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Osmar Marchi: um nome que ajudou a escrever a história da Festa do Peão de Barretos

 Osmar Marchi: um nome que ajudou a escrever a história da Festa do Peão de Barretos
  • Por Sueli Fernandes

Quando se fala na história da Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos, é impossível não recordar daqueles que ajudaram a construir essa tradição muito antes da estrutura grandiosa que hoje projeta o nome da cidade para o mundo. Entre esses personagens está Osmar Marchi, bicampeão do rodeio em cavalos estilo cutiano em Barretos, nos anos de 1966 e 1967, um homem cuja trajetória se confunde com a própria história do esporte e da cultura sertaneja da cidade.

Nascido em Barretos em 2 de julho de 1939, filho de Silvio Marchi e Tereza Sartori Marchi, Osmar passou parte da infância em Orindiúva, mas retornou ainda menino à terra natal. Aos 12 anos, movido pelo sonho de se tornar jóquei, iniciou o caminho que o levaria a uma vida inteira dedicada aos animais, aos cavalos e às montarias.

Muitos anos depois, tive o privilégio de registrar parte de suas memórias durante a concepção da exposição “Paixão sem Limites”, realizada no Museu Histórico, Artístico e Folclórico “Ruy Menezes”, em agosto de 2009. Como gestora do museu à época, fui responsável pela criação da mostra, concebida para homenagear, ainda em vida, um dos grandes nomes da história do rodeio barretense. Ao reunir fotografias, objetos, documentos e recordações de sua trajetória, a exposição procurou reconhecer a contribuição de um homem que ajudou a construir a identidade cultural de Barretos. Acima, Osmar Marchi diante de uma fotografia de sua carreira no rodeio estilo cutiano, durante a exposição “Paixão sem Limites”. Mais do que uma imagem, um momento de reencontro com as memórias que ajudaram a construir a história do rodeio barretense.

A manhã do dia 15 de agosto de 2009 foi marcada por emoção e reconhecimento. Amigos, familiares, admiradores e representantes de diversas instituições se reuniram para celebrar a trajetória daquele peão que levou o nome de Barretos para inúmeras arenas do Brasil.

A dupla Milton Colengui e Paulinho emocionou a todos com a interpretação de Mágoa de Boiadeiro, arrancando lágrimas da família Marchi. O saudoso berranteiro Alceu Garcia prestou sua homenagem tocando os parabéns ao som do berrante. O poeta e compositor Jota Carvalho trouxe versos inspirados no universo boiadeiro, enquanto Valdinei compartilhou uma mensagem de fé, esperança e reflexão que envolveu todos os presentes.

A Associação Os Independentes também participou da homenagem. Representando a entidade, Kapetinha entregou um chapéu a Osmar Marchi. O diretor de Cultura, Dr. Caiel, ofereceu uma placa de prata em reconhecimento à sua trajetória, enquanto eu entreguei flores à esposa, Dona Fátima Marchi.

No centro de todas aquelas manifestações estava um homem simples, sorridente e generoso com suas lembranças.

Durante nossa conversa, para construir a exposição, Seu Osmar relembrou a infância, a carreira de jóquei e a paixão pelos animais que o acompanhou por toda a vida.

“A lida com os animais sempre foi minha paixão”, dizia.

Antes dos rodeios, acumulou vitórias como jóquei. Com o passar dos anos, porém, o aumento de peso tornou inviável a continuidade nas pistas. Foi então que passou a trabalhar diretamente com cavalos.

“Eu domava burros chucros, capava cavalos, fiquei famoso pelo meu serviço.”

Foi nessa época que recebeu um incentivo decisivo de Zequinha Amêndola, amigo de quem falava com enorme carinho. Zequinha, que mais tarde se tornaria um dos fundadores de Os Independentes, acreditava que Osmar possuía talento para competir nos rodeios.

“Ele dizia que eu devia montar no rodeio. O primeiro rodeio foi em 64. Fiquei em terceiro lugar.”

O jovem jóquei Osmar Marchi, em seus primeiros anos dedicados ao universo equestre. O talento e a intimidade com os animais que o destacaram nas pistas seriam, mais tarde, marcas de sua brilhante carreira nos rodeios.

Aquela estreia modesta foi apenas o começo.

O ano de 1966 marcou definitivamente sua trajetória. Na Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos, montando o cavalo Bolito, de propriedade de Jorge dos Santos, conquistou o título mais importante de sua carreira. Mais do que uma vitória pessoal, aquele resultado entrou para a história da cidade: Osmar Marchi tornou-se o primeiro barretense a conquistar o título da Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos no rodeio em cavalos estilo cutiano, uma das modalidades mais tradicionais e emblemáticas do rodeio brasileiro.

