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A História das Fugas das Cadeias de Barretos

 A História das Fugas das Cadeias de Barretos
  • Por Sueli Fernandes

Barretos, cidade marcada por tradições e memórias, guarda também em seus arquivos episódios sombrios e inquietantes: as fugas de suas cadeias públicas. Entre paredes frias e corredores estreitos, o tempo registrou não apenas tentativas de liberdade, mas também tragédias que se tornaram parte da narrativa histórica local.

1920 – A fuga pela chave

Era 16 de setembro de 1920 quando o silêncio da noite foi rompido por uma ousadia calculada. Os presos, astutos e pacientes, conseguiram uma chave com o próprio carcereiro. O ferro das celas, que por anos lhes negara o mundo exterior, cedeu ao toque clandestino do metal. Ao escaparem, depararam-se com o escrevente da polícia na rua. O encontro foi súbito, tiros ecoaram, mas nenhum dos fugitivos foi capturado. A cidade acordou com a notícia, e o episódio se somou ao repertório das histórias de fuga que alimentavam tanto o medo quanto o fascínio popular.

Foto: Edifício histórico de Barretos: antiga Cadeia Pública, que também sediou Fórum e Delegacia. Fonte: Museu Ruy Menezes.

1926 – A fuga pela parede

Seis anos após a ousadia de 1920, a cadeia de Barretos voltou a ser palco de uma façanha que impressionou pela engenhosidade e pela paciência dos detentos. Não houve chaves furtadas nem tiros trocados nas ruas. O plano, desta vez, nasceu do silêncio das madrugadas e da persistência de mãos calejadas.

No interior da cela, os presos começaram a escavar o alicerce com instrumentos improvisados: pedaços de ferro, colheres desgastadas pelo uso e até mesmo as próprias mãos. A cada noite, um pouco de terra era removida e cuidadosamente escondida, para que os guardas não percebessem. O trabalho era lento, mas constante. Pouco a pouco, o caminho da liberdade foi sendo aberto, até que finalmente atravessaram a parede. Ao abandonarem o cárcere, inscreveram na memória da cidade uma fuga engenhosa, marcada pela astúcia e pela obstinação.

Entre os fugitivos estava José Correa da Silva, considerado o autor intelectual da proeza. Sua fama de alta periculosidade já era conhecida: ele havia sido preso justamente pelos assassinatos que chocaram a região — o do coronel Salustiano Custódio Silveira, em Barretos, e do juiz aposentado dr. Pacífico Gomes de Oliveira, em Olímpia. A fuga de 1926, portanto, não apenas libertava um preso comum, mas devolvia às ruas um homem cuja trajetória já estava marcada pela violência e pelo medo que inspirava.

O destino, porém, lhe reservava um desfecho inesperado. Em 1927, debilitado por problemas de saúde, procurou atendimento médico em São Paulo. Apresentou-se com o nome falso de Elias Ferreira, tentando ocultar sua verdadeira identidade. Internado para tratar de hemorroidas, não resistiu à cirurgia e faleceu na mesa de operação.

Assim, José Correia da Silva, que tantas vezes escapara da justiça dos homens, acabou por “acertar contas com Deus”. O episódio foi noticiado pelo Jornal A Gazeta, São Paulo, em 21 de fevereiro de 1927, que, com fina ironia, comunicava às autoridades policiais que não havia mais necessidade de procurá-lo: a morte havia encerrado sua trajetória de fugas e crimes. O corpo foi sepultado em Cresciuma, atual cidade de Guaraci, onde — pasmem! — ele chegara a ocupar o cargo de subdelegado, como se a própria ordem pública tivesse sido, por um tempo, guardada por quem dela vivia a se esquivar.

1973 – O incêndio que virou inferno

Décadas depois, em fevereiro de 1973, a cadeia de Barretos seria palco de uma tragédia sem precedentes. Edno Luiz dos Santos, o Edinho, jovem de 25 anos condenado por roubo de automóveis, arquitetou um plano macabro. Desejava a transferência para a Penitenciária da capital, onde acreditava que a vida seria menos cruel, posto que, lá havia ocupação para os presos. Frustrado, decidiu que sua fuga seria marcada por chamas.

