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O Santo Homem de Barretos: fé, perseguição e memória

 O Santo Homem de Barretos: fé, perseguição e memória
  • Por Sueli Fernandes

Barretos, início do século XX. As ruas de terra vermelha e o burburinho da pequena cidade sertaneja testemunhavam a passagem de um homem que, sem querer, se tornaria lenda. Seu nome era Francisco Miotti, mas poucos o chamavam assim. Para o povo, ele era simplesmente o Santo Homem.

Alguns registros apontam que Miotti teria vindo de Minas Gerais; outros, porém, relatam que, após perder toda a família em uma tragédia ocorrida em Jaboticabal, passou a peregrinar pela região, carregando consigo a marca da dor e o mistério de sua origem.

Vestia sempre o mesmo terno encardido, cabelos longos caindo sobre os ombros e uma barba espessa que lhe conferia ares de profeta bíblico. Não se preocupava com a aparência, mas trazia nos olhos uma devoção que impressionava. Sobre os ombros, dois sacos atravessados guardavam moldes de velas e roupas. Pelas ruas, caminhava rezando sem cessar, murmurando orações que se misturavam ao som da cidade. Sua fala chamava atenção: um dialeto curioso, mistura de português com italiano, que tornava suas palavras ainda mais enigmáticas e reforçava a aura de mistério que o cercava.

A princípio, parecia apenas um excêntrico. Mas logo sua figura começou a atrair curiosos. Gente simples, aflita, doente, passou a segui-lo. E não apenas eles: fazendeiros também se juntavam à multidão, buscando bênçãos para suas famílias, suas terras e seus negócios. Naquele tempo, os recursos médicos eram escassos e inacessíveis para a maioria. A fé, então, era bálsamo, esperança, remédio. E Miotti oferecia justamente isso: rezas, bênçãos, palavras que confortavam. O povo acreditava que ele era iluminado, capaz de curar e operar milagres.

A fama cresceu. Pessoas vinham não só de Barretos, mas também de cidades vizinhas, para vê-lo, tocá-lo, receber suas bênçãos. Casas humildes exibiam sua fotografia em pequenos altares improvisados, como se fosse santo canonizado. O “Santo Homem” tornara-se parte da vida cotidiana, um símbolo de esperança em tempos difíceis. Miotti era um peregrino que rezava aos pés das cruzes que erguia por onde passava, e sua oração atraía multidões cada vez maiores.

A fotografia, aliás, transformou-se em expressão concreta do comércio em torno do Santo Homem. Sua presença atraía fotógrafos que o acompanhavam, registrando sua imagem e vendendo-a por valores que chegavam a cinco mil réis — quantia considerada elevada à época. Do mesmo modo que o jornal gaúcho O Republicano destacou o intenso comércio de velas, também se relatava que carroçadas e mais carroçadas desse artigo chegavam rotineiramente à região.

Francisco Miotti. Acervo: Museu “Ruy Menezes”.

Mas o que para o povo era devoção, para as autoridades era ameaça. Afinal, Miotti não era oficialmente reconhecido pela Igreja, tampouco pelo Estado. Sua popularidade incomodava, sua influência escapava ao controle. Cartas e artigos em jornais começaram a questionar sua presença, e o peso da ordem institucional caiu sobre ele.

Em 1911, a revista O Malho, do Rio de Janeiro, publicou uma fotografia de Miotti acompanhada de uma carta de um leitor que denunciava:

“O falso Santo circula pela região de Barretos acompanhado por mais de 560 fanáticos, que creem plenamente nas ‘virtudes’ do ‘santo’ a ponto de repelirem toda e qualquer opinião desfavorável a ele. A polícia local o conduziu à delegacia para exame médico. Deste verificou-se tratar-se de um monomaníaco; entretanto, essa hipótese, como as demais, foi repelida pelos ‘crédulos’, que continuam a venerá-lo como entidade superior.”

