Cicatrizes e Recordações: Um Pouco da Minha História com o Museu Ruy Menezes
Cicatrizes e Recordações: Um Pouco da Minha História com o Museu Ruy Menezes
- Por Sueli Fernandes
Os museus são espaços onde o passado se revela em detalhes e nos permite compreender como viviam nossos antepassados, seus hábitos e costumes. Cada objeto, cada fotografia, cada máquina e até mesmo o prédio são vestígios de outras épocas, guardiões silenciosos de histórias que moldaram nossa identidade e nos conectam a vidas que já se foram. O Museu Histórico, Artístico e Folclórico “Ruy Menezes” é um desses lugares mágicos, onde o passado se revela em fragmentos que, juntos, compõem a identidade da nossa cidade e da nossa gente.
Minha ligação com o Museu é profunda. Ingressei na Secretaria da Cultura justamente quando ela foi criada, e vivi intensamente os primeiros passos dessa estrutura que nascia com grandes responsabilidades. Logo nos deparamos com um desafio monumental: uma severa infestação de cupins, que obrigou o fechamento do Museu em 1995. À frente da cidade estava o prefeito Nelson James Wright, e a recém-nomeada Secretária de Cultura, Juçara Carbonaro Guerreiro, assumia a missão de recuperar o prédio e restaurar peças comprometidas. Nós, funcionários, fomos mobilizados a participar dessa empreitada, e assim começava uma fase de aprendizado e dedicação que jamais esquecerei.
Sem experiência em restauração, recebemos orientação de técnicos do Memorial da América Latina, que nos ensinaram pacientemente os procedimentos adequados. Foi nesse contexto que trabalhei no restauro do gramofone, uma das minhas peças favoritas, inventado por Emil Berliner em 1887. Uma peça fascinante: sua base de madeira e corneta metálica nos transportam para uma época em que a música surgia sem eletricidade, apenas pela engenhosidade mecânica. Ao tocá-lo, senti o peso da história em minhas mãos. A agulha, implacável, deixou em mim uma pequena cicatriz no dedo, marca de um trabalho árduo, mas também símbolo da entrega e da admiração que tenho por essa peça intrigante, cruel e bela.

Outras peças igualmente encantadoras compõem o acervo. Entre elas, destaca-se a máquina de escrever Gundka, produzida na Alemanha por volta de 1910, uma verdadeira raridade de colecionador. Portátil e singular, essa pequena máquina surpreende pela engenhosidade: em vez do tradicional sistema de teclas, possui um cilindro que funciona como uma alavanca frontal. O usuário selecionava a letra em um disco rotativo e, ao acionar o mecanismo, ela era impressa no papel.
Uma invenção excêntrica e fascinante, que nos faz refletir sobre a criatividade humana e sobre como até experimentos ousados tiveram papel na evolução da comunicação escrita. A Gundka, com sua aparência curiosa e funcionamento inusitado, é testemunho de uma época em que inventores buscavam incessantemente novas formas de registrar palavras e ideias, abrindo caminho para os modelos que viriam a se consolidar mais tarde.
Já o relógio de algibeira, o famoso cebolão, carrega consigo uma aura de elegância e memória afetiva. Para mim, é especial porque meu avô materno sempre trazia um desses no bolso da calça preso ao passador por uma elegante corrente. Lembro-me do gesto delicado de abrir a tampa para conferir as horas, um ritual que se transformou em lembrança viva, impregnada de afeto e nostalgia.
Estima-se que por volta de 1908, a pedido de Santos Dumont, o pai da aviação, tenha sido produzido o primeiro relógio de pulso. Até então, o modelo tradicional era o relógio de bolso, mas para Santos Dumont esse hábito se tornava um obstáculo: em suas experiências “voadoras”, retirar o relógio do bolso dificultava o controle preciso do aparelho pilotado e a administração do tempo de voo. Foi então que ele encomendou a um amigo da empresa Cartier a criação de um relógio que pudesse ser usado no pulso.
A novidade, embora prática, causou estranheza. Nossos antepassados acharam o modelo extravagante, até mesmo esquisito. Quem poderia imaginar que um objeto tão associado à elegância do bolso passaria a ser exibido no braço? O que parecia excêntrico no início do século XX tornou-se, com o passar das décadas, o modelo mais popular do mundo. Hoje, o relógio de pulso é parte do cotidiano, enquanto o relógio de algibeira se transformou em raridade, uma peça de museu e de colecionador.
Esse episódio nos permite refletir sobre como os hábitos e costumes mudam ao longo do tempo. O que já foi tradição pode se tornar curiosidade, e o que já foi visto como extravagância pode se tornar prática comum.
Assumi a gestão do Museu “Ruy Menezes” em 2007, e desde então vivi intensamente os desafios e conquistas dessa instituição que guarda a memória da nossa cidade. Recordo com carinho a primeira experiência educativo-cultural que realizamos, junto à turma da E.M. “Prof. Orival Leite de Matos”, conduzida pela professora Ana Maria Guilherme. Eram crianças educadas, adoráveis e curiosas, que se encantaram com cada detalhe da visita. Ao nos despedirmos, senti que precisava reconhecer o comportamento exemplar delas. Entrei no ônibus e, em meio a sorrisos, agradeci com uma salva de palmas. Estavam de parabéns — e nós, profundamente gratos pela vivência.
No dia seguinte, fui surpreendida com uma pasta repleta de redações carinhosas, registros do olhar das crianças e um delicado vaso de flores. Em uma das redações, um trecho me marcou profundamente: “Eu gostei de tudo no Museu, mas o que eu mais gostei foi, que nós fomos parabenizados pela Diretora do Museu bem na saída e isso é o que teve mais importância para mim. Como é bom conhecer a arquitetura. Como é bom ser valorizado.” Naquele instante, tive a certeza de que poderíamos desenvolver um projeto educativo-cultural no Museu. Essa experiência me fortaleceu para apresentar uma proposta de mediação ao Estado, aprovada com entusiasmo. Assim, em 2009, passamos a integrar a rede de Museus parceiros do programa “Cultura é Currículo: Lugares de Aprender – A escola sai da escola”, que tantas alegrias e experiências gratificantes nos proporcionou. O programa integrava o currículo oficial do Estado de São Paulo.

