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Barretos em Versos: A Cidade Cantada por Bezerrinha

 Barretos em Versos: A Cidade Cantada por Bezerrinha
  • Por Sueli Fernandes

No dia 25 de agosto, quando Barretos celebra seus 172 anos de história, tradição e identidade, voltamos os olhos para aqueles que ajudaram a construir a alma da cidade não apenas com obras e feitos, mas também com palavras e sentimentos. Entre eles, destaca-se Francisco de Assis Bezerra de Menezes, o inesquecível Bezerrinha. Suas canções nos acompanham como verdadeiros retratos afetivos da terra barretense e nos ajudam a cantar a cidade, celebrar sua trajetória e renovar o orgulho de pertencermos a esta comunidade. Em seus versos vivem as paisagens, os costumes, os símbolos e as emoções que fazem de Barretos um lugar único.

Há artistas que cantam lugares. Outros os descrevem. Bezerrinha fez mais do que isso: transformou Barretos em sentimento. Sua obra não apenas registra uma cidade, mas revela uma forma de viver, de sentir e de pertencer. Ao ouvir suas canções, o barretense não encontra apenas versos; encontra a si mesmo.

Nascido em Barretos, em 12 de abril de 1920, Bezerrinha carregou sua terra natal por toda a vida. Advogado por formação, compositor por vocação, possuía o raro talento de converter emoções coletivas em palavras simples e profundas. Foi essa capacidade que o consagrou nacionalmente com Perfil de São Paulo, eleita em 1954 a música-hino do IV Centenário da capital paulista, composição que emocionou gerações e projetou seu nome entre os grandes compositores brasileiros.

Mas se São Paulo lhe trouxe reconhecimento, foi Barretos que lhe inspirou a alma.

Em suas canções, a cidade surge viva, pulsante, reconhecível aos olhos de qualquer barretense. Não se trata de uma descrição geográfica, mas afetiva. Bezerrinha compreendeu que uma cidade é feita das memórias que compartilhamos, dos símbolos que carregamos e das sensações que nos unem.

Por isso, ao ouvir os versos de “Festa do Peão”, popularmente conhecida como Vento Gelado, cada morador reconhece imediatamente uma experiência que parece sua:

“Vento gelado
Batendo em meu rosto
Me diz que é agosto
Florada do Ipê no Sertão…”

Poucos compositores conseguiram condensar em tão poucos versos imagens tão profundamente enraizadas na memória coletiva. O vento frio que anuncia agosto, a explosão dourada dos ipês floridos e a expectativa pela maior celebração da cultura sertaneja são elementos familiares que fazem parte da identidade local.

Não é apenas a descrição da paisagem que emociona. É o modo como o compositor a transforma em afeto:

“Eu sinto aquele abraço
Me aquecendo o coração
O abraço de Barretos
Faz do Inverno outro Verão.”

Nesse instante, Barretos deixa de ser cenário e torna-se personagem. A cidade acolhe, abraça, conforta. O inverno existe, mas o calor humano o vence. É a hospitalidade barretense transformada em poesia.

A mesma sensibilidade aparece em “Peão Bicharedo”, quando o compositor retrata a chegada de um peão à cidade durante a tradicional Festa do Peão de Boiadeiro:

“Barretos me recebeu num afetuoso abraço
Bem-vindo peão valente eu ouvia a cada passo.”

Mais uma vez, o acolhimento surge como característica essencial da cidade. O visitante não encontra apenas uma festa; encontra um povo orgulhoso de sua cultura e disposto a compartilhá-la.

Bezerrinha também registrou a história e a formação cultural da região. Em “Barretos 1910”, recriou com humor e autenticidade a atmosfera do início do século XX, mergulhando na linguagem, nos costumes e na valentia dos peões que cruzavam a cidade e ajudavam a construir sua identidade. Seus versos funcionam como uma espécie de documento afetivo, preservando modos de falar e de viver que ajudam a compreender a identidade barretense.

“Meninu se tu qué ir pra Barretos

Bota sentido nas coisa

Que tu precisa arruma

Tu pega um lápis e um papel

Escreva com letra de forma

Que é pra tu não te enganá

Tu compra um aba larga janota

Bombacha e um par de botas

Camisa e lenço de cor

Três boca de fogo e um metro de faca

Efeita de bala guaiaca

E te garre com nosso senhor”.

Mais do que uma descrição pitoresca, a canção resgata costumes e valores que fazem parte da memória coletiva da região. Ao aconselhar o viajante a providenciar o “aba larga janota”, as “bombacha e um par de botas”, além de “três boca de fogo e um metro de faca”, Bezerrinha recria poeticamente o ambiente sertanejo do início do século XX. O compositor não apenas canta Barretos; ele preserva sua história, valoriza suas origens e permite que as novas gerações visualizem uma cidade em formação, marcada pela coragem e pela rusticidade.

Talvez o maior mérito de sua obra esteja justamente aí. Bezerrinha não cantou uma cidade idealizada. Cantou a cidade real: seus campos, suas festas, seus trabalhadores, suas tradições, seus símbolos, seu povo e sua formação. Cantou a voz do berrante que ecoa na alma sertaneja, o frio das manhãs de agosto, a beleza dos ipês, a emoção das arquibancadas lotadas, o orgulho das raízes e o pertencimento que une gerações.

Hoje, ao escutarmos suas composições, compreendemos que elas pertencem à memória coletiva da cidade. Muitos barretenses sabem de cor os versos de Festa do Peão. Outros talvez não conheçam toda a história de seu autor. Mas todos, de alguma forma, reconhecem nas letras aquilo que sentem quando falam de sua terra.

Por isso, a poesia de Bezerrinha continua viva. Porque ela não fala apenas de Barretos. Ela fala do orgulho de ser barretense.

Ao celebrarmos os 172 anos de Barretos, percebemos que a obra de Bezerrinha constitui muito mais do que um conjunto de canções. Ela forma uma verdadeira narrativa da cidade através do tempo. Em “Barretos 1910”, o compositor volta o olhar para o passado e preserva a memória de um tempo marcado pela bravura, pela rusticidade e pelos conflitos que cercavam os peões condutores de boiadas, ao mesmo tempo em que registra costumes e tradições que ajudaram a moldar a identidade barretense. “Peão Bicharedo”, registra o presente das tradições, da hospitalidade e da grandiosidade da Festa do Peão, transformando em poesia uma manifestação cultural que se tornou símbolo da cidade. Já em “Festa do Peão”, eterniza sensações que ultrapassam qualquer época: o vento frio de agosto, a florada do ipê, o abraço acolhedor de Barretos e o orgulho de pertencer a esta terra.

Assim, passado, presente e permanência se encontram em sua obra. Bezerrinha cantou a Barretos que foi, a Barretos que vive e a Barretos que permanece viva no coração de seu povo. Talvez por isso suas músicas atravessem gerações com a mesma força e emoção. Mais do que descrever uma cidade, ele soube traduzir um sentimento coletivo. E, enquanto houver um barretense capaz de reconhecer no vento gelado de agosto, na voz do berrante ou na emoção da Festa do Peão um pedaço de sua própria história, a poesia de Bezerrinha continuará ajudando Barretos a celebrar a si mesma, lembrando-nos de que algumas cidades não se descrevem apenas com palavras.

Cantam-se.

E ninguém cantou Barretos com tanto amor quanto Bezerrinha.

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