Na cela número 2, um cubículo de 3,50 por 3,50 metros, abrigo de 7 presos, ordenou que camas e colchões fossem untados com cera de assoalho. O fogo, pensava ele, obrigaria os carcereiros a abrir a cela, e no caos surgiria a oportunidade da evasão. Mas o cálculo falhou. As labaredas, alimentadas pela espuma dos colchões, cresceram rápidas e vorazes, ergueram-se como muralhas incandescentes e transformaram o espaço em um purgatório sem saída.

Um soldado da Polícia Militar, testemunha ocular, descreveu o episódio em depoimento publicado no Diário da Noite: “Eu vi e nunca mais esquecerei aqueles homens, a poucos metros de mim, separados por uma barreira de fogo, gritando ante a morte que eles mesmos provocaram. Aterrado, pregado ao solo, como se uma força maior interviesse para me manter assim, senti-me pequeno, impotente para romper a cortina mortal e salvar a todos. Do ponto em que eu estava, no corredor, diante das labaredas que ameaçavam lamber todo o prédio, vi dois deles, em desespero, agarraram-se às grades transformadas em brasa e, urrando, caírem para trás logo depois. Era o próprio inferno.” Cinco morreram.

Sobreviveu ao incêndio José Paulo de Andrade, encaminhado com queimaduras severas à Santa Casa de Misericórdia de Barretos. Houve ainda um segundo sobrevivente, não por sorte dentro das labaredas, mas pela circunstância de não estar presente no momento da tragédia. Horas antes, acometido por um mal súbito, havia sido levado ao hospital para tratamento. Sua ausência involuntária o salvou de um destino que ceifou seus companheiros de cela.

Edno, que jurara sair “vivo ou morto”, cumpriu sua promessa de forma trágica: saiu morto, vítima de seu próprio plano. O incêndio consumiu colchões, paredes e vidas, deixando a cidade perplexa e marcada pela lembrança de um episódio que expôs não apenas a precariedade das condições carcerárias, mas também o limite extremo da desesperança humana. A cidade, perplexa, carregou por muito tempo a lembrança daquele incêndio que não apenas consumiu colchões e paredes, mas também vidas e esperanças.

Local da tragédia. Diário da Noite, São Paulo, 20.02.1973.
Fonte: Biblioteca Nacional.

2011 – A fuga em massa

Em fevereiro de 2011, a cadeia pública de Barretos voltou a ser manchete nacional. A cena parecia saída de um roteiro cinematográfico: quarenta e três detentos escaparam em uma ação meticulosamente organizada. Oito presos, encarregados da faxina, serraram as grades com paciência e precisão. Quando o momento chegou, renderam dois carcereiros, tomaram armas, celulares e chaves, e abriram todas as portas do presídio. A fuga se deu tanto pelo portão principal quanto pelo muro, numa demonstração clara da fragilidade da estrutura carcerária.

Durante a evasão, os fugitivos roubaram uma moto e uma caminhonete, espalhando o caos pelas ruas da cidade. Nos dias seguintes, dezenove foram recapturados, mas o episódio deixou evidente que a cadeia de Barretos não resistia mais ao peso de sua própria precariedade.

O fato ocorreu justamente na mesma semana em que o Tribunal de Justiça de São Paulo negava um recurso do Ministério Público que pedia a interdição da cadeia. A justificativa era burocrática: o tribunal alegava não ter competência para decidir sobre o tema, que deveria ser tratado pela Secretaria de Administração Pública. Há dois anos, o Ministério Público vinha insistindo na interdição, denunciando as condições degradantes e os riscos iminentes. A fuga, portanto, não foi apenas um ato de rebeldia dos presos, mas também um retrato cruel da negligência institucional.

A Cadeia Pública da rua 30, palco da tragédia de 1973 e da fuga de 2011, foi demolida em 2014, atualmente, especula-se a possibilidade de instalar o Instituto Médico Legal, as delegacias especiais e a própria seccional de polícia em seu terreno.

A memória que persiste

As fugas das cadeias de Barretos não foram apenas atos de rebeldia contra o cárcere. Tornaram-se símbolos de uma época, reflexos de um sistema prisional marcado por precariedades e tensões. Entre a astúcia dos que escaparam em 1920, a engenhosidade de 1926, o desespero dos que pereceram em 1973 e a ousadia coletiva de 2011, a história revela o contraste entre a busca pela liberdade e o peso das grades que a negam.

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