pela persistência da pobreza e pela concentração de poder nas mãos dos estados de São Paulo e Minas Gerais, que se alternavam no controle da Presidência da República. Nos quartéis, a situação também era delicada. Os militares demonstravam crescente insatisfação diante dos baixos soldos, da escassez de treinamento, da falta de medicamentos e da precariedade dos armamentos.

O estopim das tensões ocorreu durante o processo eleitoral presidencial. Circulou pelo país uma carta supostamente escrita por Artur Bernardes, candidato oficial à presidência, contendo críticas ao Exército e insultos ao marechal Hermes da Fonseca. A reação do marechal foi imediata e contundente. Ao questionar a condução do processo sucessório pelo presidente Epitácio Pessoa, acabou preso. O episódio desencadeou uma série de levantes militares que passariam à história como movimentos tenentistas.

Em Barretos, o Partido Popular demonstrava simpatia pelas propostas tenentistas. Seus principais líderes, entre eles Riolando de Almeida Prado, identificavam-se com o discurso de renovação política e combate às práticas oligárquicas que caracterizavam a Primeira República. Essa aproximação tornou-se evidente durante a Revolução de 1924, especialmente no levante ocorrido na cidade de São Paulo, do qual participaram quarenta barretenses. Entre os implicados nos acontecimentos estavam figuras que posteriormente ocupariam papel de destaque na oposição local, como Riolando de Almeida Prado, Atair Rios, Manoel Serafim Barcellos e Philogônio Theodoro de Carvalho. Nesse contexto de instabilidade política, chegaram a Barretos notícias equivocadas que davam como certa a queda do governador paulista. Convencido da veracidade dessas informações, Antônio Olympio fugiu da cidade, deixando o Executivo municipal sob a responsabilidade do vice-prefeito Xavier de Almeida.

O Estado de São Paulo, 1º. Fev, 1925.

As consequências da Revolução de 1924 logo se fizeram sentir. Em 29 de janeiro de 1925, o jornal O Estado de São Paulo noticiou a abertura de processo contra os envolvidos no movimento. Entre os nomes relacionados figuravam personagens centrais da história política local, como Philogônio Theodoro de Carvalho, dr. Manoel Serafim Barcellos, dr. Atair Rios, dr. Riolando de Almeida Prado e Belmiro Simões, juiz de direito de Barretos.

A participação desses homens nos acontecimentos revolucionários levou à intensificação da vigilância exercida pela Força Pública do Estado. Nem mesmo esse monitoramento conseguiu impedir que Philogônio mantivesse contato com lideranças revolucionárias, articulando posteriormente a Revolta de 1925 em Barretos. Após sua derrocada, juntou-se à Coluna Prestes, que percorreu mais de 24 mil quilômetros pelo interior brasileiro em busca de apoio popular para derrubar o governo federal.

Quando Washington Luiz assumiu a Presidência da República, em 1927, a Coluna Prestes foi desmobilizada. Seus principais líderes buscaram refúgio em países vizinhos. Philogônio retornou a Barretos, mas encontrou um ambiente hostil e acabou transferindo-se para o Mato Grosso.

Paralelamente, trinta e seis homens, paulistas e mineiros, encaminharam uma carta-denúncia ao Correio da Manhã, pedindo que o jornal servisse de intermediário junto ao presidente da República e à opinião pública nacional na divulgação dos excessos cometidos pela Força Pública durante os acontecimentos revolucionários de 1925 em Barretos. Ao recorrer a um dos mais influentes periódicos do país, os signatários buscavam assegurar ampla publicidade às acusações e evitar que o governo alegasse desconhecimento dos fatos denunciados. Entre os episódios relatados encontrava-se o fuzilamento do barretense Joaquim de Carvalho.

Correio da Manhã, 11.02.1927. Acervo: Biblioteca Nacional.

Joaquim havia sido ferido e preso após confronto com a polícia na Estação Palmar, durante uma tentativa dos revoltosos de retirar trilhos ferroviários para dificultar o avanço das forças governistas. Mesmo encontrando-se sob custódia estatal, foi retirado da prisão, algemado e desarmado, e levado para acompanhar a perseguição ao grupo liderado por Philogônio. Nas proximidades da cidade do Prata, em Minas Gerais, ocorreu intenso combate que resultou na morte de vinte e quatro revoltosos.

Segundo a carta-denúncia, o major Pedro de Moraes Pinto, comandante da Força Pública, teria ordenado o fuzilamento de Joaquim Carvalho e o lançamento de seu corpo nas águas do Rio Grande. O documento afirmava:

“preso retirado de sob a guarda e jurisdição da polícia de Barretos, para ser morto em território mineiro é um crime que precisa ser apurado.”

Em outro trecho, os denunciantes dirigiam severas críticas às autoridades locais da época, entre elas Antônio Olympio e o promotor público Elias Ferreira Bedê:

“não tiveram um gesto de condenação a esse crime inominável. Antes, festejaram a força pública e o seu comandante, quando regressaram do território mineiro, salientando-se pelo seu entusiasmo de vencedores, quando toda a cidade lamentava a morte de infelizes que aqui trabalhavam, no seu ganha pão diário”.

A denúncia seguiu com firma reconhecida das respectivas assinaturas. Mais do que relatar os abusos atribuídos à Força Pública, o documento também censurava a postura adotada por autoridades locais, por não terem manifestado qualquer reprovação diante da morte de Joaquim Carvalho. Em um momento em que parte da população lamentava a morte de homens conhecidos da comunidade, a atitude atribuída ao antigo chefe dos “pica-paus” contribuía para ampliar o desgaste político que já se acumulava sobre sua liderança.

O cenário eleitoral seguinte confirmou a mudança dos ventos políticos. O Partido Popular conquistou o Executivo municipal com a eleição de Riolando de Almeida Prado. Para Antônio Olympio, o resultado simbolizou mais do que uma derrota circunstancial: representou o encerramento definitivo de sua trajetória eleitoral. As críticas à sua administração, sua fuga durante a Revolução de 1924 e a censura pública recebida em razão de sua postura diante dos acontecimentos de 1925 contribuíram para a queda gradual de seu prestígio. Após sucessivas vitórias e uma longa posição de protagonismo, o antigo chefe dos “pica-paus” jamais voltaria ao executivo.

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