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A história dos cemitérios e dos rituais de despedida em Barretos

 A história dos cemitérios e dos rituais de despedida em Barretos
  • Por Sueli Fernandes

O respeito aos mortos acompanha a humanidade desde seus primórdios, como um gesto que revela culturas, crenças e modos de vida. Em Barretos, essa relação entre os vivos e aqueles que partiram foi sendo construída ao longo do tempo, refletindo transformações sociais, religiosas e sanitárias, mas também guardando experiências profundamente pessoais.

Até meados do século XIX, no Brasil, era comum sepultar os mortos no interior das igrejas ou em seus arredores. Vivos e mortos compartilhavam, simbolicamente, o mesmo espaço sagrado. Contudo, a partir do século XIX, preocupações com epidemias e higiene pública levaram à proibição gradual desses sepultamentos, culminando com o Decreto Imperial nº 796, de 14 de junho de 1851.

Quando Barretos foi oficialmente fundada, em 25 de agosto de 1854, essa nova orientação já estava em vigor. Ainda assim, antes da organização formal do povoado e da construção da primeira capela, por volta de 1856, a região já era habitada. E, com os moradores, vinha também a necessidade inevitável de lidar com a morte.

Muito antes da fundação oficial da cidade, existia um local de enterramentos próximo à região então conhecida como São Domingos, área que corresponde hoje ao espaço onde se encontra o almoxarifado da prefeitura. Esse primeiro cemitério, anterior a 1854, simples e improvisado, foi utilizado até cerca de 1870. Ali, sem grandes estruturas ou formalidades, os pioneiros realizavam seus rituais de despedida conforme suas possibilidades, unindo fé, necessidade e costume em um território ainda em formação.

Com o crescimento da cidade e o fortalecimento da vida religiosa, surgiu um segundo cemitério, localizado nas proximidades da capela, ocupando a área compreendida entre as avenidas 19 e 21 e as ruas 18, 20 e 22. Posteriormente, com a expansão urbana e o avanço de uma mentalidade higienista, que defendia o afastamento dos mortos do convívio cotidiano, tornou-se necessária a criação de um novo espaço, mais distante do núcleo habitado. Foi nesse contexto que se estabeleceu o Cemitério da Paz, no alto da Avenida 21. Ali foi realizado, em 7 de dezembro de 1899, o primeiro sepultamento, o de Antônio da Cunha Vasconcelos.

Mas a história dos cemitérios não se constrói apenas com espaços físicos — ela se entrelaça às experiências humanas e aos rituais de despedida.

Até cerca de quarenta anos atrás, era costume velar os mortos nas próprias casas. A sala tornava-se local de encontro entre familiares e amigos, que atravessavam a madrugada juntos. A funerária organizava cadeiras, preparava café e lanche, criando um ambiente de acolhimento coletivo. O cortejo seguia pelas ruas em forma de procissão, passava pela igreja para a encomenda da alma e, em sinal de respeito, o comércio fechava suas portas.

Outro costume que marcou profundamente esses rituais de despedida, sobretudo em tempos mais antigos, era o transporte dos corpos em carros de boi. Lentos e solenes, esses veículos atravessavam estradas de terra ao som cadenciado das rodas e do tropel dos animais, compondo uma cena carregada de simbolismo e respeito. Esse costume foi observado recentemente, em 2018, na cidade de Engenheiro Coelho, quando o cidadão mais velho da cidade, um produtor rural de 103 anos foi conduzido ao cemitério dessa forma, em uma tocante procissão que reafirmou a força das tradições e da memória coletiva.

Foto/Fonte: https://g1.globo.com/sp/piracicaba

Os costumes fúnebres marcaram profundamente muitas vidas, inclusive a minha. Guardo lembranças muito vivas da infância, em um velório familiar. Eu era criança, estava tomada pelo cansaço e lutava para não dormir. Em meio à movimentação da casa, fui acomodada com meus primos em um dos quartos. Sem perceber, acabei cochilando justamente na cama onde, até instantes antes, estava a tampa do caixão. Impressionada com aquela situação, e tentando resistir ao sono, acabei sonhando que estava sendo enterrada viva. Foi uma experiência intensa, que revela o quanto a morte, naquele tempo, estava presente dentro das casas e fazia parte do cotidiano das famílias.

Anos depois, já adulta, vivi uma despedida muito diferente, e igualmente marcante. Trata-se de uma experiência pessoal, ligada ao falecimento de meu sogro, Ale Abdul Mooti Abou Karnib, libanês de origem e praticante do islamismo.

Seu velório foi realizado na Mesquita Muçulmana de Barretos, e lembro-me da complexidade e da sensibilidade daquele momento. Havia uma grande diferença de costumes: apenas ele era muçulmano, enquanto minha sogra, dona Nice, era católica. Foi necessário um diálogo cuidadoso entre os líderes religiosos e a família de meu esposo, Samir Karnib. Como, em vida, ele havia manifestado o desejo de seguir os ritos do islã, sua vontade foi respeitada.

Acompanhei todo o processo. O corpo foi preparado segundo os preceitos islâmicos: homens muçulmanos o lavaram três ou cinco vezes, não me recordo ao certo, envolveram-no em tecido branco sem costura, o kafan, e o perfumaram. Em seguida, realizaram as orações pedindo o perdão e a misericórdia de Allah. Essas etapas foram acompanhadas apenas por homens.

Quando o corpo chegou a Mesquita surgiu um momento muito delicado: minha sogra desejava ver o rosto de seu marido. Após muita conversa, chegou-se a um acordo. O corpo permaneceu envolvido, mas com o rosto exposto, atendendo a uma necessidade afetiva ligada à tradição cristã. Ainda assim, algumas normas foram rigorosamente mantidas. Apenas os homens tinham permissão para tocar o corpo, às mulheres, inclusive à própria esposa, esse contato não era permitido após a preparação. Coube a nós respeitar esse limite e viver a despedida à distância física, expressando a dor com contenção, em silêncio, numa aceitação serena da vontade divina.

O sepultamento ocorreu no Cemitério da Paz e seguiu o rito islâmico: o corpo foi colocado diretamente na terra, de lado, voltado para Meca, e o caixão utilizado apenas para o velório e transporte foi posteriormente doado. Hoje, há uma área específica no Cemitério para enterramentos de muçulmanos.

Essa vivência me marcou profundamente. Ela revelou, de forma muito clara, que mesmo diante da morte — talvez especialmente diante dela — diferentes culturas e religiões podem dialogar, negociar e construir formas de respeito mútuo.

Assim, a história dos cemitérios de Barretos não é apenas a história de lugares onde se enterram os mortos. É, sobretudo, a história de como os vivos aprendem a se despedir. Entre práticas antigas, transformações urbanas e memórias pessoais, permanece um elemento constante: o desejo de honrar aqueles que partiram e preservar, no tempo e na lembrança, aquilo que nos torna humanos.

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