Ao recordar aquele momento, seus olhos pareciam reviver a emoção da arena:

“O público vibrou, fui muito aplaudido. Dali em diante ganhei vários rodeios.”

No ano seguinte, repetiu o feito e conquistou novamente o título, tornando-se bicampeão da principal arena do país.

A dimensão dessa conquista pode ser medida pelo tempo. Somente em 2021 outro competidor nascido em Barretos voltaria a alcançar o lugar mais alto do pódio na Festa do Peão. Entre um título e outro, passaram-se mais de cinco décadas, um intervalo que ajuda a compreender a importância histórica de Seu Osmar para o rodeio barretense.

A partir de Barretos, seu nome ganhou as estradas do Brasil.

Ao longo da carreira, conquistou títulos em Paulo de Faria, Riolândia, Presidente Prudente, Jales, Águas de São Pedro, Piracicaba, Bálsamo, Birigui, Guapiaçu, Dracena, Olímpia, Franca, Londrina, Florianópolis, Iumas, Goiânia, Anápolis, Três Lagoas, Santa Helena e muitas outras cidades. Em Santa Helena, Goiás, recebeu o apelido de “Rei do Laço”, reconhecimento por sua habilidade e talento.

Em várias regiões do país, também ficou conhecido como “Paulistinha”. Para muitos admiradores, era simplesmente o “Italianinho”, apelido carinhoso que atravessou os anos e permaneceu associado à sua figura.

Ao falar dos rodeios do passado, fazia questão de destacar as diferenças entre aquela época e os dias atuais.

“O peão tinha que ser corajoso.”

As arenas eram de terra batida. Em alguns lugares havia apenas um pouco de grama para amenizar as quedas. Não existiam os equipamentos de proteção que hoje fazem parte da rotina dos competidores. Tudo dependia da experiência, da técnica, do equilíbrio e da coragem.

Ele lembrava que, no antigo Recinto Paulo de Lima Corrêa, a preparação da arena começava semanas antes da festa. Jogava-se água sobre a terra para torná-la menos dura, mas ainda assim os riscos eram constantes.

Foi justamente nesse cenário que Osmar construiu sua reputação. O rodeio estilo cutiano exigia habilidade, preparo físico e confiança. Cada montaria representava um desafio real.

Entre as muitas histórias que contava, uma delas sempre provocava risadas.

“Eu tenho um segredo: quando o animal era muito difícil, eu tomava uma dose de whisky e sempre ganhava.”

A frase, dita entre sorrisos, revelava um pouco do espírito descontraído de quem havia passado a vida enfrentando situações que poucos teriam coragem de enfrentar.

O reconhecimento conquistado por Osmar ultrapassou as fronteiras de Barretos. Décadas depois de encerrar a carreira, continuava sendo lembrado por pessoas que assistiram às suas montarias.

Dona Fátima Marchi costumava relatar episódios emocionantes vividos pela família. Em uma dessas ocasiões, seu filho foi reconhecido por um médico que revelou que uma das maiores emoções de sua vida havia sido assistir às montarias do “Italianinho” na arena barretense.

O respeito conquistado entre peões, tropeiros e admiradores também encontrou espaço na música. Osmar Marchi foi tema da canção “Primeiro Rodeio Furacão”, interpretada por Valdivino, Valdinei e Vantuir, integrantes do famoso grupo de música raiz “Os Jassanãs”. A homenagem demonstra como sua trajetória ultrapassou os limites das competições e passou a integrar a memória afetiva do universo sertanejo.

A paixão pelo rodeio também alcançou as novas gerações da família.

O filho, conhecido como Osmarzinho, chegou a competir como peão em montarias em touros. Embora não tenha seguido carreira no esporte, viveu a experiência das arenas e conquistou premiações. Mais tarde, passaria a atuar junto à Fundação Pio XII, o Hospital de Amor, instituição pela qual Seu Osmar nutria enorme admiração, assim como pelo trabalho desenvolvido por Henrique Prata.

A filha, Fabiana Marchi, também escreveu seu nome na história da Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos ao ser escolhida Primeira Princesa em 1990.

A ligação da família com o universo sertanejo sempre foi profunda.

Embora tenha colecionado títulos e reconhecimento, a carreira também trouxe dificuldades. Como tantos peões de sua geração, Osmar enfrentou lesões e acidentes ao longo dos anos. Ainda assim, jamais perdeu o vínculo com a vida rural.

