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Telefonistas de Barretos: Vozes que Construíram a Modernidade
- Por Sueli Fernandes
Foi no início do século XX que as mulheres ingressaram de modo definitivo no mercado de trabalho. A princípio, em espaços fechados, pois acreditava-se que assim estariam protegidas dos perigos e influências negativas da vida moderna. Não por acaso, os primeiros espaços foram as salas de aula: a sociedade via nelas a extensão natural do cuidado doméstico, já que estavam habituadas a cuidar de filhos, sobrinhos e irmãos.

Essa lógica, entretanto, revela mais sobre os limites impostos às mulheres do que sobre suas reais capacidades. O trabalho docente era aceito porque se confundia com o papel maternal, reforçando a ideia de que o espaço público só lhes seria permitido se guardasse semelhança com o privado. Mas, ao mesmo tempo, esse ingresso abriu brechas: da sala de aula às fábricas de tecelagem e fiação, e destas às centrais telefônicas, as mulheres foram conquistando territórios que antes lhes eram negados.
A profissão de telefonista é um exemplo eloquente dessa transição. Embora fosse justificada por estereótipos — “faladeiras”, diziam alguns —, na prática exigia disciplina, técnica e ética. As instruções sobre tom de voz, escolha de palavras e manipulação dos equipamentos revelam que não se tratava de mera tagarelice, mas de um trabalho especializado que conferia às mulheres protagonismo em uma das mais modernas formas de comunicação da época.

O sucesso da profissão estava também na rapidez das comunicações. Ainda que uma ligação pudesse demorar quatro horas para ser completada, era um avanço extraordinário em comparação às cartas e telegramas que levavam dias. Mais do que a velocidade, havia o calor humano: pela primeira vez, era possível ouvir a voz de alguém distante. O telefone transformava a comunicação, tornava-a mais humana — apesar do aparelho.
Circulou de 1928 até 1973 a Revista Sino Azul, uma das pioneiras publicações empresariais brasileiras, criada pelos funcionários da Companhia Telefônica Brasileira (CTB). Com alto padrão gráfico e editorial, muitas fotos e ilustrações, a revista informava e entretinha, o que fez dela muito maior doque um veículo interno: foi um verdadeiro registro da evolução da telefonia e, ao mesmo tempo, da história urbana e social do Brasil ao longo de mais de quatro décadas. A revista era distribuída gratuitamente para os funcionários.
Suas edições documentavam não apenas a expansão das linhas telefônicas, mas também aspectos da vida social e cultural de seus funcionários, homenagens aos funcionários destaques de cada estação, além de acontecimentos relevantes das cidades atendidas, funcionando como um espelho da modernização do país. Ao mesmo tempo em que instruía tecnicamente os funcionários, a Sino Azul ajudava a formar uma identidade corporativa e profissional, reforçando o papel da CTB como agente de progresso.


Acima, registros de diferentes trechos da Rua 20 em 1934. Observam-se as cruzetas utilizadas pela Companhia Telefônica Brasileira (CTB), estruturas de aspecto rústico e funcional, projetadas para sustentar múltiplos fios de cobre nus que garantiam o funcionamento da rede.
Assim, ao ilustrar o texto com fotos da Revista Sino Azul, não estamos apenas exibindo imagens antigas: evocamos uma publicação que foi testemunha e protagonista da modernização das telecomunicações no Brasil. Entre suas páginas, encontram-se registros preciosos das mulheres barretenses que atuaram na Companhia Telefônica local, além de relatos de acontecimentos marcantes na vida da cidade. Graças a essas fotografias, podemos conhecer os rostos dessas trabalhadoras, suas expressões e sua presença no cotidiano urbano — um patrimônio histórico fascinante que preserva a memória da participação feminina na construção da modernidade em Barretos e nos convida a refletir sobre o papel dessas vozes na história da comunicação.

Registro da entrega do emblema de bronze à srta. Ernestina Volonte, funcionária do tráfego de Barretos, em 1940. A distinção representava uma medalha de reconhecimento concedida pela Companhia Telefônica Brasileira aos empregados em homenagem ao tempo de serviço, símbolo de dedicação e valorização profissional.
O registro fotográfico abaixo revela um hábito comum em Barretos nas primeiras décadas do século XX: reunir-se às margens do Rio Grande para celebrar com churrasco. Mais do que um espaço natural, o rio funcionava como uma espécie de clube para os moradores, ponto de encontro e lazer coletivo. A cena mostra a festividade organizada pela União dos Empregados no Comércio em comemoração à Páscoa de 1934, traduzindo o espírito comunitário e festivo da cidade naquele período. A Revista Sino Azul destaca, entre os presentes, Alfeu A. Reis, então Secretário-Geral da U.E.C. e Chefe da Estação Telefônica de Barretos, figura que simboliza a conexão entre vida social e modernização das comunicações na cidade.

Abaixo, registro do pessoal da Estação Telefônica de Barretos em 1937. Ao centro, aparece Geraldo Guimarães, chefe da estação, ladeado por Edith Barcellos, telefonista encarregada, à esquerda, e Manoela Cristina Pagani, telefonista, à direita. Em pé, completam o grupo as telefonistas Dolores Gomes Cavalheiro, Maria Aparecida da Silva Xavier, Bernardina de Faria, Laura Lara e Maria Cafruni — rostos que marcaram a presença feminina na história das telecomunicações da cidade.

O valor histórico da publicação é tão significativo que seu acervo foi digitalizado pela Fundação Telefônica Vivo, tornando-se recurso de pesquisa acessível ao público. Esse trabalho resultou também no lançamento do livro Nas Capas da Sino Azul, que reúne e analisa parte desse legado gráfico e documental.
No Brasil, a atuação da telefonista era indispensável até a década de 1980. Hoje, a atividade está praticamente extinta diante do processo de automação da telefonia.
Mais do que operadoras de equipamentos, as telefonistas foram mediadoras de vozes, de encontros e de afetos. Elas simbolizam a entrada definitiva das mulheres em um espaço de modernidade, onde disciplina e técnica se somavam à sensibilidade humana. Cada ligação completada era também um gesto de aproximação, uma ponte entre distâncias. Ao lembrarmos dessas trabalhadoras, não celebramos apenas uma profissão hoje extinta, mas reconhecemos sua contribuição decisiva para que Barretos e o Brasil se conectassem ao futuro. A memória das telefonistas permanece como testemunho de que a modernização das telecomunicações foi, sobretudo, uma história de mulheres que deram voz à modernidade.