Alunos preparados em sala de aula chegavam ao Museu curiosos e interessados pela “viagem no tempo” que começava pela arquitetura do prédio. Nós éramos apenas o passaporte, o meio que possibilitava essa travessia, conduzíamos os alunos por uma narrativa envolvente através dos objetos. Recebíamos estudantes de toda a região, num raio de 100 km, e o trabalho foi amplamente elogiado pela Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE). Fomos até citados em um Encontro Estadual de Museus como modelo de projeto educativo — jamais esquecerei o som das palmas no auditório Simón Bolívar do Memorial da América Latina, naquela tarde nublada na capital paulista.
Fruto da parceria com a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, foi desenvolvido um vídeo de apresentação do Museu “Ruy Menezes”, que permanece como registro vivo da nossa história e está disponível no YouTube.

Esse vídeo é mais do que uma simples apresentação: é uma janela aberta para que qualquer pessoa, mesmo à distância, possa conhecer o acervo, sentir a atmosfera do espaço e compreender a importância de preservar a memória cultural. Nele, além das imagens e narrativas sobre o patrimônio, há o depoimento emocionante de um ex-combatente da Revolução de 1932, cuja voz confere autenticidade e profundidade à história. Ouvir quem viveu os acontecimentos e pode testemunhar o valor das peças expostas é um privilégio raro, que transforma o vídeo em um documento histórico e afetivo, capaz de aproximar o público das memórias de luta e resistência que moldaram nossa identidade.
Em 2011, tive a honra de assumir a função de Coordenadora Regional de Museus da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, recebendo a missão de promover a interlocução entre os 19 municípios da 13ª Região Administrativa e o Estado. Não foi apenas um cargo: foi uma travessia para um universo ainda mais amplo, onde o patrimônio material e imaterial se revelava em toda a sua complexidade.
Cada reunião, cada capacitação, cada visita técnica, cada diálogo com gestores locais me despertava para a riqueza das tradições, para a força das memórias coletivas e para a urgência de preservar aquilo que nos define como povo. Foi uma experiência que ampliou meu olhar e me fez compreender que os museus não são apenas espaços de guarda, mas também de articulação, de resistência e de vida.
É fundamental reconhecer o árduo trabalho do atual gestor, José Marcelo F. Semerano, que conduz o Museu “Ruy Menezes” com dedicação e seriedade, enfrentando com coragem a realidade de recursos escassos que marca tantas instituições culturais no Brasil. Dirigir um museu não é apenas administrar um espaço físico: é cuidar de um patrimônio vivo, que exige constante atenção, criatividade e compromisso.
Ao lado de sua equipe, formada por Alan Capovila Gil e Ana Paula Oliveira, mantém acesa a chama da cultura, garantindo que o Museu continue sendo um espaço de encontro entre passado e presente, tradição e futuro. Cada visitante é recebido com simpatia e entusiasmo, tornando a experiência ainda mais significativa. Vale a pena visitar o Museu: garanto que o amigo leitor será acolhido com atenção e respeito, e sairá de lá com o coração tocado pelas histórias que cada objeto guarda em silêncio.
Visitar o Museu “Ruy Menezes” é mais do que observar peças antigas: é sentir o peso do tempo, descobrir memórias escondidas e, quem sabe, despertar lembranças guardadas no coração. Afinal, cada objeto pode ser a chave para uma emoção esquecida, pronta para ser revivida.