Gostava da boa comida, especialmente da carne, apreciava a música sertaneja raiz e não renunciava à lida de fazenda.

Homem de fé, era devoto de Nossa Senhora Aparecida. Com convicção, acreditava que sua recuperação de uma grave pneumonia, enfrentada em 2008, havia sido uma graça alcançada por intercessão da santa.

Na época da exposição, aos 70 anos, continuava acompanhando de perto o universo que tanto amava. Falava com entusiasmo de um cavalo chamado Fecha Roda, animal em que depositava grandes expectativas e sobre o qual acreditava que ainda se ouviria falar muito.

As fotografias que acompanham este texto foram cedidas pela família e fizeram parte da exposição “Paixão sem Limites”, realizada em sua homenagem no Museu Histórico, Artístico e Folclórico “Ruy Menezes”. Mais do que registrar vitórias e montarias, elas ajudam a preservar a memória de uma época e de um homem que dedicou a vida ao rodeio.

Ao observá-las, o leitor perceberá arenas diferentes, vestimentas características de outro tempo e a ausência dos equipamentos de segurança que somente anos mais tarde se tornariam obrigatórios. Verá também a transformação de um esporte e da própria Festa do Peão.

Mas, acima de tudo, encontrará a trajetória de um barretense que levou o nome de sua cidade para os quatro cantos do país.

Seu Osmar Marchi foi campeão, pioneiro e referência. Foi o primeiro filho de Barretos a conquistar, no estilo cutiano, o principal título da Festa do Peão de sua terra. Foi personagem de música, inspiração para novas gerações e exemplo de dedicação ao universo sertanejo.

A história da Festa do Peão de Barretos é feita de muitos personagens. Entre eles, Seu Osmar ocupa, com justiça, um lugar de honra. Recordar sua trajetória é preservar a memória de uma geração que ajudou a transformar o rodeio em um dos mais importantes símbolos da cultura brasileira.

Osmar Marchi em plena ação no rodeio estilo cutiano. No movimento firme do cavalo e na postura segura do peão, a fotografia eterniza a coragem de uma geração que ajudou a construir a história da Festa do Peão de Barretos.
Osmar Marchi ao lado de Roberto de Ávila, presidente de Os Independentes em 1966. Naquele ano, o peão barretense conquistaria o título da Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos no estilo cutiano, tornando-se o primeiro filho da cidade a alcançar esse feito.

Osmar Marchi em plena ação no rodeio estilo cutiano. No movimento firme do cavalo e na postura segura do peão, a fotografia eterniza a coragem de uma geração que ajudou a construir a história da Festa do Peão de Barretos.

Infelizmente, a trajetória de Seu Osmar terminou em 13 de fevereiro de 2022. Aos 80 anos, o lendário peão barretense faleceu em decorrência da Covid-19.

As imagens a seguir registram momentos da exposição “Paixão sem Limites”, realizada em agosto de 2009 no Museu Histórico, Artístico e Folclórico “Ruy Menezes”. Mais do que uma homenagem, o evento celebrou a trajetória de Osmar Marchi e reuniu familiares, amigos, admiradores e representantes da cultura sertaneja em reconhecimento a um dos grandes nomes da história do rodeio barretense.

Alceu Garcia ao berrante, tocando “Parabéns” ao lado da dupla Paulinho e Milton Colenghi, durante as homenagens prestadas a Osmar Marchi na abertura da exposição “Paixão sem Limites”, em 2009.
Jota Carvalho declama poemas sertanejos durante a abertura da exposição “Paixão sem Limites”, acompanhado pelo violeiro Milton Colenghi. Um momento de celebração da cultura caipira e das tradições que moldam a identidade de Barretos.
Familiares de Osmar Marchi reunidos durante a exposição “Paixão sem Limites”. Ao lado do homenageado, sua esposa Dona Fátima, o filho Osmarzinho, filhas e netos celebram a trajetória de um homem cuja história se confunde com a própria história do rodeio barretense.
Em um dos momentos mais tocantes da homenagem, Valdinei conduziu uma reflexão sobre fé, gratidão e superação, valores que também marcaram a trajetória de Osmar Marchi.
Entrega de flores a Dona Fátima Marchi durante a abertura da exposição “Paixão sem Limites”, realizada em homenagem a Osmar Marchi. Um gesto de reconhecimento à família que compartilhou vitórias, desafios e a paixão pelo rodeio.

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