O autor, identificado como Olympio Campos, fez uso da fotografia para desacreditá-lo, insinuando que pela imagem facilmente se concluiria tratar-se de um pobre desequilibrado.

O jornal O Século também registrou o episódio de sua prisão:

“À saída da cadeia de Barretos, Francisco Miotti — o ‘São Francisco’, como se fez chamar — foi recebido por uma estrondosa salva de palmas de uma numerosa multidão que lotava a praça diante do edifício da cadeia pública. O pobre ‘santo homem’ (já não restam dúvidas de tratar-se de um demente) foi então acompanhado pela multidão até a igreja, onde permaneceu em oração por algum tempo.”

Outra carta, publicada em julho de 1911 no jornal anticlerical A Lanterna e assinada por José Hilário dos Santos, da Vila Olympia, trazia uma descrição pouco lisonjeira do chamado Santo Homem. Segundo o missivista, tratava-se de um profeta malvestido, de cabelos e barba crescidos, “assassinando em suas prédicas o belo idioma de Camões”, mas capaz de reunir diariamente entre 800 e mil pessoas, atraídas por supostas curas realizadas com cera e palha de milho. O mesmo relato denunciava ainda o fervor dos fiéis, que chegariam a declarar-se dispostos a morrer pelo “Santo” e, diante de opositores, recorreriam à violência armada em defesa de sua crença.

Ao acolher a carta, a redação de A Lanterna não apenas reproduziu o relato, mas o utilizou como prova para reiterar sua denúncia contra o fanatismo religioso. O contraste entre a linguagem mordaz do jornal e a devoção popular revela a tensão entre duas forças: de um lado, a autoridade anticlerical e intelectual, empenhada em deslegitimar o movimento e expor seus excessos; de outro, a fé coletiva que, mesmo permeada por práticas radicais, transformava o Santo Homem em símbolo de esperança e resistência. Essa dualidade evidencia como a imprensa buscava enquadrar o fenômeno dentro de um discurso crítico, enquanto a população o vivia como experiência de fé e pertencimento.

A adesão ao Santo crescia de forma notável ao longo de 1911. Em janeiro, jornais já apontavam que Francisco Miotti era seguido por cerca de 560 pessoas, número que impressionava para uma cidade interiorana. Apenas alguns meses depois, em julho, os registros falavam em 800 a mil seguidores, revelando não apenas o aumento exponencial da devoção, mas também a força social que o movimento adquiria em tão curto espaço de tempo.

As autoridades locais passaram a temer pela “perturbação da ordem” caso alguém ousasse desacreditar de sua santidade. Diante das denúncias e da pressão popular, a Força Pública do Estado de São Paulo foi acionada para conter o movimento que se espalhava pelo interior. A ação foi desastrosa. Em seu encalço, partiu de São Paulo o temido tenente Galinha, enviado para acabar com o movimento messiânico que crescia no estado. De gosto peculiar por colecionar orelhas, mas detentor de prestígio na Força Pública, o tenente comandou uma violenta operação que culminou na prisão de Miotti, deixando atrás de si um rastro de sangue e dor.

Deste episódio surgiram duas versões: uma de que Francisco Miotti foi internado no Hospital Juqueri, onde, longe das ruas que o consagraram e das multidões que o seguiam, morreu em 1932. Outra versão, porém, sugere que ele tenha morrido no próprio confronto com a polícia. Seja qual for a verdade, sua partida não apagou a memória: o Santo Homem permaneceu vivo nas lembranças, nos altares improvisados, nas histórias contadas de geração em geração.

Francisco Miotti não foi canonizado, não teve reconhecimento oficial. Mas, para o povo que o acompanhou — gente simples e fazendeiros, homens e mulheres, aflitos e esperançosos — ele foi santo de verdade: santo da fé, da esperança, da necessidade humana de acreditar em algo maior. Sua história é um retrato da Barretos de outrora, onde a religiosidade popular se misturava à vida cotidiana e criava personagens que, mesmo perseguidos, jamais foram esquecidos.

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